Amazonas: O exército feminino do Reino do Daomé

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A fama do Reino do Daomé, que existiu entre os séculos XVII e XIX, no atual Benim, deve-se em parte às chamadas Amazonas. Um exército feminino que é, ainda hoje, um símbolo de coragem e emancipação das mulheres.

Daomé (em inglês “Dahomey”), localizado onde é hoje o Benim, foi um dos reinos africanos mais poderosos, onde 15 reis se sucederam, mas há poucos vestígios de mulheres nos manuscritos reais. No entanto, as mulheres distinguiram-se em várias ocasiões e uma mulher chegou mesmo a governar o reino.

Quem foi a primeira Amazona Daomé?

De acordo com o historiador Bienvenu Akoha, a primeira amazona foi Tassi Hangbé, filha do rei Houegbadja, fundador do reino do Daomé, e irmã gémea do rei Akaba. Em 1708, após a morte deste último, vítima de doença, Tassi Hangbe assumiu o comando militar sem o conhecimento do exército. Só depois de regressar das suas campanhas militares é que foi proclamada publicamente Rainha do Daomé.

Qual o impacto do seu reinado?

Embora tenha reinado apenas durante três anos, Tassi Hangbé teve tempo suficiente para chamar a atenção para as mulheres. Decidiu que também elas deveriam caçar ou dedicar-se à criação de animais, atividades anteriormente reservadas aos homens. Tassi Hangbe também desenvolveu a agricultura e facilitou o fornecimento gratuito de água potável a todos os seus súbditos.

Tassi Hangbé foi a primeira guerreira amazona do Reino de Daomé

Como é que as Amazonas se tornaram famosas?

À medida que a sua influência crescia, as conspirações contra si aumentavam também. Por isso, a rainha decidiu criar um batalhão de defesa, composto só pelas melhores mulheres guerreiras. As Amazonas, conhecidas como “Agoodjie” na língua Fon (que significa a última muralha de resistência que deve atravessar antes de chegar ao rei), foram recrutadas e treinadas desde muito cedo. O seu treino rígido transformou-as em guerreiras mais eficientes do que os homens. Durante a guerra, elas eram implacáveis, ao ponto de decapitarem qualquer um que lhes resistisse.

Alguns anos após o reinado de Tassi Hangbé, chegou ao poder do reino do Daomé o Rei Guezo (1818-1858) que rapidamente percebeu a vantagem que poderia ter com as Amazonas ao seu lado. Lideradas pelo lendário Seh-Dong Hong Beh, as guerreiras traziam-lhe prisioneiros, que ele entregava a um comerciante de escravos do Brasil em troca de armas, pólvora, tabaco e álcool. Esse tráfico lucrativo permitiu ao reino do Daomé consolidar o seu poder.

Durante a guerra, as Amazonas eram implacáveis, ao ponto de decapitarem qualquer um que lhes resistisse

Legado das Amazonas: Em 1882, o Rei Behanzin, que queria proteger os seus direitos comerciais, entrou em guerra contra a França. Confrontadas com um exército francês bem mais preparado em termos de armamento, as Amazonas tiveram de se curvar, sofrendo enormes perdas.

Apesar dos crimes que possam ter cometido, as Amazonas continuam a ser um símbolo da emancipação das mulheres. E depois de terem sido ignoradas durante anos, estão gradualmente a ser reconhecidas: em Abomey, antiga capital do reino do Daomé, está a ser construído um museu em honra de Tassi Hangbé. Para além disso, a guerreira sempre foi lembrada pelos seus descendentes com cerimónias festivas com cantos e danças em sua memória.

O parecer científico sobre este artigo foi fornecido pelos historiadores professor Doulaye Konaté, Lily Mafela, Ph.D. e professor Christopher Ogbogbo. A série “Raízes Africanas” é apoiada pela Fundação Gerda Henkel.

Amazonas: as temidas guerreiras do Reino do Daomé

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