2535

2535, um projecto de integração social e afirmação cultural que quer fazer a diferença

E se fosse possível acabar com as rivalidades entre bairros sociais, através da música? Provavelmente existiria mais união em prol de algo mais saudável para toda a comunidade. Para muitos, os que vivem nos bairros e periferias, o ideal é manter cada um no seu código postal. Dividir para conquistar, tal e qual propagava Júlio César, sobre um conceito que tem na base uma estratégia que tenta romper as estruturas de poder existentes e não deixar que grupos menores se juntem.

E é aí que entra Afro Bloods Records, que quer seguir um caminho diferente. Quer unir para conquistar, para chegar mais longe do que é imposto, através da música e em prol da comunidade.

Nessa demanda, o Algarve, sul de Portugal, ganha um código postal novo, onde o Rap Kriolu é a base. 2535 é um projeto cultural que une adolescentes de Quarteira (8125) e Almancil (8135), oriundos de bairros sociais que escolheram a música como um combustível de união. 

O código 2535 une dessa forma duas cidades com o maior número de emigrantes dos Países PALOP, Brasil e Países do Leste da Europa e que desde sempre estiveram de costas voltadas, por rivalidades territoriais e conflitos sócio-culturais. Quarteira e Almancil vivem entre as duas grandes minas económicas do Concelho de Loulé, Vilamoura e o combinado Quinta do Lago e Vale de Lobo. 

Por trás desse projecto está Carlos Semedo Dias, mais conhecido como Carlão, é o mentor e fundador do movimento Afro Bloods, que sai de Quarteira até Boa Entrada (Ilha de Santiago), que pretende assim estreitar a distância que separa o Algarve de Cabo Verde. Com a ajuda da Associação Beyond (Movimento Sou Quarteira), do músico Dino D’Santiago, o Experience Designer Miguel Jacinto, o produtor OG Cream e o rapper Savage, nasce assim a AB Records, que faz do Rap Kriolu o seu passaporte.

Como em muitos bairros portugueses, o crioulo acaba por ser um meio de comunicação entre muitos. Afinal, são mais de 63 mil cabo-verdianos a viver em terras lusas, segundo os dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) (2007), número que tem vindo a aumentar, recordando que a maior comunidade de cidadãos
imigrantes em Portugal são originárias dos países da Comunidade de Língua Portuguesa
(CPLP), com destaque para Cabo Verde.

É um pouco o reflexo do que acontece no Algarve, os adolescentes entre os 15 e os 18 anos, desde angolanos, brasileiros, cabo-verdianos, portugueses e romenos fazem do crioulo a língua que une os seus sonhos comuns. 

“Nós fugimos do Inferno, mas o Diabo corre atrás de nós!” é uma das frases que podemos escutar numa das canções deste grupo, que quer mudar essa realidade e incluir todos, sem diferenciar. E uma das melhores formas de o fazerem, é com a música e através dela. A verdadeira terapia que os permite exorcizar os fantasmas que os aterrorizam diariamente, escrevendo a sua realidade e encontrando no Rap a forma mais honesta para denunciar a realidade do seu dia a dia.

“Problemas” é o single de avanço deste projeto de integração social e de afirmação cultural que veio para ficar. Ouve abaixo.

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BANTULOJA
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Wilds Gomes

Sou um tipo fora do vulgar, tal e qual o meu nome. Vivo num caos organizado entre o Ethos, Pathos e Logos - coisas que aprendi no curso de Comunicação e Jornalismo. Do Calulu de São Tomé a Cachupa de Cabo-Verde, tenho as raízes lusófonas bem vincadas. Sou tudo e um pouco, e de tudo escrevo, afinal tudo é possível quando se escreve.