Azome Pinto

Azome Pinto, a nova sensação da comédia santomense

“Façam o favor de ser felizes”, era com essa frase que João Carlos Silva, o famoso Chef e apresentador santomense dos programas de televisão “Na Roça com os Tachos” e “Sal na Língua”, terminava os episódios. Frase que se tornou regra e faz parte da vida de Azome Pinto, desde que se lembra.

O comediante tem feito sucesso nas redes sociais e alegrado a vida de mais de 12 mil seguidores no Instagram, sobretudo dos santomenses na diáspora. Descreve-se como um jovem sonhador, com vontade de querer mudar a realidade de muitas pessoas, principalmente a da sua família e de São Tomé e Príncipe, o seu país de origem. Quer fazer isso tudo enquanto conta piadas, porque, durante aqueles segundos ou minutos em que a piada ecoa na cabeça de quem a ouve, os aspectos negativos da vida ficam esquecidos.

Atualmente vive em Bragança, no norte de Portugal. O riso mantém-no quente nas noites mais frias de inverno, numa cidade onde os graus Celsius facilmente descem abaixo de zero. Mesmo assim, sente falta do aconchego dos seus conterrâneos. Apesar da comunidade santomense em Portugal estar a aumentar, sobretudo, graças à comunidade estudantil, Azome acha que não existe representatividade suficiente na diáspora como em relação a outros PALOP, nem eventos suficientes que promovam o encontro da comunidade. Contudo, está a trabalhar para também ajudar a mudar essa realidade.

Desde criança que se acha engraçado, por norma o povo africano é feliz por natureza e o seu humor é fruto dessa realidade. Na escola era considerado o mais engraçado da turma, no seio familiar os risos sempre foram constantes e as gargalhadas umas maiores que as outras. Todos tentam fazer rir todos. Contudo, nunca foi visto como humor, mas sim como algo natural e que fazia parte da rotina.

Em São Tomé era dançarino profissional de danças tradicionais, bem como de kuduro, Afro House, entre outras danças. Contudo, é na comédia que se sente mais feliz e completo. “Sempre esteve em mim o humor, só que nunca tive oportunidade de o explorar e trazer cá para fora desta maneira. No meu pais não era possível, muito por falta de apoio aos jovens e estudantes em São Tomé e na diáspora. E culturalmente falando, o governo também não ajuda e não promove, não se interessam na verdade. É raro ver alguém num patamar tão alto preocupar-se com o que a sociedade e os jovens realmente precisam”.

Na altura, sem referências no mundo da comédia, não sabia que podia ser um modo de vida e quem muito fazia os outros rir acabava por focar mal visto. Era chamada de “bobo”, que na gíria santomense significa alguém que faz muitas maluquices, faz os outros rir sem motivo. “Logo, a comédia era algo estranho para mim. Quando adolescente, vim para Portugal, e aí é que vi que haviam pessoas a ganhar dinheiro com a arte de fazer rir e que existe realmente um mercado para isso, fiquei surpreso”, explicou-nos.

Foi só em 2019 que Azome percebeu que a sua história e experiência podiam alegrar os outros. Os seus trabalhos e skits exclusivos no Instagram são dedicados aos santomenses, o seu povo. Faz questão que assim seja, por não existir representatividade nessa área e quer que quem o siga se possa identificar de alguma forma com o que está a ver. Tanto faz piadas em português como em dialecto de São Tomé mas sempre com foco na representação da sua cultura.

As mulheres são uma das maiores inspirações de Azome e nos vídeos faz questão de as representar de variadas formas. “As mulheres presentes na minha vida são-me tudo. Eu acho que em mim, metade do meu corpo é mulher e outra é homem, não no sentido figurativo, claro (risos). A minha mãe é a pessoa que mais idolatro na minha vida. Sou quem sou devido à minha mãe e aos seus ensinamentos. Não querendo desmerecer o meu pai, mas mãe é mãe”, explicou Azome.

O humorista guarda na sua essência o esforço e dedicação que os seus pais deram à sua educação. O fato de ser filho de agricultores “ensinou-me a dar mais valor as coisas, não consigo estar em casa e viver lá sem uma planta ou um animal por exemplo”.

Para o futuro, o Stand up comedy faz parte dos seus planos. Azome quer ter a oportunidade de pisar um palco e fazer as pessoas rirem com as suas histórias. Principalmente em São tome, onde gostaria de ser acarinhado como comediantes de outros países são, nomeadamente Angola, como os Tuneza. Vê-os como inspiração e quer seguir um caminho parecido, mas mantendo sempre a sua essência e o seu país como pano de fundo.

Se entretanto, apesar do empenho, a carreira na comédia não o levar aonde quer, Azome tem um plano B, a Contabilidade. Até lá, vai fazer de tudo para atingir os seus objetivos e conseguir criar uma equipa de produção para o desenvolvimento de séries de comédia.

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TRABALHO DE PRETO
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Wilds Gomes

Sou um tipo fora do vulgar, tal e qual o meu nome. Vivo num caos organizado entre o Ethos, Pathos e Logos - coisas que aprendi no curso de Comunicação e Jornalismo. Do Calulu de São Tomé a Cachupa de Cabo-Verde, tenho as raízes lusófonas bem vincadas. Sou tudo e um pouco, e de tudo escrevo, afinal tudo é possível quando se escreve.