Assédio | Arte de Jassira Andrade

“Let´s talk about sex baby, let´s talk about you and me”

Arte: Jassira Andrade

O movimento “Me too” nos Estados Unidos, levantou um debate a nível mundial sobre o consentimento e o assédio. Muitos homens ficaram incrédulos e poucas mulheres espantadas, só de si, esta disparidade na reação entre géneros (estes dois) já será indicador de algo, levando ao questionamento: o que homens e mulheres entendem como assédio? O que uns e outros, entendem como jogo de sedução? 

Ora bem, estamos num momento em que a maioria de nós já assimilou a frase “não é não”, sendo certo que nem todos têm a intenção e coragem de abordar, o que, para mim, se figura como uma das questões centrais que é, precisamos de falar sobre sexo! 

A nossa cultura é propícia ao assédio. Fomos criados para assediar e sermos assediados sexualmente. Passo a explicar, na cultura na qual a maioria de nós foi criada, o não na boca de muitas mulheres não é valorizado. Nem vou falar de violações porque aí, tenho dificuldade que alguém não esteja a perceber que esteja a violar outra. Mas no jogo de sedução? Ui. Muito bem, nós enquanto meninas fomos ensinadas a não ser “fáceis”, diretas, assertivas, a falar de sexo, do que queremos, quando e como. Ora na verdade, fomos ensinadas a dizer não, mesmo quando é um sim, não, ou talvez, perante o risco de sermos tidas como porcas, oferecidas, bandidas, cabras, cadelas e, claro está, putas.

No início da minha adolescência ser “difícil” era tão fixe, que eu nem sequer sabia o que queria, a não ser que algum rapaz, me convencesse a querer algo, naturalmente. Então, mas agora eu ia decidir por mim própria que me sentia atraída por alguém? Nunca. Ora isto colocava-me numa posição de fragilidade em que o outro decidia se deveria ou não “conquistar-me” sendo certo, que a resposta imediata para uma primeira abordagem mais direta no que diz respeito a envolvimento amoroso e/ou sexual, seria um não!

Se por um lado, às meninas ensinava-se isto aos meninos, também ensinava-se uma coisa muito gira que era, as meninas que não dessem muita “luta” (a palavra luta não foi escolhida ao acaso) curtia-se, tinha-se namoricos, tinha-se sexo, mas não se namorava e muito menos casava. E outra, aos meninos ensinou-se também que deviam estar sempre disponíveis para qualquer encontro sexual. Portanto, ensinámos as meninas a dizer que não e os meninos a perseguir as meninas, principalmente as que mais dizem não, porque são as que “valem mesmo a pena”, mas na verdade eles devem perseguir o máximo que conseguissem para se tornarem uns “supermachos”, mesmo que não tivessem a certeza do real interesse na dita menina.

Lembram-se do quão os beijos roubados eram romantizados? Tudo preparado para um grande festim de cocó não foi? E não é que deu? Soluções? Acho difícil em tempo útil mudar toda a dinâmica de relacionamento entre homens e mulheres, sendo certo que não tenho ideia do contributo biológico na dança do acasalamento da nossa espécie. Mas sabem o que acho que pode mesmo ajudar, além de pensarmos sobre isto? Comunicação assertiva. Aprendermos a escutar as nossas emoções e aprendermos a comunicá-las ao outro. 

Exemplo prático para mulheres: És abordada romântica ou sexualmente por um homem e tens real interesse nele: dizes sim. Se ele for um machista que te vá julgar por isso, provavelmente, ele não vale muito a pena. Se não estás interessada, agradeces e dizes que não, sem medo de ser chamada de convencida, não tens nada a provar. Não tens a certeza? Dizes isso mesmo, “não tenho a certeza que esteja interessada”, talvez devêssemos conhecermo-nos melhor. Se ele estiver muito interessado irá esperar, se não, bom também não estavas assim tão interessada, não é? Se abordares um homem, as regras aplicam-se aos dois. Tudo que vá para além do não, é assédio, e já todos sabemos. Não é não.

Exemplo prático para homens: És abordado romântica ou sexualmente por uma mulher pela qual não estás interessado, dizes que não, não tens nada a provar a ninguém e isso não faz de ti menos másculo. Abordas uma mulher, ela diz sim, golo. Se ela disser talvez, avalias: “estou assim tão interessado?” Se a resposta for não, dormir também é bom, se for sim, penálti pode ser bola à trave ou golo, é esperar, boa sorte. Ela diz não, é seguir. Playstation também é bom. Tudo que vá para além do não, é assédio, e já todos sabemos. Não é não.

Nota: Não consegui não cair em sexismos ao longo do texto e consegui apenas abordar duas identidades de género o que vem comprovar o défice da nossa educação sexual, mas ainda estou em processo de desconstrução e prometo melhorar. De resto, façam sexo seguro, consentido e feliz.

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Andreia Coimbra

Na falta de representatividade, represento-me. Educadora de formação, humorista nos tempos livres e formanda em terapia familiar de coração.