Cremilda Medina

“Amá Sem Mêde”, a mensagem de amor de Cremilda Medina no novo álbum

Quando falamos de amor em crioulo, temos de falar de Eugénio de Paula Tavares, considerado como o Príncipe da poesia cabo-verdiana. Para o autor de A Força de Cretcheu, o amor era a força de tudo, o motor da sua vida. Assim como para Cremilda Medina, a doce voz que canta a Morna num entrosamento harmonioso entre as músicas de Cesária Évora, Ildo Lobo e Tito Paris. Em Dezembro, exatamente no dia em que se celebrou o primeiro aniversário da Morna como Património Cultural Imaterial da Humanidade, Medina lançou “Amá Sem Mêde”, fruto de tudo o que sente e que canta. É um tema marcante sobre o amor, onde convidou as pessoas a viver o verdadeiro sentido da palavra, sem medo.

Agora que está no processo criativo e prestes a lançar o seu segundo álbum, apesar da agenda cheia de Cremilda, conseguimos trocar dois dedos de conversa com a artista sobre o mais recente single e o novo trabalho.

“Amá Sem Mêde”, de certa forma, é uma reflexão das suas experiências e vivências. O single eleva o amor e a necessidade de amar num mundo onde a tristeza, desgraça e insulto ganham terreno. “Para o mundo poder evoluir temos de ter o nosso coração aberto ao amor, às coisas boas da vida. Existe só uma vida, e nessa vida passamos por tudo, alegrias, tristezas, choramos, rimos, mas em nenhum momento podemos esmorecer e esquecer que o amor é que comanda a esperança e na minha vida em particular esse é o meu lema. Por muito que me aconteça, não baixo a cabeça, pelo contrário, tiro sempre uma lição daquilo que aconteceu, e se aconteceu foi por alguma razão”, explica-nos Medina.

O tema é para ser ouvido com atenção, nele está a alma de Cremilda, sem medos, com vontade de viver e de amar intensamente. É um apelo ao amor, porque nos dias de hoje o afeto é instantâneo, perdura por pouco tempo. E é necessário que as pessoas não tenham medo de fazer as coisas com intensidade, sem medos e com menos julgamentos.

Vários estudos foram feitos e confirmam que as redes sociais alteraram a forma como as pessoas vivem e sentem as coisas e até a forma como se vêem. Os julgamentos e ofensas online aumentaram significativamente nos últimos anos, contribuindo para o aumento de traumas psicológicos, como a depressão, que muitas vezes acabam em suicídio. O amor ao próximo deixou de ser tão importante e quando é demonstrado tem de ser filmado.

Cremilda confessa que esse é um tema que lhe custa muito entender, porque sente que a aparência tornou-se mais importante que o que realmente nos move como pessoas e humanos. “A sociedade de uma forma geral julga tudo e todos de uma forma ingrata. As redes sociais são o grande espelho do que se passa no mundo, onde muitas das vezes as pessoas expõem a sua vida pessoal de uma maneira absurda. Muita gente preocupa-se mais com a aparência do que com o que verdadeiramente se deveria preocupar e o amar é uma delas. O amor não tem que ser demonstrado nas redes sociais, ou para o mundo ver, deve ser valorizado e partilhado com quem amamos verdadeiramente, na nossa intimidade”.

Cremilda continua e acrescenta que “hoje em dia muitas pessoas não dão o verdadeiro valor a uma relação, a um namoro, a um casamento, onde ao mínimo problema acaba tudo, vai cada um para o seu lado. Uma grande parte das pessoas não está predisposta a uma relação, ao amar o outro sem medos e sem os julgamentos”. Este novo single é para curar de alguma forma todas essas mágoas causadas pela falta de amor e empatia.

“Amá Sem Mêde” é também a antevisão do mais novo trabalho, o segundo álbum da sua carreira. Ainda sem data de lançamento, Cremilda confessa-nos que o repertório do novo álbum está fechado. A ideia inicial era tê-lo editado o ano passado, mas devido à pandemia acabaram por alterar a data. Este novo álbum é o seguimento da linha de “Folclore”, com o foco na Morna e Coladeira, que são os seus estilos musicais de eleição. “Nôs Morna” de Manuel de Novas e o “Amá Sem Mêde” de Morgadinho fazem parte do repertório, cujos detalhes a artista prefere não divulgar ainda, apesar de estar “ansiosa para as revelar”.

Assim como no primeiro álbum, este tem composições que marcaram uma época ou alguma situação em particular da sua vida. “Tentei ir buscar mais ainda as sonoridades do antigamente, com músicos como o Armando Tito, onde a sua forma de tocar é única e inconfundível (…) O lançamento está previsto para este ano, mas o mais certo deverá ser no próximo ano. Muitas coisas aconteceram desde março do ano passado, quando a pandemia nos obrigou a parar e então tivemos que tomar decisões, como o adiamento da edição do álbum. A minha parte vocal está concluída, em muitos temas a parte musical está fechada também, faltam algumas coisas para ficar fechado na sua totalidade, mas que em pouco tempo ficam prontas”.

Para concluir, questionamos Cremilda Medina se quando a pandemia terminar, se acha que as pessoas vão conseguir voltar a amar, abraçar e beijar, sem receio. A artista espera que sim. “Mesmo que a pandemia tenha criado o distanciamento, as pessoas têm vontade de estar umas com as outras e, sim, sinto que tudo irá voltar ao normal. Não sou daquelas pessoas que pensa que tudo será diferente, mas que sim haverá uma nova normalidade. Que o amor prevaleça sempre”.

Enquanto esperamos melhores tempos e o lançamento do novo álbum, podemos ir apreciando “Amá Sem Mêde”, que podes ouvir abaixo.

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TRABALHO DE PRETO
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Wilds Gomes

Sou um tipo fora do vulgar, tal e qual o meu nome. Vivo num caos organizado entre o Ethos, Pathos e Logos - coisas que aprendi no curso de Comunicação e Jornalismo. Do Calulu de São Tomé a Cachupa de Cabo-Verde, tenho as raízes lusófonas bem vincadas. Sou tudo e um pouco, e de tudo escrevo, afinal tudo é possível quando se escreve.