Pilitchi

“Desistir não pode fazer parte da história”, Pilitchi

Tudo começou como uma brincadeira de amigos num workshop de música no LX Factory, em Lisboa. Sem noção de que aquele momento iria ditar o caminho que ia seguir na vida, Pilitchi fez a sua primeira faixa com os amigos Isaac e Vanessa.

Foi aí que despertou o interesse pela música, pelas rimas e batidas. Criou um grupo, os Soldiers RTM, em 2009. Desde então não parou, fez do bombo e tarola a sua companhia e a música o alicerce.

Em cada letra que escreve, faz questão de mostrar de onde vem e para onde vai, os seus, as ruas onde andou e a bandeira que carrega nas costas. Pilitchi nasceu em Portugal, mas é descendente de cabo-verdianos e foi no crioulo que encontrou segurança nas suas palavras. Era o que mais se falava em casa e no ciclo de amigos e, inicialmente, o que lhe deu mais confiança para cantar, na língua que lhe era familiar.

Passaram-se mais de dez anos desde que uma brincadeira se tornou em algo mais sério. Agora, o que faz é mais maduro, mais intenso, onde os sentimentos e as experiências ultrapassam as fronteiras do bairro onde vive, Zambujal de Loures (arredores de Lisboa).

Em 2011, lançou Nha Alma, o primeiro trabalho composto no formato mixtape e que relata a sua vida e a dos seus. Desde essa altura que o rapper só lança singles, porque, com o tempo, percebeu que seria a estratégia mais favorável para a sua carreira. “Fazer mixtape ou álbum é algo que não nos traz muito a ganhar, para nós artistas que ainda queremos chegar ao topo do rap nacional. A minha opinião é de que com singles somos capazes de chegar mais longe, dar uma maior projeção ao nosso trabalho”, explicou-nos.

Nessa linha de pensamento, o foco manteve-se apenas em criar para lançar. Entretanto, Pilitchi fez uma pausa para voltar com mais garra e sede de conquista. Lançou “Inveja”, “Tóxico”, “Ruas”, e “Anjos”, dedicado aos seus amigos que perderam a vida em diferentes circunstâncias.

“Para mim é muito mais fácil escrever quando estou a viver um momento que me marca bastante. A maior parte das letras que fiz inicialmente, foram dedicadas à minha mãe que faleceu quando eu tinha apenas 15 anos. Quando perdemos alguém, procuramos sempre questionar o porquê disso ter acontecido, o porquê de acontecer a pessoas que sempre tiveram um coração enorme com todas as pessoas, questionamos o dia de amanhã. Como vai ser? As saudades que vamos sentir. Todas essas respostas, que procurava na altura, encontrei-as na música”.

Num mercado, onde muitas das vezes a música acaba por ser instantânea, Pilitchi não quer ser apenas mais um. Quer ser diferente, quer trazer algo com que todos se possam identificar. Faz música onde a essência é a palavra chave e o ponto fulcral, para que a batida se alinhe tal e qual como quer com a letra, numa mistura harmoniosa entre as palavras e o sentimento que resulta no rap que faz. Quer trazer também um estilo diferente do que fazia há dez anos, um rap em que as melodias e a vibe se fundem hegemonicamente.

Para Pilitchi, um artista tem de ser humilde no seu percurso, porque só assim a música fica nos ouvidos de quem a ouve, assim como a sua mensagem. “Quero mostrar a todas as pessoas que ouvem a minha música que se é possível sonhar, então, é possível irmos atrás. Devemos tentar sempre realizar os nossos sonhos e desistir não pode fazer parte da história”.

A evolução da tecnologia e o aparecimentos de plataformas de divulgação e distribuição de música têm feito com que muitos rappers cheguem a alcançar um número de ouvintes jamais pensado por Pilitchi há dez anos.

Na sua opinião, muitos dos newcomers (novatos ou recém-chegados à música) são bons, têm grande margem de progressão e conseguem comercializar melhor as suas músicas. “Porque, além do talento que possuem, hoje em dia é mais fácil termos acesso a um estúdio de qualidade, fazer um videoclipe com qualidade e tudo isto dá mais projeção a um artista”.

É natural que nos dias que correm seja mais fácil atingir milhares ou até mesmo milhões de pessoas com apenas uma música. As visualizações no YouTube são um ponto importante e, muita das vezes, a base da carreira de um artista, embora não signifique que sejam o reflexo da qualidade do seu trabalho. Pilitchi afirma ainda que conhece vários artistas que “são bons e não conseguem atingir um número significativo de visualizações. As questões das views dependem muito do marketing e organização que se faz em cada música, apesar de todas as ferramentas disponíveis para chegarmos mais longe do que há dez anos atrás, por exemplo”.

O seu último trabalho, “Sonho”, reflete a sua perseverança e a necessidade de continuar até chegar ao single de ouro e assinar com uma editora. O artista sabe que, se conseguir realizar esses objetivos, vai ser mais do que nunca uma inspiração para muitos jovens que procuram mostrar o seu talento em Portugal.

Além de músico, Pilitchi é também um pai que procura fazer tudo pela sua filha. Agora que tem tido um reconhecimento maior dentro do mercado musical, não deixa que isso influencie o seu caminho e nem deturpe os seus ideais. “O Pilitchi será sempre o mesmo com ou sem música na vida. Vou ser sempre amigo dos meus amigos, sou uma pessoa que gosta de fazer os outros rirem-se e preocupa-se bastante com quem está à sua volta”.

Abaixo, faz play no vídeo para conheceres mais sobre o rapper Pilitchi.

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Wilds Gomes

Sou um tipo fora do vulgar, tal e qual o meu nome. Vivo num caos organizado entre o Ethos, Pathos e Logos - coisas que aprendi no curso de Comunicação e Jornalismo. Do Calulu de São Tomé a Cachupa de Cabo-Verde, tenho as raízes lusófonas bem vincadas. Sou tudo e um pouco, e de tudo escrevo, afinal tudo é possível quando se escreve.