Josslyn Medina

“Se eu não fosse forte, já teria cometido suicídio”, Josslyn Medina

Ser artista significa ter a sua vida privada, quase sempre, escancarada na esfera pública, mas ser mulher artista é ter o seu comportamento constantemente escrutinado ao detalhe e arrostar o julgamento alheio. Sem referir que, com a chegada das redes sociais, essa exposição foi potenciada à escala global e à velocidade da luz. Que o diga Josslyn Medina, com quem tivemos a oportunidade de conversar sobre a devassa da sua vida privada, a visita à Guiné Bissau e o lançamento da sua nova música com Rui Orlando..

Nesta sexta-feira, 26, a cantora põe cá fora mais um trabalho musical, carregado de veracidade. “Já Deu” é um single que conta com um convidado especial, Rui Orlando, e promete emocionar o público. Josslyn tem explorado e adquirindo mais conhecimento dentro da área musical, por forma a conseguir expressar melhor o que lhe vai na alma e o resultado positivo já é audível.

Sobre o episódio do ano passado em que a artista viu o seu nome tornar-se viral, depois de um vídeo íntimo ter circulado na Internet, Josslyn afirma que o que é preciso é não ter medo. “Devemos associar-nos a causas em que acreditamos mas que não seja só da boca para fora. Não termos medo de assumirmos a nossa liberdade sexual e sermos, nós mulheres, mais empáticas umas com as outras e termos consciência de que o que acontece com uma, também pode acontecer com outra.”

Lê abaixo a entrevista completa a Josslyn Medina.

Josslyn, de tudo o que já nos apresentaste, podemos dizer que “Já Deu” é o teu trabalho mais maduro e mais fiel à mulher em que te tornaste?

Este trabalho, mostra uma Josslyn totalmente diferente, por várias razões. Desde o facto de ter feito 30 anos aos mais recentes acontecimentos e de todas as aprendizagens que tenho vindo a adquirir.

É uma nova fase na minha carreira. Esta é uma música, como todas as outras, que fala de amor, fala de um casal. Não retrata esta nova fase, é uma música que já tinha escolhido há algum tempo, com um convidado especial e escolhemos esta altura para o seu lançamento. Acho que o público vai gostar e tendo em conta a altura que estamos a viver sinto que é importante haver música.

Não fui eu que escrevi a letra mas identifico-me muito com a história que esta música conta e isso é algo que eu procuro, sempre. Sentir e identificar-me com o que canto. Gosto de retratar a realidade.

Videoclipe de Josslyn com participação de Rui Orlando

Dás voz à tua história ou a várias histórias e a uma causa em concreto?

Tento sempre falar de algo verdadeiro. Quando escrevo e construo a minha história, tento falar explicitamente dos sentimentos e sinto que o público recebe bem este tipo de abordagem musical. Gosto de cantar músicas que retratem as minhas vivências e as dos que privam comigo.

Sentes que o teu registo musical é este ou ainda estás à procura do género que melhor se adequa à tua voz e à tua energia?

Considero-me uma artista versátil e curiosa. Através das minhas plataformas digitais podem confirmar que não faço apenas kizombas mas nem sempre foi assim. Durante muitos anos acreditei que a kizomba não fosse para mim mas arrisquei, aprendi e, ainda hoje, continua a ser um desafio. Para muita gente, a kizomba representa um estilo banal e que qualquer um consegue cantar mas não é bem assim. Tem as suas exigências. Não posso rotular o meu estilo como um só porque eu gosto de cantar em vários estilos. Gosto muito de R&B, de hip hop, de afro house, de house music e, na verdade, há muita mistura dentro de mim com a qual eu cresci. Sempre tive várias influências musicais no meu percurso.

Os acontecimentos de devassa da tua privacidade e do teu corpo, moldaram-te, em que medida?

Não posso definir exatamente um ponto em que fui moldada e, na verdade, isso vai acontecendo todos os dias, ao longo de todo este tempo, porque ainda estou assimilar tudo o que me aconteceu. Leva um tempo para poder dizer que já não me incomoda, que já não dói. Ter de lidar com toda aquela exposição é uma luta diária pelos efeitos que me causou e que me tem causado, mas tenho a certeza que tudo tornou-me numa pessoa mais ciente, mais sábia, com capacidade de entender coisas que entendia até então. Nem todas as pessoas têm um bom coração ou empatia e compaixão. Nem todos vão respeitar o que sentes e estes são aspetos com os quais tenho lidado e que me levarão a, um dia, poder dizer que ultrapassei tudo isso e já não me faz sofrer. São acontecimentos que moldam qualquer mulher.

Durante a fase em que tudo aconteceu, os meus olhos abriram-se para a hipocrisia e falta de empatia à minha volta e para situações negativas e de falsidade que me chegaram da parte de pessoas que eu esperava o contrário. Estamos numa sociedade muito hipócrita. As redes sociais são um engano e podemos passar por situações online que podem acabar connosco. Em toda a minha vida, nunca tinha passado por uma situação destas. O vídeo teve uma dimensão e a proporção que teve pelo alcance das redes sociais e a forma perversa como muitas coisas circulam. Até hoje, eu sou confrontada com o vídeo que me é enviado por pessoas que não desistem de me mandar a baixo, fazem-no por maldade e até mesmo dentro do meu círculo, há sempre situações que recordam esse acontecimento. Tive apoio de muitas mulheres, ainda assim, e tenho de agradecer. Espero que este tipo de solidariedade se mantenha pois há mais mulheres a passar por isso. Nunca tive pudor em relação ao meu corpo, não sou uma pessoa de tabus e nem me incomoda falar da minha sexualidade e aquilo que eu vi foi uma grande hipocrisia em não se admitir que a masturbação feminina acontece. São coisas que nós experienciamos também. Não há necessidade de posar de “santas” e dizer “eu não faço isto ou aquilo”. No meu caso, em momento algum senti vergonha, o que senti foi uma revolta enorme por ter visto a minha intimidade ter sido exposta daquela maneira. Mas nunca vergonha de assumir que são coisas que as mulheres fazem e, para a época em que estamos, a masturbação já não deveria ser tão mal considerada como é. Fiquei espantada e consegui ver que na teoria diz-se muito mas na prática nada disso se verifica. Conseguimos identificar o vídeo em vários lugares da Internet e conseguimos eliminá-lo mas voltara a aparecer nesses mesmos sites e através de contas de WhatsApp, blogs e etc. A nível judicial, ainda há trâmites a decorrer para punir as pessoas que continuam a cometer estes ataques. Se eu não fosse forte, psicologicamente, já teria cometido suicídio pois, há pessoas que o fazem, não aguentam. 

Ainda existe muita censura, apesar das redes sociais já terem dismestificado muito nesse sentido. E para ser sincera, a maioria das reações negativas que me chegaram foi por parte de mulheres que me disseram que eu ficaria prejudicada para sempre por estar a expor algo que só deveria mostrar no quarto, ao meu marido. Eu li e ouvi de tudo. Há narrativas e conversas que só se falam na Internet mas que não transpõe para a vida real. Eu, por exemplo, não tenho vontade de assistir a certos diretos no Instagram porque não sinto autenticidade, nem transparência (páginas sobre feminismo, liberdade, sororidade e etc), pois, em situações como a que me aconteceu, nenhum destes valores se impôs. A empatia e o feminismo não devem ser selectivos, se são para uma, são para todas. Mas eu não vejo esta imparcialidade e, por isso, não me identifico com muitas das causas que por aí se levantam. Nós, mulheres, deveríamos ser mais abertas, na medida em que aconteceu comigo mas, amanhã, pode acontecer contigo.

Em que dimensão sentiste que a tua carreira profissional foi posta em causa, depois de teres visto a tua intimidade exposta?

Foi um acontecimento que me mudou para sempre. No entanto, a nível profissional não fui afetada pois, mantive os projetos com os quais já me tinha comprometido e planificado. Optei apenas por não me expor, não participar em qualquer tipo de entrevista, para o bem do meu trabalho.

Precisaste recorrer a apoio psicológico nos momentos em que te sentiste mais em baixo?

Não apenas pela invasão da minha privacidade, mas por toda a minha dimensão humana, sim, tenho uma psicóloga, a Gisela Van Dunem. É uma pessoa com quem converso, assim como faço, também, com os meus amigos e familiares que estão aqui para me apoiar, sempre.

Perdeste dinheiro com estes acontecimentos?

Não, não perdi dinheiro. Aliás, agora, em 2021, tenho tido muito valor a entrar. Artisticamente as coisas continuam iguais, estou focada e comprometida com o meu trabalho e com o público. A nível pessoal dói  mais do que a nível profissional.

És praticante de Ioga. É um refúgio, uma terapia?

Sim, mesmo! Eu sou uma pessoa muito enérgica, sou hiper ativa e a Ioga é uma forma de canalizar a minha energia, assim como os exercício de flexibilidade e a corrida, que ajudam a manter-me ativa.

Tantas vezes, vemos nas notícias que, tantas pessoas não encontram uma saída por não terem ninguém para as ouvir, muito por culpa de isto ainda ser tabu. Às vezes, as pessoas têm vergonha mas, a verdade é que, uma simples conversa com alguém pode mudar a tua visão do mundo e mudar o teu modo.

Alteraste os teus padrões de exigência em relação às pessoas com as quais te relacionas?

Sim. Há situações que não controlamos mas, hoje, eu sou uma pessoa que se expõe bastante menos, tenho mais cuidado com as pessoas que me rodeiam e não deposito confiança em qualquer pessoa. Acho que me tornei numa pessoa mais introspectiva e seletiva em relação a tudo o que me rodeia.

Estiveste recentemente na Guiné Bissau. Quais foram os motivos que te levaram a realizar essa viagem e o que de mais enriquecedor trouxeste contigo na bagagem?

A Guiné é o país de uma grande amiga minha que sempre me tem convidado para visitar e conhecer o seu país, que é tão bonito. Foi uma viagem muito positiva. Surgiu a oportunidade e fui. Tive receio devido à COVID-19 mas tomámos todas as precauções, fiz a minha parte. Fiz um show que correu muito bem e tive oportunidade de visitar uma das Ilhas, experimentar a comida e ter toda aquela troca de vivências. Foi muito interessante. Quando aterrámos em Lisboa voltámos a testar negativo para a COVID-19, o que foi um alívio.

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Maria Barbosa

Irrequieta, consciente e com muita sede de aprender! Encontrei na liberdade criativa da BANTUMEN uma das minhas mais valiosas oportunidades de mudar o mundo.