Madalena RGBored Santos | DR

“Quero dar um propósito maior à minha arte”, Madalena ‘RGBored’ Santos

“Arte” deriva da palavra latina ars, que significa habilidade, técnica. Na prática, é praticamente impossível tecer um significado absoluto para uma atividade que reúne uma produção tão vasta e diversificada. Arte não se restringe a uma só coisa, pode ser visual: desde desenho, pintura, cinema, arquitetura, cerâmica, escultura e fotografia; literária: drama, poesia e prosa, e performática: dança, música e teatro. 

Leonardo Da Vinci outrora disse que “a arte diz o indizível; exprime o inexprimível, traduz o intraduzível”. Mas o ser humano não se contenta com pouco e é teimoso por natureza, por isso, fomos tentar conhecer e perceber melhor, para descrever em palavras, a arte da ilustração e personalização de Madalena Santos, artista e estudante de Design de Moda, que assina os seus trabalhos como RGBored. 

Madalena, porquê RGBored?

Na verdade, foi uma amiga minha que me obrigou a criar a página   [Instagram] e sugeriu o nome. RGB é um sistema de cores digital (red, green e blue), bored porque estava aborrecida quando surgiu a ideia de começar a fazer ilustrações digitais para passar o tempo.

Como e quando é que nasceu esse gosto pela arte da ilustração e personalização de ténis?

O gosto pela arte da ilustração surgiu no final de 2017. Desde pequenina que sempre adorei desenhar; desenhava e criava personagens parecidos/as com os desenhos animados que via e também passava muito tempo a desenhar vestidos. Acho que foi isso que ditou a escolha do meu curso, Design de Moda. 

Nos projetos, adorava tudo o que tinha a ver com desenho, desde os esboços às ilustrações finais e nos trabalhos em grupo, eu ficava sempre com a parte das ilustrações. Também tínhamos que fazer desenhos, planos das peças e para isso, utilizávamos um programa de design no computador. Um dia pensei “porque não experimentar desenhar caras da mesma forma que faço os desenhos planos?”, e aí comecei a desenhar os meus amigos e fui aperfeiçoando.

A personalização de ténis surgiu no trabalho de final de semestre do primeiro ano de mestrado. Tive que apresentar uma coleção de roupa da minha autoria e quis aliar o design de moda à ilustração. Para o fazer, pensei em desenhar nos ténis que comprei como acessórios dessa mesma coleção. Seria a melhor forma, mas não geri bem o meu tempo. Consequentemente, como fiquei com cinco pares de ténis parados em casa, decidi concretizar a ideia na mesma e aproveitá-la para novos projetos.

Quem são as tuas inspirações?

Gosto muito do trabalho do Roy Lichtenstein, do Bruce W Smith, do Obi Arisukwu, do Vasco Gargalo, da Tamara Alves, do Banksy, entre outros.

Dentro do que fazes, qual é o teu estilo ou o que gostas mais de fazer?

Não acho que tenha um estilo definido. Penso que ainda é algo que estou constantemente a tentar procurar/encontrar e aperfeiçoar. Não sei se algum dia terei, para ser sincera. Costumo basear-me muito na banda desenhada e cartoons. Apesar do conteúdo da página representar mais situações do dia-a-dia ou pensamentos que me surgem, gosto muito de representar pessoas e as suas expressões. Acho que é a minha parte favorita.

Sendo portuguesa mas de raízes africanas, mais concretamente angolanas, de que forma isso influencia na forma como fazes arte?

Nunca tive muito contacto com a minha família angolana porque a minha avó vive em Angola e ainda não tive oportunidade de ir conhecê-la pessoalmente. O maior contacto que tive com as minhas raízes foi através do meu pai, dos meus amigos e do meu namorado. 

Uma vez que gosto muito de criar arte para as pessoas que me são mais próximas, quer seja a representá-las, quer seja a ilustrar episódios em que estejam envolvidas, penso que a influência parte daí. Ainda assim, em design de moda, procurei fazer alguns trabalhos em que explorava padrões étnicos e tinha curiosidade em relação à moda africana, portanto, aí estava igualmente a explorar as minhas raízes.

A arte pode ser um escape?

Sem dúvida. Pessoalmente, às vezes tenho alguma dificuldade em comunicar e expressar aquilo que sinto. A melhor forma para o fazer é ilustrando, acho que não há melhor guia para aquilo que eu penso senão as minhas ilustrações.

Sentes que a ilustração tem a devida importância no meio artístico ou ainda falta algum caminho por percorrer?

Eu penso que a ilustração está a ganhar importância, mas no geral, a cultura ainda sofre uma certa desvalorização por parte das pessoas. Por isso mesmo, ainda temos alguns passos a dar nesse sentido. 

Nem todas as pessoas estão dispostas a pagar o preço justo pelo trabalho do artista e isso é um tipo de desvalorização. Por exemplo, uma das primeiras coisas que nos é dita quando seguimos um caminho artístico é que provavelmente não teremos tantas oportunidades de trabalho, comparando com outras áreas. 

No entanto, a nossa geração, a geração Z, tem mostrado uma maior preocupação no que toca a apoiar pequenos negócios e no que diz respeito à divulgação do trabalho do artista. É algo que estamos a construir e espero que seja possível passar para as gerações futuras, não deixando de educar as gerações ascendentes, como eu tenho tentado fazer com o meu núcleo, no geral.

Como podemos usar a arte para combater as injustiças do mundo e defender causas, como por exemplo o racismo?

A arte é precisamente a área onde não deve existir qualquer tipo de preconceitos ou barreiras. É importante que tenhamos um papel interventivo, porque nós, artistas, somos capazes de difundir ideias, talvez de uma forma informal, mas eficaz. 

Não podemos criar arte apenas como uma expansão de nós mesmos. Temos que alertar as pessoas, precisamente para as causas/problemáticas que nos rodeiam e sensibilizá-las. Temos oportunidade de dar a conhecer a nossa visão do mundo e há sempre alguém que se vai identificar com ela ou que percebe a mensagem que queremos transmitir. Inevitavelmente, há pelo menos uma pessoa que nos ouve e, se temos esse poder enquanto artistas, devemos usá-lo.

Pensas no futuro trabalhar apenas na área do design de moda ou conjugar com a ilustração?

No futuro, não me imagino a trabalhar em Design de Moda. Assim que terminar o curso gostaria de ir estudar novamente, desta vez para aprender aquilo que eu penso que realmente gosto. Espero explorar e conhecer melhor o mundo da ilustração e da animação.

Onde gostarias de ver a tua arte exibida?

Desde pequenina que sonho em criar um desenho animado. Como quero fazer animação, acho que a melhor forma de ter o meu trabalho exposto seria criar um desenho animado que fosse transmitido na televisão ou noutra plataforma e que inspirasse e educasse quem o visse.

A arte é um dos maiores aliados de todos durante esta pandemia, mas pouco se fala do outro lado. Como está a ser este período para ti, enquanto artista?

Está a ser um período ambíguo. Por um lado, está a ser ótimo porque tenho muito mais tempo para me dedicar à minha arte e desenvolver conceitos. 

Nos momentos em que me sinto mais ansiosa e em baixo, com esta questão da pandemia, canalizo todas essas emoções para a ilustração. Por outro lado, baseio-me muito em situações do dia-a-dia para desenhar (coisas que vejo no caminho para a faculdade, coisas que me acontecem na rua, histórias ou trocas de ideias com os meus amigos) e agora não tenho essa fonte de inspiração, tornando inevitavelmente mais complicado desenvolver uma ideia sem ser por sentir necessidade de desenhar, porque estou-me a sentir mais sensível por qualquer motivo.

Enquanto pessoa, ser dissociável da artista, como vês o teu futuro próximo?

Espero continuar a evoluir e conseguir manter o grupo de pessoas que me são mais chegadas e que acabam por me apoiar muito no dia-a-dia. 

Enquanto artista, desejo concluir esta última etapa na área do Design de Moda e “mergulhar” a 100% na ilustração, para me sentir o mais realizada possível. Espero também poder continuar a divulgar o meu trabalho e continuar a passar a minha mensagem.

O que tens preparado de novo?

Tenho uns projetos em mente, mas nada muito definido. Quero contribuir de forma mais expressiva para ajudar o próximo e estou a tentar desenvolver projetos nesse sentido. Já tenho um esboço daquilo que quero fazer, mas faltam alinhavar alguns pormenores. Quero dar um propósito maior à minha arte, sem dúvida.

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BANTULOJA
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Wilds Gomes

Sou um tipo fora do vulgar, tal e qual o meu nome. Vivo num caos organizado entre o Ethos, Pathos e Logos - coisas que aprendi no curso de Comunicação e Jornalismo. Do Calulu de São Tomé a Cachupa de Cabo-Verde, tenho as raízes lusófonas bem vincadas. Sou tudo e um pouco, e de tudo escrevo, afinal tudo é possível quando se escreve.