Rui-Laster

“Uso o rap para exprimir as minhas emoções e sentimentos”, Rui Laster

“A arte é a manifestação cultural de emoções e sentimentos”, é dessa forma que Rui Laster descreve o movimento do hip hop. De raízes do sul de Angola, propriamente do Lubango, Rui Laster é um jovem rapper de 28 anos que usa a caneta para escrever o que lhe vai na alma e o microfone para “cuspir” tudo aquilo que sente e vê, sempre como uma espécie de análise social.

Festas, dinheiro, motivação e intervenção social, são assuntos que mais se destacam nas músicas do artista. “A ideia é ser sempre real e transmitir uma mensagem, independentemente do contexto que eu esteja a falar”, tentando sempre “ser diferente no que toca ao conteúdo, flow e métrica.”.

Dando os seus primeiro passos no movimento com apenas 13 anos, na capital angolana, onde vive desde 2003, Laster conheceu o hip hop através do seu tio, que na altura “rappava” e tinha um público na sua cidade natal. Isto, além de também beber muito de Tupac Shakur.

Depois da sua chegada a Luanda, o rapaz do Lubango começou a ter uma outra perspetiva do estilo e decidiu ir atrás das origens do mesmo e descobrir mais nomes do movimento feito em português. Foi assim que conheceu MCK e o moçambicano Azagaia. Mas o que mais o inspirou foi Sandocan, que hoje Laster tem como a sua principal referência. “Depois que comecei a ouvir Sandocan, decidi fazer parte das rodas de freestyles feitas nas ruas.”

Fora dos estúdios e palcos, Rui Laster atende na posições de empreendedor e atua também no sector petrolífero em off-shore, no mar.

O seu nome artístico surgiu em 2008, influenciado pelo cantor cabo-verdiano de zouk e funaná Rui Last One. “Tudo começou no meio de uma brincadeira de amigos, onde eu era o único sem algum nickname. Daí, o meu primo deu algumas sugestões que não me agradaram. E eu, já sendo Rui no registo, agarrei no Last do cabo-verdiano Rui Last One, e moderei para Laster.” Três anos depois, Rui Laster gravou a sua primeira música, em 2009, no estúdio de Smash Hits dos Gabeladas.

Durante a sua trajetória, o rapper já trabalhou com alguns nomes do movimento, entre eles Abdiel, Paulelson, Phedilson, Tio Edson e Young Double. Mas o jovem não esconde a ambição e diz que gostaria de trabalhar com artistas por quem nutre uma grande admiração: “Xtremo Signo, Azagaia, Vanda Mãe Grande e NGA, que para mim é um dos melhores que há no movimento.” O rapper com quem trabalharia mais vezes seria Tio Edson. Além de um rapper, ele tem uma energia muito boa e é também um irmão que dá sempre aquela garra motivadora.”.

A caminhada é longa e, como a de qualquer outro artista, tem tempos bons e ruins. Sobre a única dificuldade que tem ultrapassado até aos dias de hoje, o artista revela que é uma boa divulgação de seus trabalhos. “Sempre tive como pagar um bom instrumental, estúdio ou mesmo um produtor para gravar as minhas músicas. Mas a dificuldade que enfrento até agora é a divulgação dos meus trabalhos. Na nova escola do rap angolano, a maior parte dos artistas são obrigados a serem bajuladores para terem um óptimo feedback, que os leva não mandar linhas ao “fulano” e a não poderem falar disso e daquilo. Caso contrário, não vão tocar na rádio ou estar na TV. Mas eu sou vertical, se for para falar algo ou de alguém eu falo, e isso não tem nada a ver com assuntos profissionais, mas aqui misturam tudo”, revelou o rapper à BANTUMEN.

Sobre a sua opinião relaciona a música feita em português, o rapper reconhece que “cresceu muito mesmo, e feitos positivos têm de ser reconhecidos e aplaudidos”. Para Laster, “os artistas têm mostrado uma boa qualidade sonora técnica vocal e tanto outros aspectos ligado à música.”. Mas no que toca ao conteúdo lírico, o rapper mostra desânimo dizendo que “está muito pobre”, “os artistas deviam apostar mais na escrita, porque a música faz parte do crescimento mental dos jovens, visto que é a classe que mais consome música.”.

Segundo Laster, “Alta Tensão (Feat. Tio Edson e Phedilson)”, o seu mais recente single, lançado no último mês de julho, é identificado como uma “música muito pesada, a melhor de RAP street lançada no ano de 2020. “Mas por eu não ser bajulador, a mesma não toca nas rádios pelos beefs mandados no single”. Mas ainda assim, o videoclipe não passou despercebido aos olhos de Inamotto e Hélder David, que fizeram o vídeo de análise disponível no canal de YouTube do 2Contra1.

Para o corrente ano, o rapper promete músicas com uma vibe mais atualizada. Uma vibe mais street cheia de punchlines e métricas diferentes do que já se tem visto no movimento.

Rui tem novos singles no forno, um que conta com a participação de Young Double e outro que recebem o título de “Mais Dope” com Eric Shine, pertencente à próxima edição do projeto No Dia D na Hora H, de DH (Desejo Humano)”, um produtor por quem o rapper demonstra uma grande admiração, por assinar as produções dos seus trabalhos e por ser “um grande motivador”.

No single, o Rui fala para os artistas que estão no seu momento e confundem que estar na “moda” é ser o mais dope do movimento. “Usei mesmo uma caneta pesada para trazer essa nova vertente”, explicou o rapper.

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Marito Varela

De Benguela para o mundo. Dos blogs, da música, das tecnologias e das ciências.