Festival P / Foto: Olson Ferreira x BANTUMEN

Festival P: Dino d’Santiago une artistas para a causa antirracista

Lisboa, sábado, 6 de março, pouco faltavam para as 22 horas e as ruas estavam praticamente vazias. Só os carros faziam barulho ao passar nas estradas. Não fosse a pandemia e o confinamento, diríamos que a madrugada já ía alta.

No edifício do Público, onde iam entretanto começar as celebrações do 31.º do jornal, de forma discreta, as poucas pessoas que puderam garantir a sua presença, iam começando a chegar.

Lá dentro, a arte, no seu ser, enchia o espaço. Francisco Vidal e Namalimba Coelho foram os responsáveis por todo o staging, onde podíamos ver representações dos rostos de algumas vitimas do racismo, preconceito e violência policial em Portugal, além de capas de jornais de combate ao racismo, pelo Público. Pouco a pouco, mantendo sempre o distanciamento, o local começava a acolher as pouco mais de 20 pessoas, entre técnicos de audiovisual, artistas ou jornalistas, que puderam estar presentes, obedecendo assim às regras das autoridades de saúde.

No relógio, batiam exatamente 22 horas quando Isabél Zuaa deu início ao seu manifesto, que nos remetia à peça de teatro Aurora Negra, com Cleo Tavares e Nádia Yracema. Zuaa gritou por todos os que na linha do tempo já enfrentaram, enfrentam e terão de continuar a enfrentar e a afrontar o racismo.

Isabél Zuaa / Foto: Olson Ferreira x BANTUMEN
Isabél Zuaa / Foto: Olson Ferreira x BANTUMEN

“A minha arte não a faço sozinha. Queria estar aqui com as minhas manas [Cleo Tavares e Nádia Yracema], mas estou muito lisonjeada pelo convite. A Aurora Negra vai voltar a estar nas salas de Lisboa e é isso mesmo que vim aqui representar, um excerto, um pouco adaptado, desta peça. É uma partilha das nossas inquietações, sobre as nossa vivências, a trajetórias das nossas mães, pelo que passaram e que nós não devemos passar, sabendo que nós temos voz, principalmente mulheres pretas e corpos pretos, que se possam identificar um pouco mais, porque temos um lugar em comum, nem que seja imaginário, como outras pessoas também se podem identificar (…) A cada momento, nós encontramos convenções para combater o racismo. Não existe uma forma de o combater, e de combater essa opressão. Acho que vamos caminhando juntos, porque realmente, assim, somos mais fortes”, disse-nos Isabel.

O manifesto deu mote aos porquês de Dino, ao cantar “Pamodi”. O artista concentrou em si todas as forças que tinha e começou por questionar em voz alta. Porquê? O porquê das ofensas à cor negra, o porquê dos maus tratos, o porquê de toda a injustiça cometida em África, pelos brancos, pelo colonialismo e não só.  “Pamodi” deu início à luta que Dino trava; ao propósito da noite; ao ativismo e solidariedade para com Mamadou Ba.

Vado Mas Ki Às e Dino D'Santiago / Foto: Olson Ferreira x BANTUMEN
Vado Mas Ki Às e Dino D’Santiago / Foto: Olson Ferreira x BANTUMEN

As músicas que se faziam ouvir no palco eram de intervenção, de força e de luta, como “Brava (Carta Pa Tereza) e “Chega Pra Lá”. Ao longo da noite, pudemos ainda ouvir um leque diversificado de artistas, com quem Dino já criou música. Por ordem, chamou Vado Mas Ki Às, e juntos pediram a atenção dos presentes para ouvirem o que tinham para dizer enquanto cantavam “Nhôs Obi”.

Mas antes da música, Vado confessou-nos que se sentia honrado e privilegiado por estar presente naquela noite. “Principalmente pela música e por toda a malta que está a fazer isso acontecer. Porque, para esta causa, apenas temos de fazer e entregar a nossa cara e alma, para que isto dê certo. Que o racismo seja menor e que mais irmandade e mais amor sejam o necessário no nosso coração. As mudanças começam a ser feitas, logo após nos levantarmos da cama e nos deparamos com algo negativo e termos de a encarar e tornar em positivo. E é por isso que estamos aqui todos, com a nossa música, por esta causa. É a nossa forma de intervenção, através da nossa música, desde sempre. Sem diferenças de cor, etnias ou religião.”

Seguiu-se NGA com “Por Nós”, onde o rapper agradeceu e mostrou a Dino o quanto a música e a letra o tocam e significam para si. Depois, pisaram em palco Virgul, Kady, Sam the Kid, Prétu Xullaji e Julinho KSD. Como pano de fundo enquanto a música se fazia escutar, a arte da Kultura Africana de Francisco Vidal estava em destaque. Não só pelas cores vibrantes, mas também pelas ilustrações de, por exemplo, Bruno Candé e Alcindo Monteiro. E, à medida que a música era cantada, Vidal ia fazendo uma ilustração da letra da música ou de quem a cantava.

Namalimba Coelho e Francisco Vidal / Foto: Olson Ferreira x BANTUMEN
Namalimba Coelho e Francisco Vidal / Foto: Olson Ferreira x BANTUMEN

Namalimba Coelho e Francisco Vidal explicaram que, no que toca às artes ali retratadas, foi “uma honra ser no fundo o altar deste palco, onde actuaram nomes tão fortes deste manifesto, deste momento tão importante da atualidade e que diz respeito a todos nós. Estamos a falar em injustiças sociais, socio-económicas, raciais e históricas. É uma missão de todos estarmos e fazermos parte deste movimento da cidadania e ativação dos direitos humanos, para que, finalmente, haja uma luta pela igualdade e representatividade. O movimento que se vê no palco é o Maka, onde o ‘m’ pode representar ‘momento de manifesto, música e memória’. E é de memória que aqui se fala através dessa coreografia de arte e palavra que representam as pinturas e desenhos, e a relação de notícias que foi feita para estar na composição geral deste altar”.

Francisco Vidal confessou também que: “Eu ainda não acredito como situações dessas [mortes com índole racial e violência policial], ainda acontecem. Quer dizer, na verdade agora já acredito e é muito importante a pintura. É uma arma para evoluirmos dessa situação e que no futuro tenhamos um espaço mais humano”.

Cristina Roldão / Foto: Olson Ferreira x BANTUMEN
Cristina Roldão / Foto: Olson Ferreira x BANTUMEN

Cristina Roldão, socióloga reconhecida pelo seu trabalho de ativismo social, antirracista e feminista, também se fez presente neste evento que, para si é demonstrativo do lugar e da direção que o combate deve ter na sociedade portuguesa, com vários artistas negros a assumirem a questão do anti-racismo e, neste caso, solidariedade com Mamadou Ba, pelos ataques pessoais que tem sofrido nos últimos tempos.

“Isto acaba por ser um mind changing no sentido de dar às pessoas um passo naquele que é o seu espaço, que todos podem fazer alguma coisa e acho que isto é muito importante. Quanto mais falarem e darem a cara, outros terão mais coragem e sentir-se-ão mais inspirados para o fazerem também (…). Isto é uma forma de educação, para ter coragem, para assumir uma causa, para assumir que não aceitamos a sociedade tal e qual como está, até isso nós temos de aprender”, afirmou.

Mamadou Ba / Foto: Olson Ferreira x BANTUMEN
Mamadou Ba / Foto: Olson Ferreira x BANTUMEN

As receitas do concerto foram doadas à associação SOS Racismo, no âmbito da campanha #EmCarneEOsso, em solidariedade ao ativista anti-racismo Mamadou Ba, que se mostrou emocionado com toda a atitude que se fez sentir. Sabe que não está sozinho e nunca esteve. “Sinto-me muito representado. O que aconteceu aqui hoje é a prova de que a luta não é de uma só pessoa, é colectiva e estou muito grato por essa iniciativa”. Mamadou, não pretende parar, quer ir mais além, porque veio de longe como muitos e nasceu para lutar. E, cada vez que um ataque racista tem lugar, para Mamadou, é como se fosse gasolina, que dá poder ao carro para continuar em movimento e cada vez mais rápido. “Portanto sinto-me bem e quando me atacam sinto que está a ter algum efeito, o que eu estou a fazer”.

O anfitrião da festa que, além da música, manifestou-se através de t-shirts da NOBOH e Bazofo, marcas de empoderamento negro, fez ainda questão de mostrar a sua gratidão por ter conseguido fazer um alinhamento necessário com nomes que combatem de forma efetiva a causa. O objetivo do cantor, após o convite ter sido feito, foi de que não podia ser só ele a cantar, quis criar algo que ficasse na história e que nos representasse a todos.

Dino D'Santiago / Foto: Olson Ferreira x BANTUMEN
Dino D’Santiago / Foto: Olson Ferreira x BANTUMEN

“O que aconteceu hoje, aqui, foi bonito. Quando liguei para todos os artistas que aqui estão, desde a primeira instância aceitaram e isso deixou-me feliz. Estão aqui vocês, estamos todos a representar e estou feliz. O que aconteceu hoje, é algo que vai ficar para a história”, concluiu Dino D’Santiago.

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TRABALHO DE PRETO
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Wilds Gomes

Sou um tipo fora do vulgar, tal e qual o meu nome. Vivo num caos organizado entre o Ethos, Pathos e Logos - coisas que aprendi no curso de Comunicação e Jornalismo. Do Calulu de São Tomé a Cachupa de Cabo-Verde, tenho as raízes lusófonas bem vincadas. Sou tudo e um pouco, e de tudo escrevo, afinal tudo é possível quando se escreve.