Hortência da Fonseca

Com o seu primeiro livro, Hortência da Fonseca quer ajudar os pais a educar

Ninguém pode negar a importância da educação para a formação de uma sociedade próspera, onde as crianças e adultos são capazes de fazer boas escolhas e ter um discernimento claro e sensato sobre as suas experiências mundanas. Pitagoras, filósofo e matemático grego, uma vez disse que devemos educar “as crianças para que não seja necessário punir os adultos”.

E esta frase dá mote à nossa entrevista a Hortência Gouve da Fonseca, estudante de Enfermagem e escritora santomente.

Não é por acaso que se começa a escrever um livro, principalmente quando nos encontramos na “flor” dos 20 anos, mas há experiências que nos empurram para a necessidade de espalhar as aprendizagens pessoais, em prol da mudança social.

Foi nessa demanda que Hortência decidiu escrever um livro, intitulado de Idukason Di Inen Anzu: Konsê pa inen pé que, traduzido do dialeto de São Tomé para português, significa Educação das crianças: conselho aos pais.

As primeiras palavras do livro começaram a ser escritas após muita reflexão sobre a violência física e mental que as crianças enfrentam no dia-a-dia. “Sempre que reflectia sobre tal assunto, entristecia-me, cada vez mais”, explicou-nos Hortência.

A escritora decidiu tomar uma medida e fazer algo que contribuísse para mudar a realidade de muitas crianças, principalmente nos PALOP, e da sociedade que melhor conhece, a de São Tomé e Príncipe. O título dado ao livro foi escolhido “devido ao meu carinho pelo meu crioulo, a do meu país. E também achei importante dar visibilidade à minha língua, para mantê-la viva. Daí o titulo em crioulo fôrro, a língua mais falada em São Tomé e Príncipe, depois do português.”

O livro de Hortência acabou por ser também uma aventura, onde foi necessário fazer um malabarismo entre a escrita e a licenciatura em Enfermagem. E como é que uma quase Enfermeira se aventura no mundo da escrita até lançar um livro, perguntamos nós. “Em Abril, terei concluído a licenciatura e, aí sim, já serei uma enfermeira. Nas várias cadeiras, estudamos temas relacionados a vários assuntos que envolvem a saúde física e mental da sociedade. Então usei o meu conhecimento da saúde para compor o livro”, que poderá servir com uma arma contra a violência perpetrada contra os mais novos.

Além das faculdades que já tinha, o facto de ser membro do projecto de línguas e culturas crioulas da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) e professora voluntária, influenciou de alguma forma o seu caminho como escritora, em 2016. O título foi obra do voluntariado, onde Hortência percebeu que é importante e necessário preservar o que é seu, as suas raízes, a sua cultura. Onde aprendeu também a ter mais orgulho do seu continente, do seu país e das histórias das suas gentes.

Apesar de nunca ter pensado em sair de São Tomé e Principe para estudar no Brasil, confessa que foi uma boa mudança e inspiradora. “Apareceu a oportunidade de seleção, fiz a prova, fui aprovada e vim aventurar-me no país do Carnaval. Está a ser uma experiência maravilhosa porque amadureci muito como pessoa e como estudante, estando aqui.”

Idukason Di Inen Anzu: Konsê pa inen pé não tem como objetivo ensinar os pais como educar as suas crianças, são apenas conselhos amigos e é um livro que pode servir de extensão ou bengala para a pedagogia. Nele, os pais encontram dicas que “podem usar para complementar o que já têm de base para a educação dos seus filhos. “E essas dicas são com base em explicações que deixo bem esclarecidas, explico os “porquês” de cada dica dada, sendo que, o livro é um retrato das minhas experiências e educação. Dedico-o a todos os pais, em especial aos santomenses.

A autora confessa também que fica satisfeita ao ver que o número de santomenses talentosos na Diáspora e que querem fazer algo tem aumentado. E no Brasil não é diferente. Existe um número considerável de santomenses espalhados pelos vários estados brasileiros, para quem “o viver à base do conformismo”, da expressão leve leve deixou de ser realidade. Hortência sente e sabe que as mudanças estão a fazer-se sentir pela camada jovem, o que vai ajudar na desconstrução das mentes e evolução do país. ” E isso acaba por ser uma troca de incentivos, motivar para ser motivado. Já me encontro na produção do meu segundo livro, que também será de boa utilidade para a sociedade santomense”, acrescentou a autora sem dar mais detalhes.

Idukason Di Inen Anzu: Konsê pa inen pé, já se encontra disponível para venda em várias plataformas e pode ser adquirido em formato físico apenas no Brasil, pela editora Viseu.

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Wilds Gomes

Sou um tipo fora do vulgar, tal e qual o meu nome. Vivo num caos organizado entre o Ethos, Pathos e Logos - coisas que aprendi no curso de Comunicação e Jornalismo. Do Calulu de São Tomé a Cachupa de Cabo-Verde, tenho as raízes lusófonas bem vincadas. Sou tudo e um pouco, e de tudo escrevo, afinal tudo é possível quando se escreve.