Yas/ Foto: Bruno G Star

“Quero e vou ser a melhor faixa preta do mundo”, Katiúscia Yasmira Dias

Quantos títulos são muitos títulos? Provavelmente não há um limite, pelo menos, não para a atleta guineense de 28 anos e lutadora de Jiu Jitsu, Katiúscia Yasmira Dias, conhecida como “Yas”. Cinturão negro na modalidade, a sua trajetória ja conta com numerosas medalhas e prémios. É 36 vezes campeã de Portugal, três vezes campeã da Europa, duas vezes campeã mundial de 90 quilos, cinco vezes Naga Belt, entre outros títulos.

Yas/ Foto: Bruno G Star
Yas/ Foto: Bruno G Star

O Jiu Jitsu apareceu na sua vida por mero acaso, em 2013, quando ia ver os treinos dos amigos. Na altura, jogava futebol na escola da Apelação, em Loures, no concelho de Lisboa, mas a convite do professor Nasser Camará, Yas começou a treinar a arte marcial, apenas para perder peso. Contudo, a modalidade deixou-a encantada logo após o primeiro treino e desde então não parou.

Todo o iniciante de Jiu Jitsu começa com a faixa branca, sem distinção de idade ou peso. Foi quando Yas começou a praticar e focou-se apenas numa coisa: ser campeã mundial. “Meti na minha cabeça que tinha um sonho, o de ser campeã mundial, campeã europeia e tudo o que eu pudesse ser em todas as faixas”, explicou-nos. Para chegar ao seu objetivo, o trabalho para a atleta não pára e tem uma disciplina de treino rígida. É graças a essa rotina de trabalho que detém mais de 97 medalhas: 90 de ouro, três de prata, quatro de bronze e ainda quatro cinturões.

Yasmira é atleta da academia Brazilian Power Team International e competiu n início do mês na 12ª edição do Campeonato Mundial de Jiu Jitsu Profissional. O evento aconteceu entre os dias seis e nove de abril, em Abu Dhabi nos Emirados Árabes Unidos, onde Katiúscia consagrou-se campeã mundial da categoria Master 1, faixa castanha/preta de 95 quilos.

Yasmira e o treinador  Bruno Borges "Tchola"/Foto: BANTUMEN
Yasmira e o treinador Bruno Borges “Tchola”/ Foto: BANTUMEN

Para a atleta, essa vitória teve um significado das anteriores. Foi a lufada de ar fresco que precisava depois de um 2020 atípico, onde não pôde competir devido à pandemia, e o culminar de muito trabalho, esforço e incertezas.

Apesar de ser um desporto reconhecido pela maioria das pessoas, a lutadora sente que o Jiu Jitsu não é tão valorizado como devia, sobretudo os atletas, que literalmente dão tudo pelo desporto que praticam. É também por isso que, apesar de ter dupla nacionalidade – guineense e portuguesa – neste momento luta pelo seu país de origem, Guiné-Bissau. Yas nunca sentiu que as entidades portuguesas a consideram-se uma atleta nacional. Nos dois primeiros anos que competiu no mundial, lutou com a bandeira das quinas ao peito e não sentiu o apoio do país, numa comparação com os outros atletas caucasianos portugueses. E nem um lugar no pódio fizeram a diferença. Hoje, a atleta fez a sua escolha e o foco é apenas vencer. “Sinceramente, já não penso nisso, porque quando luto não é à espera de algum apoio ou beneficio de alguém ou alguma identidade. Luto para mim, para alcançar os meus objetivos e metas”, afirmou.

Como mulher num desporto predominantemente ainda masculino, Yas sabe que não é apenas no tatame que tem de travar as suas lutas. Os caminhos são abertos com mais facilidade para os homens. Há apoios e patrocínios que são lhes direcionados automaticamente. Mas isso não a afeta, porque o seu mindset está bem organizado, sabe para o que vai, o que vai fazer e como fazê-lo. A evolução no Jiu Jitsu depende de pessoa para pessoa e o treino que faz e confessa também que o facto de treinar com homens a fez evoluir mais rápido.

“Há mulheres muito boas nas artes marciais, inclusive no Jiu Jitsu e outras áreas que são consideradas apenas para homens. E o mundo tem uma visão muita errada das mulheres nesses desportos, como se não estivéssemos lá a fazer nada. É um desporto para homens e ponto, essa visão e pensamentos têm de mudar. Infelizmente, por isso há muitos apoios que têm como preferência homens e acaba por não ser justo, tendo em conta a qualidade de muitas mulheres”, explica Yasmira.

Katiúscia Yasmira Dias Lopes/ Foto: BANTUMEN
Katiúscia Yasmira Dias Lopes/ Foto: BANTUMEN

É com orgulho e brio que Yas carrega hoje o título de campeã mundial na categoria Master 1, faixa castanha/preta de 95 quilos, mas ainda não é o suficiente. Yas sente que ainda há caminho por percorrer e mais medalhas para ganhar. Agora, o foco é a recém obtida faixa preta e conquistar mais títulos. “Tecnicamente, o sonho começa aqui e agora, com a faixa preta. Falta ganhar tudo o que sempre ganhei, mas agora pela faixa preta. Quero e vou ser a melhor faixa preta do mundo”.

Para a atleta, é um orgulho ter pessoas que se inspirem nela, mas mais importante ainda é que as pessoas percebam que cada indivíduo tem as suas singularidades e que estes possam olhar-se ao espelho com orgulho do quem são e do que querem ser. “Cada um tem de se inspirar nele mesmo. Eu, além de me inspirar em todos os professores de Jiu jitsu que tive, também me inspiro em mim mesma e no caminho que estou a fazer”, concluiu.

Abaixo podes conhecer um pouco mais da campeã mundial de Jiu Jitsu e a sua trajetória.

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Wilds Gomes

Sou um tipo fora do vulgar, tal e qual o meu nome. Vivo num caos organizado entre o Ethos, Pathos e Logos - coisas que aprendi no curso de Comunicação e Jornalismo. Do Calulu de São Tomé a Cachupa de Cabo-Verde, tenho as raízes lusófonas bem vincadas. Sou tudo e um pouco, e de tudo escrevo, afinal tudo é possível quando se escreve.