Cláudia Moreira | DR

#MostraoTeuNegócio: Zafia, de Claudya Moreira, é exemplo de tenacidade sem fronteiras

Ninguém poderia imaginar que a pandemia iria alterar as estruturas das nossas vidas para sempre. Que o diga Cláudia Moreira, modelo e agora empresária, que alia o tradicional ao contemporâneo para redefinir a forma como vemos os lenços utilizados pelas mulheres cabo-verdianas.

Cláudia, no ano passado, decidiu mudar a sua base de vida da Suíça para Portugal e acabou por ser surpreendida com restrições que colocaram em suspenso qualquer hipótese de exercer a sua profissão como modelo, no que toca a viagens nacionais e internacionais. Tendo-se sempre assumido como uma mulher inquieta e determinada, o confinamento acabou por confirmar estas características, precisamente quando decidiu explorar de forma mais séria o seu gosto pelo uso de lenços como acessório.

A terra onde nasceu, Cabo Verde, tem uma forte influência na escolha do lenço como acessório indispensável no dia a dia de Cláudia e, agora, no das suas clientes. Há uma simbologia muito forte associada, sobretudo, pela mulher anciã cabo-verdiana. “O uso de lenços em Cabo Verde, pelas mulheres anciãs tem um valor simbólico. É um sinal de respeito, de admiração pela experiência de vida das mesmas.”

Através de vídeos partilhados nas redes sociais, sobretudo no Tik Tok, a jovem empresária passou a dar dicas de formas criativas de utilização dos lenços. O feedback dos seguidores foi tão grande que Cláudia viu a oportunidade de criar o seu negócio, ao qual deu o nome de Zafia (alcunha pela qual é carinhosamente tratada pela família).

Estamos a falar de uma empresa que nasceu no âmbito de uma realidade pandémica, criada de raiz por Cláudia, que contou apenas com a ajuda do namorado e de uma costureira.

Apesar de não ser designer, a empreendedora tem criatividade de sobra para escolher os padrões e definir as diferentes formas de usar os lenços, em tamanhos diferentes. 

Durante a criação de cada peça, Zafia tem a consciência de sustentabilidade patente e nada das sobras são desperdiçadas.

Na conversa que vão poder ler a seguir, poderão perceber como este negócio de lenços deu lucro no primeiro mês de vida e às portas do seu primeiro aniversário, Cláudia prepara-se para lançar a coleção de verão.

Como surgiu a ideia para começar esse negócio?

Primeiro de tudo, nunca pensei em ser empreendedora ou em trabalhar por conta própria. Isto tudo foi consequência de ter partilhado alguns vídeos nas redes sociais de como fazer amarração de lenços, de diferentes formas. Tudo aconteceu o ano passado, depois de me ter mudado para Portugal, em fevereiro. Morei durante 12 anos na Suíça e decidi que estava na altura de voltar à base. Defini planos para continuar a minha carreira como modelo, mas, essa ideia foi completamente interrompida pela COVID que nos pôs em lock down passado três semanas de ter vindo para Portugal. E foi aí que comecei a postar vídeos para mostrar diferentes formas de usar lenços. Os lenços sempre fizeram parte do meu dia a dia. Cresci em Cabo Verde e lá usa-se muito. A sua utilização tem uma conotação simbólica, as mulheres mais velhas usam-nos e transmitem como que um sinal de respeito para as gerações mais novas. Sempre tive muitos lenços em casa e inspirada por outros vídeos, senti-me incentivada a experimentar e assim surgiram as minhas primeiras concretizações. Percebi que não iria guardar apenas para mim mesma. O Tik Tok foi a minha janela para o grande público, ia partilhando e as reações deixavam-me cada vez mais envolvida. Daí, foi juntar o útil ao agradável e assim nasceu a marca Zafia.

Quais foram as tuas fontes de inspiração?

A inspiração vem toda das mulheres cabo-verdianas, pois, cresci a ver a minha avó e as minhas tias sempre de lenço amarrado na cabeça. Quero com a Zafia poder retribuir, de alguma forma, para o desenvolvimento do país, através da educação. Dar oportunidade a outros de serem o que eu sou.

A criatividade sempre foi o teu ponto forte? 

Sim, sempre fui uma pessoa de fazer trabalhos manuais. Sempre fui muito criativa. Precisamente por isso, em 2010, fiz um curso de fashion stylist que me deu algumas ferramentas e a possibilidade de trabalhar com algumas revistas, bem como, desenhar as minhas próprias coleções, apesar de nunca ter usado essas peças. Desde pequenina, que, nas minhas brincadeiras, pegava em trapos que a minha mãe tinha em casa e fazia roupas para as minha bonecas. Mas, por outro lado era super “maria rapaz”, nem sei como é que fui parar a modelo. Mas, lá está, talvez o facto de vestir as minhas bonecas me tenha conduzido a essa profissão.

Qual é o teu processo criativo?

A primeira das coisas que faço é tirar notas de todas as ideias que me surgem. O segundo passo é pesquisar e tentar ideias que me inspirem. Os lenços acabam por nascer de ideias, eu não os desenho. O que faço são os moldes e os cortes. O lenço é uma peça descomplicada. Não tenho de conceber o seu design. Surge a ideia e, em seguida, vou à procura dos tecidos e com a minha costureira criamos os lenços de acordo com as amarrações desejadas.

Pensaste numa estratégia de como irias desenvolver este projeto? Tens algum investidor por trás?

Não pensei nem defini propriamente uma estratégia e é um negócio 100% meu. Desde a concepção à concretização. Não tenho nenhum art director a trabalhar comigo e sou eu que faço as produções, os mood boards para os shootings. Saiu tudo do meu suor, até porque, quando saí da Suíça tinha conseguido fazer umas poupanças e foi daí que fui buscar recursos para investir. Não tinha noção de como gerir um negócio e no princípio senti-me um pouco assoberbada. Tudo por detrás de um negócio é bastante exigente, desde as sessões fotográficas, documentação, organização das modelos, etc. Não tenho uma equipa de trabalho montada, portanto, conto com a ajuda do meu namorado e da minha costureira.

A minha marca é, ainda, muito bebé e achei prematuro estar a pô-la na mão de um investidor, gostos das coisas feitas com calma, para que tenha um significado e um valor.

Ainda tenho tantas ideias que não as quero perder, pois, passando a empresa para as mãos de um investidor, as coisas podem fugir do meu controlo. Não quero, de todo, dar um passo maior do que a perna. Acho que as pessoas gostam de ver projetos que nascem do nada e poderem acompanhar o seu crescimento de forma natural. Na vida, nem tudo é uma questão de dinheiro.

Antes de criar a Zafia, fiz um ou dois cursos intensivos online para aprender mais sobre gestão e empresas para saber bem como me devo mexer neste mundo empresarial.

Quando vendes os lenços sugeres formas de os amarrar?

Ainda não consegui chegar a esse patamar mas, certamente, é uma meta de futuro, fazer acompanhar um catálogo das peças vendidas. Mas as pessoas quando compram já sabem, de antemão, que tamanho escolher e nisso os meus vídeos ajudam muito (tanto na escolha do padrão como no tamanho).

Tens alguma peça nova para lançar brevemente?

Sim. Estamos a terminar agora a coleção de verão e, já no próximo mês, teremos um artigo novo para apresentar.

Para quem são os lenços? Tem algum nicho específico?

Não. Não tem um nicho específico até porque, na Zafia, temos um lema que é a diversidade. São lenços criados para todos, sem distinção de género, etnia ou o que for. 

Como é que este negócio tem mudado a tua vida?

Muito devido à COVID, acho que a vida de todos nós mudou. A minha, em concreto, mudou muito. Deparei-me comigo parada e percebi que não era para mim. Estamos no meio de uma pandemia, não há trabalho mas logo percebi que tinha de fazer algo mais do que lamentar e estar sentada no sofá. Desafiei-me e assim surgiu a Zafia.

Antes da pandemia trabalhavas como modelo, tinhas um ordenado e neste momento não estando a exercer essa profissão. A Zafia compensa essa perda? Tens lucro?

A Zafia deu lucro logo no primeiro mês. Tive a sorte de ter sido contactada pela Vogue Internacional, para ser entrevistada por eles e este foi um dos pontos mais altos do meu percurso profissional. Foi a melhor coisa que aconteceu. A minha marca é pequena e com esse artigo, quase perdi o controlo. Para teres uma ideia, no primeiro mês, enviámos lenços para dez países diferentes.

E é engraçado que, como modelo, nunca tinha estado na Vogue, foi preciso montar um negócio para ter tido esse privilégio. Portanto e resumindo, a marca teve lucro logo no seu primeiro mês.

A Zafia é sustentável e amiga do ambiente em que medida?

O facto de ser um lenço versátil, que tem várias formas de ser usado, automaticamente suprime a necessidade de comprar vários artigos. Os tecidos que usamos, as sobras, são todas aproveitadas, não desperdiçamos nada. É daí que nascem os scrunchies e os skinny scarf. Usar para depois descartar, para nós não faz sentido.

Além de que os nossos lenços são todos feitos em Portugal, não usamos tecidos nenhuns que tenham sido criados em ambientes de exploração.

Quais são as suas expectativas em relação ao futuro da tua empresa?

Gostaria de ter uma loja física e de ter uma equipa montada.

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BANTULOJA
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Maria Barbosa

Irrequieta, consciente e com muita sede de aprender! Encontrei na liberdade criativa da BANTUMEN uma das minhas mais valiosas oportunidades de mudar o mundo.