A comunidade africana é mais machista?

ARTE: Jassira Andrade

A comunidade africana é mais machista. Esta afirmação deixa muita gente zangada, principalmente o homem africano, e ainda bem. Porquê? Primeiro, porque reconhecem à partida que ser machista não é motivo de orgulho. (Isso é bom, certo? Bom, temos de agarrar-nos às pequenas vitórias.) Em segundo lugar, e bem menos divertido, o facto de termos, já e ainda, tantos estereótipos negativos associados aos negros e/ou africanos que a associação de mais um estereótipo negativo torna-se doloroso. Portanto, em verdade vos digo que não é de todo confortável, para mim, falar no machismo estritamente ligado à comunidade africana sendo-me imensamente mais fácil falar em termos latos, contudo, desconfio que enterrar o assunto trar-nos-á mais danos do que benefícios. Falando com algumas mulheres negras, algumas disseram-me: “Namorar os nossos irmãos? Até tentei, mas não é possível, o machismo é demasiado evidente. As expetativas de uma mulher com um comportamento recatado, que oriente a educação dos filhos e organização do lar e que, no limite, saiba a hora de se calar e obedecer ao seu marido são demasiado altas.”

Ora, isto é difícil de se ouvir e, imagino, mais difícil de sentir e dizer. Isto dói principalmente porque sabemos que grande parte das sociedades africanas eram sociedade matriarcais e que não tinham em si a ideologia de que a mulher deveria servir e obedecer ao homem. Esta é uma ideia originalmente cristã levada pelos povos europeus aquando da colonização de África. No processo de descolonização, foi-nos deixado um rasto de destruição massiva em todos os aspetos da sociedade, juntamente com uma identidade confusa, adulterada e aculturada, tantos nos africanos que ficaram, como nos que partiram. Herdámos lutas infindáveis com necessidades emergentes e a luta pela igualdade de género nunca foi, infelizmente e compreensivelmente, uma delas, pois tivemos de lutar pela sobrevivência. Mas e se, pergunto eu, nos ligarmos aos nossos ancestrais, que sabiam o papel central da mulher no funcionamento de uma sociedade e não abaixo do homem? E se, lutando pela igualdade de género dentro da comunidade, tornando-a mais coesa, esta não é uma forma mais eficaz de nos tornarmos robustos para lutar as lutas que ainda lutamos diariamente contra o racismo? E se o homem negro perder medo do potencial da mulher e a mulher negra, por sua vez, perder o medo de ser julgada e subjugada pelo homem negro e criarem entre si uma sinergia que nos elevará? E se pensássemos todos sobre isso? 

Andreia Coimbra

Na falta de representatividade, represento-me. Educadora de formação, humorista nos tempos livres e formanda em terapia familiar de coração.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *