Livros

Cinco livros para entender as malhas do racismo e não só

Os livros são uma das mais importantes ferramentas da construção da nossa formação, enquanto seres pensantes e sociais. Contudo, os hábitos de leitura estão a cair em desuso, em parte, por culpa desta era digital em que vivemos.

O Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, celebrado a 23 de abril, foi instituído pela UNESCO em 1995. A data escolhida é simbólica por ser um dia importante para a literatura mundial – foi a 23 de abril de 1616 que faleceu Miguel de Cervantes, escritor, dramaturgo e poeta espanhol, autor de Dom Quixote, uma obra-prima da literatura universal. E foi a 23 de abril de 1899 que nasceu Vladimir Nabokov, romancista, poeta, tradutor e entomologista russo-americano. A data é também recordado como o dia em que nasceu e morreu o famoso escritor inglês William Shakespeare. A data serve ainda para chamar a atenção para a importância do livro como bem cultural, essencial para o desenvolvimento da literacia e para o desenvolvimento económico.

À margem da efeméride, compilamos para ti cinco sugestões de leitura de autores negros, que poderão ajudar-te a descobrir ou dar-te uma melhor perspetiva sobre a luta social negra, os meandros do racismo, a negritude e não só.

A Liberdade é Uma Luta Constante, de Angela Davis

Nesta selecção de ensaios, entrevistas e discursos recentes, a célebre activista e académica Angela Davis lança uma nova luz sobre as lutas contra a violência de Estado e a opressão em vários pontos do mundo – da Palestina à África do Sul -, desmontando as estruturas do sistema capitalista (patriarcado, supremacia branca, políticas imperiais) que apenas sobrevivem perpetuando conflitos. É também uma reflexão sobre os combates históricos do movimento negro nos Estados Unidos.

O Avesso da Pele, de Jefferson Tenório

Um romance sobre identidade e as complexas relações raciais, sobre violência e negritude, O avesso da pele é uma obra contundente no panorama da nova ficção literária brasileira. O avesso da pele é a história de Pedro, que, após a morte do pai, assassinado numa desastrosa abordagem policial, sai em busca de resgatar o passado da família e refazer os caminhos paternos. Com uma narrativa sensível e por vezes brutal, Jeferson Tenório traz à superfície um país marcado pelo racismo e por um sistema educacional falido, e um denso relato sobre as relações entre pais e filhos.

Os Vivos, o Morto e o Peixe Frito, de Ondjaki

Neste exercício literário sob a aparência de texto teatral, a reflexão bem-humorada explica muitos dos fatores da convivialidade africana em território europeu. Perante um exercício puro de ficção e de liberdade: o autor dá voz aos africanos que vivem e viveram em Portugal, de um modo arejado e digno. O lado humano dos personagens africanos sobrepõe-se às suas nacionalidades, mas não aos seus costumes. Ondjaki deu-nos um texto cómico e sério, como se fosse um simples abraço a todos os que celebram a língua portuguesa de cada um.

Memórias da Plantação, Episódios de Racismo Quotidiano, de Grada Kilomba

Este livro é uma compilação de episódios quotidianos de racismo, escritos sob a forma de pequenas histórias psicanalíticas. Das políticas de espaço e exclusão às políticas do corpo e do cabelo, passando pelos insultos raciais, Grada Kilomba desmonta, de modo acutilante, a normalidade do racismo, expondo a violência e o trauma de se ser colocada/o como Outra/o. Publicado originalmente em inglês, em 2008, MEMÓRIAS DA PLANTAÇÃO tornou-se uma importante contribuição para o discurso académico internacional. Obra interdisciplinar, que combina teoria pós-colonial, estudos da branquitude, psicanálise, estudos de género, feminismo negro e narrativa poética, esta é uma reflexão essencial e inovadora para as práticas descoloniais.

A Estrada Subterrânea, de  Colson Whitehead 

Este livro conta a história de Cora, escrava numa plantação de algodão no Estado sulista da Geórgia. A vida é um inferno para todos os escravos, mas particularmente difícil para Cora. Abandonada pela mãe, ela cresce no meio da mais difícil solidão, a dos que são marginalizados pelos seus iguais. Quando Caesar, um jovem escravo acaba de chegar do Estado vizinho da Virgínia, lhe fala da estrada subterrânea, os dois decidem correr um risco fatal e fogem da plantação, rumo ao Norte e à Liberdade. Nessa madrugada de mau presságio, inicia-se uma fuga sangrenta, uma odisseia de esperança e de desilusão.

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Wilds Gomes

Sou um tipo fora do vulgar, tal e qual o meu nome. Vivo num caos organizado entre o Ethos, Pathos e Logos - coisas que aprendi no curso de Comunicação e Jornalismo. Do Calulu de São Tomé a Cachupa de Cabo-Verde, tenho as raízes lusófonas bem vincadas. Sou tudo e um pouco, e de tudo escrevo, afinal tudo é possível quando se escreve.