Mynda

Mynda Guevara, o salto da música para o cinema

Da Cova da Moura para o mundo é a expressão que, embora cliché, melhor define a caminhada que Mynda Guevara tem travado no mundo da arte.

No final de 2019, lançou o EP Mudjer na Rap, com seis faixas, todas com uma mensagem interventiva e com uma versatilidade imensa, com o objectivo de mostrar que Mynda está a trabalhar para marcar um posicionamento no mercado do hip hop lusófono.

Desde então, a artista foi selecionada para participar num projeto internacional, Turn Up, que envolveu a colaboração de vários MCs e produtores de diferentes países; participou em “Chilldown”, com o italiano Dario Cangreo; fez parte de um projeto nos Açores com Raquel Freire, intitulado de “O meu maior sonho é deixarem-me sonhar”, uma residência artística com jovens em risco de exclusão social; juntou-se a Putzgrilla e Chi para dar voz a “Lady Boss”.

Mais recentemente, além do rap, Mynda fez também parte do mundo da representação. A rapper da Cova da Moura entrou em dois filmes: Maria Cobra Preta, de Erika da Cunha, onde foi protagonista e Mulheres do Meu País, de Raquel Freire.

Maria Cobra Preta conta a história de uma jovem rapper que vive no coração de Lisboa, num bairro afectado pela gentrificação. No prédio abandonado, só lá vive Maria (personagem interpretada por Mynda) e alguns idosos à espera do despejo. O filme fala da luta e perseverança de quem está à procura da luz no ao fim do túnel, apesar de todos os obstáculos. A película foi apresentado como tese do último ano de faculdade da realizadora, em 2019. Maria Cobra Preta foi selecionado para um Festival de Cinema na Suíça e agora para o Festival Política.

Mulheres do Meu País, que deu origem a uma minissérie documental, vai estrear-se na RTP, a 8 de março, Dia Internacional da Mulher. A minissérie tem três episódios que vão ser exibidos ao longo de março e retratos filmados de mais de uma dezena de mulheres, inseridas em meios profissionais tão distintos como limpezas, genética, pesca ou cuidados informais.

O filme — assim como a minissérie — é inspirado na obra As Mulheres do Meu País (1948), de Maria Lamas, um livro de cabeceira com uma “visão profundamente feminista, de igualdade e de liberdade”.

Do trabalho de pesquisa para o filme, Raquel Freire escolheu Mynda Guevara e mais 13 mulheres que falam das suas vidas, como ultrapassam dificuldades e como chegaram à sua emancipação.

“Ambas [as oportunidades] foram uma excelente experiência para mim. Com a Raquel, porque também ela é uma voz ativa no meio em que trabalha e por essa mesma razão deu voz a outras mulheres. Todas diferentes mas ao mesmo tempo todas iguais. E com a Erika porque encarei como um desafio, não só porque foi a minha primeira vez a estrear-me como atriz mas também porque tive que encarnar uma personagem, a Maria”, explicou-nos Mynda.

A rapper acredita que essas oportunidades surgiram fruto da música que faz. “Se não tivesse o power que tenho e não transmitisse a mensagem que transmito não teria feito parte destes dois projetos. A Mynda Guevara é artista, não é apenas mais uma rapper e, havendo essa diferenciação, já se diz tudo. Gosto de explorar, de desafios, de sair da minha área de conforto”.

Contudo, que não se pense que a tarefa foi fácil de assimilar. “A experiência de fazer um filme é cansativa, não nego. É trabalhoso mas empolgante ao mesmo tempo. Temos que repetir os takes inúmeras vezes até ficar top, sem falhas. Ainda assim, voltaria a fazer sem sequer pensar duas vezes. É uma área, sem dúvida alguma, que tenho mais que interesse em explorar”.

A artista disse também que a vontade de representar sempre existiu e que, agora que experimentou, pretende continuar na área. “Espero fazer parte de mais projetos deste género ou desafiarem-me para outros, por exemplo, novelas, mini-séries, por aí fora”.

Sobre um futuro próximo, Mynda avisa que tem “imensos trabalhos escritos e gravados”. Atualmente, está à espera para gravar o videoclipe do seu primeiro single de 2021, intitulado “ATXIM”. A música foi produzida por Lvin, o seu beatmaker oficial. “Fora o estilo que o people já está habituado a ouvir-me, tenho surpresas, posso dizer que saí da minha área de conforto como prometi. Com isto tudo do Covid, acabei por atrasar imenso lançamentos mas tenho feito os possíveis para não parar de “bulir”, explica.

Questionámos também a artista sobre como se mantém sã, nestes tempos conturbados e incertos, ao que respondeu: “Este confinamento não foi de todo mau na minha opinião. Aproveitei para escrever novas letras e fazer uma auto-análise e ver o que ainda não fiz, o que posso melhorar e em que outros estilos musicais consigo encaixar-me. O meu tempo tem sido produtivo porque a ‘Nova Mynda’ já chegou . Basta ficarem atentos . A exigência agora é outra”.

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TRABALHO DE PRETO
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Wilds Gomes

Sou um tipo fora do vulgar, tal e qual o meu nome. Vivo num caos organizado entre o Ethos, Pathos e Logos - coisas que aprendi no curso de Comunicação e Jornalismo. Do Calulu de São Tomé a Cachupa de Cabo-Verde, tenho as raízes lusófonas bem vincadas. Sou tudo e um pouco, e de tudo escrevo, afinal tudo é possível quando se escreve.