Diana Del Mar
Fotografia de Rodrigo Ramirez

Diana Del Mar pode ser a prova de que persistência dá lugar ao sucesso

Diana Morais, ou melhor Diana Del Mar, é o nome de uma nova prodigiosa artista portuguesa que tem uma ligação materna com Angola. Com 21 anos, Del Mar vive empurrada pela necessidade de se realizar enquanto artista e tudo o que faz, direta ou indiretamente, gira em torno desse objetivo. Apesar da sua juventude, Diana teve de lutar para se desenvencilhar do pré-conceito dos pais em relação à vida artística; desistiu de um possível percurso universitário e hoje é uma das caras do programa televisivo “Cabelo Pantene”, da TVI, mas é a música a fita que quer cortar no final da meta.

O amor pelo canto descobriu-o ainda muito pequena, sentada no chão, entre as pernas da mãe, enquanto era trançada. A artista inspiração daqueles momentos era nada mais nada menos que a soprano “voz da geração” e responsável pelo reavivar do teen pop no fim dos anos ’90, Christina Aguilera.

Com apenas oito anos, Diana fundou a banda Os Stars, juntamente com a melhor amiga Francisca Gomes e mais alguns amigos. “Foi muito engraçado porque voluntariei-me logo para ser a lead singer e songwriter. O facto de ser obcecada com a MTV, quando era mais pequena, talvez também tenha ajudado que o meu gosto pela música fosse aumentando”, explicou Diana.

Apesar de ter uma habilidade vocal extraordinária, com um registo angelical que nos suga a atenção, Diana nunca acreditou no seu talento, até porque, para os pais, era impensável que pudesse optar por uma carreira artística. “Aos olhos dos meus pais sempre fui a inteligente, futura médica da família portanto não era mesmo uma opção para mim”, disse-nos. E sendo a família o seu pilar, desde cedo, a jovem sentiu a responsabilidade de ajudar com as despesas da família. “A minha mãe sempre foi uma mulher muito forte, pois criou-me a mim e à minha irmã sozinha e, talvez por isso, não tinha muita capacidade de organização financeira. Por esse motivo tive de crescer um pouco mais rápido que as crianças à minha volta e ajudar-lhe nesse sentido”, disse Diana.

Foi entretanto no ensino secundário, período da sua vida que a marcou profundamente, que voltou a descobrir a música. “Foi horrível simplesmente porque não segui o que realmente queria, que eram as artes. Se voltasse alguns anos atrás, talvez optasse por um curso de Teatro Musical. As coisas poderiam ter tomado um rumo diferente e eu já estaria com a carreira mais avançada. Ao invés disso, fui para Ciências e Tecnologias, um curso que, além de exigir muito estudo (tempo que eu gostava de passar a escrever músicas e a fazer karaoke), as disciplinas não tinham nada a ver com o que gostava. São muito objetivas e eu gosto de criar realidades, não de estudá-las”. Diana explica ainda que, apesar de ter sido sempre uma aluna exemplar, começou a ver as suas notas baixarem consideravelmente, o que a levou a descobrir a ansiedade e o início de uma depressão. “Até hoje não consigo explicar bem o que sentia pois, quando olho para trás, a maioria das memórias que tenho comigo mesma são negativas”.

Foi assim que Del Mar acabou por refugiar-se no que a fazia feliz, as artes. “Isto porque, enquanto decidia se fazia ou não os trabalhos de casa cantava numa aplicação de karaoke. Ganhei milhares de seguidores em pouco tempo.” Esse foi, oficialmente, o empurrão que precisava para acreditar e apostar no seu talento.

“Encontrei pessoas que acreditavam em mim e nas minhas ideias ‘estapafúrdias'”

Entretanto, inscreveu-se na Escola de Tecnologias Inovação e Criação (ETIC), onde fez um curso de Produção Musical. Para pagar o elevado custo do curso, considerando que não teria o apoio dos pais, a jovem teve de começar a trabalhar. Diana questiona “por que este tipo de cursos não podem ter propinas mais baratas sendo que as artes e a cultura fazem parte de uma grande fatia da economia dos países”.

Apesar de não sentir que obteve o resultado desejado, sobretudo por dividir-se entre o trabalho que acabava a horas tardias e a as aulas, Diana conseguiu criar uma rede de contactos que a acompanha até hoje. “Pela primeira vez, encontrei pessoas que acreditavam em mim e nas minhas ideias ‘estapafúrdias’.

Seguir com o seu percurso académico numa universidade estava fora de questão, o mais importante passou a ser a música.

“Até hoje, acho que sou a pior desilusão dos meus pais, mas eu não podia arriscar sentir-me infeliz para o resto da vida. Não sinto que Portugal ofereça excelência e educação suficiente para as pessoas de artes. Além disso, sempre senti que há mais professores a cortarem as asas dos alunos do que propriamente a incentivá-los a voarem. Neste momento trabalho muito para o que quero, não durmo quase e estou sempre ansiosa porque não sei o dia de amanhã, mas estou muito feliz porque faço o que gosto”, afirmou-nos Diana esperançosa com o que o futuro, fruto da sua persistência, está a reservar-lhe.

Hoje, a mãe já vê a sua carreira na música com mais entusiasmo, mas foi ainda a negação desse lado artístico de Diana que serviu de base para compor a sua primeira música, num registo indie pop.

“Escrevi ‘Mamã e Papá’ quando tinha 17 anos. Quando entrei na ETIC aos 18, o meu coordenador de curso na altura – o Pedro Chamorra – mostrou-se desde o início interessado em trabalhar comigo. Entretanto, teve de sair a meio do ano letivo por razões pessoais e nesse Verão, já o curso tinha acabado, mandou-me um e-mail a convidar-me para ir ao estúdio dele. Depois de ele me ter mostrado uns 25 instrumentais, disse-lhe que tinha escrito esta música com um refrão super catchy. Ele ficou interessado na ideia e a partir daí começou a criar uns acordes fixes. Na altura não tinha vindo com o resto da letra na mochila e não me lembrava dos versos que tinha escrito (para ser sincera, nem gostava tanto deles) então decidi pegar numa folha branca, o Pedro foi para a sala dele fazer uma sesta de cerca de 30 minutos e eu nesses minutos escrevi a música toda. Quando chegou, o resto do processo foi super rápido, comecei a gravar as vozes, voltei lá no dia seguinte para acabar e em 4 meses ele acabou a produção toda, a mistura e o master. Durante este tempo, tive tempo de pensar no videoclipe e em Setembro de 2020 fi-lo com o Ricardo Brito, numa mata perto de minha casa. Ficou exatamente como idealizava.”

Depois de “Mamã e Papá” a artista quer lançar duas novas músicas, em estilos diferentes de produção e está também a preparar o seu primeiro álbum, que planeia lançar em abril próximo ano.

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BANTULOJA
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Bruno Dinis

Carrego a cultura kimbundu nas minhas veias. Angolanidade está presente a cada palavra proferida por mim. Sou apologista de que a conversa pode mudar o mundo pois a guerra surgiu também de uma. O conhecimento gera libertação e libertação gera paz mental, por tanto, não seja recluso da ignorância.