Antonio Dikele Distefano | DR

Falámos com Antonio Distefano, o autor de “Zero”, a nova série sensação da Netflix

Antonio Dikele Distefano, 28 anos, é um jovem escritor em ascensão que está a tentar criar um lugar de fala para a comunidade afro-italiana. Desde que publicou um primeiro romance, em 2014, que Distefano acumula projetos de sucesso. Numa entrevista à Jeune Afrique, o autor, roteirista e apresentador de TV explicou que cansou-se de esperar que a sociedade italiana lhe conceda um “lugar à mesa” e que, com os seus amigos, iria construir a sua própria mesa. É nessa sequência que surge “Zero”, uma produção original da Netflix e a primeira série italiana a centrar-se numa narrativa negra.

Com estreia marcada para dia 21 de abril, “Zero” retrata a história de um adolescente negro fã de manga, que ao longo da trama e na luta pela sobrevivência acaba por descobrir o poder de se tornar invisível. O protagonista, contudo, não se trata de um herói convencional, mas sim um herói dos tempos modernos que se apercebe dos seus poderes quando a zona suburbana de Milão, local de onde sempre quis fugir, fica em perigo.

É ao ver o perigo eminente que, a contragosto, Zero [personagem principal] assume o papel de herói numa aventura que lhe permitirá descobrir a amizade de Sharif, Inno, Momo e Sara. Falar de “Zero”, mais do que falar de luta e resistência, é também falar da forma como a vida nem sempre segue o rumo que desejamos e que isso nos pode trazer coisas boas, começando pelo próprio autor da série, Antonio Dikele que sempre teve amor pela arte musical, mais propriamente o rap, mas cujo reconhecimento chegaria pela escrita.

Em declarações à BANTUMEN, Dikele assume que apesar de ser fã de rap e de ter trabalhado na área durante algum tempo não significa que tenha fugido de uma carreira para se dedicar ao cinema, pelo contrário. O “sonho de menino de 15 anos [rap]” ficou lá atrás para dar lugar a uma “transição de escritor de livro para escritor de filmes”, afirma acrescentando que o seu lugar na indústria musical é nos bastidores e que essa lhe parece uma escolha acertada. E não é para menos, uma vez que foi graças ao seu dom para escrever e contar histórias, que captou a atenção da gigante de streaming Netflix. Foi em 2018, após o lançamento do livro Eu nunca tive a minha idade que Distefano viu a oportunidade de colaborar com a emissora.

Não tardou até que se propusesse a colocar na tela uma realidade, para alguns, um pouco distante: a vida dos negros italianos que, a partir de dia 21 de abril, passarão a ser vistos e retratados um pouco por todo o mundo, numa produção que Antonio considera também uma forma de ativismo. “É a primeira série em que está representada uma geração de negros italianos. Agora não podemos mais fingir que não existimos, estamos lá e fazemos parte dessa cultura”, reitera acrescentando que esse factor não confirma nem desmente a existência de um eventual racismo estrutural na sociedade italiana. Distefano é muito claro na sua posição: “só saberemos [se existe ou não racismo estrutural] se depois desta série não houver outras”.

Para Dikele, “Zero” é uma realização pessoal, fruto de dois anos de trabalho que muito o orgulham. “Ver que tudo o que estava na minha cabeça inicialmente ganhou forma, deu-me uma grande alegria”, desabafa ao mesmo tempo que recorda tudo o que aprendeu durante a experiência e a forma como isso o deixou feliz.

Atualmente a trabalhar na segunda temporada da série, Antonio Dikele Distefano assume que futuramente gostava de visitar Angola com o seu pai e ter a oportunidade de “conhecer alguém influente para poder trabalhar num projeto que tenha impacto cultural”. Dikele não é muito conhecido pelas terras da Rainha Nzinga, mas tem esperança que o cenário se reverta. “Não são muitos os angolanos que conhecem a minha história e acompanham o meu trabalho. Espero que as coisas mudem com esta série”, finaliza.

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TRABALHO DE PRETO
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Marisa Rodrigues

Inconformada por natureza, acredito que o sucesso é um processo de melhoria contínua. Apaixonada pelas liberdades e oportunidades que a vida tem para oferecer. Teimosa o suficiente para não desistir, inteligente o suficiente para saber quando desistir.