Welket Bungué e as atrizes/ Foto: Manuel Manso

Prima ku Lebsi “causa o direito a experimentar. A ser. É um convite a despertar”

Como é que se orquestra a realização de um filme? O que está por trás das câmaras? Como se desenrola a cadência das filmagens? A convite do ator e realizador Welket Bungué, fomos ver como as coisas acontecem no set de filmagens do filme Prima ku Lebsi, rodado em Lisboa.

Num prédio no centro da cidade, acontecia uma festa nada comum. Gritou-se acção e, numa espécie de movimento coordenado, cada um ao seu ritmo, todos começaram a dançar sem o embalo de música alguma. O feeling hedonista, livre e afro-futurista era palpável, como se todos os presentes soubessem que este filme pode mudar e desconstruir mentalidades e pensamentos.

O filme Prima Ku Lebsi conta a história de duas mulheres afro-descentes que têm um affair lésbico e, ao mesmo tempo, que Lebsi está a descobrir e a experimentar um outro lado da sua sexualidade. “As personagens são atravessadas por um questionamento daquilo que é a ideia de territorialidade ou daquilo que é também uma herança cultural dos seu pais. Porque há uns que já se sentem altamente empoderados por estarem nas zonas chamadas periféricas da cidade, e há outras que sentem que têm de ir para o centro da cidade, porque só aí acham que vão ter oportunidades e vingar. Este filme está a ser escrito talvez há quatro anos, eu quando comecei a filmar o Arriaga já tinha esse script em desenvolvimento e só agora conseguimos o apoio da GDA, o fundo para apoio a curtas metragens e a partir dai comecei a editar o roteiro”, explicou-nos Welket.

A inspiração para a trama surgiu do movimento negro afro brasileiro Batekoo. Welket trouxe também como influência para a curta-metragem os VengaVenga (Denny Azevedo e Ricardo Don), casal queer de performers e músicos brasileiros. “É interessante ver que há muitas outras pessoas que se identificam com este tipo de mundo de evidência, com este tipo de trânsito, com este tipo de transversalidade. Está a ser muito enriquecedor fazer isto”.

A produção

O factor Covid foi importante para a produção da curta-metragem. Foi necessário aguardar as novas regras impostas pela Direção Geral de Saúde em Portugal, as medidas de desconfinamento, assim como os testes negativos submetidos a todos os intervenientes no filme, para finalmente dar início à gravação das cenas.

Para André Lourenço, produtor, “produzir um filme em tempo de Covid mostrou-se um desafio muito interessante. Há uma vontade imensa por parte de todos os envolvidos no processo criativo em trabalhar, ainda que com as condicionantes a que este período tumultuoso da história nos obriga. Já a obtenção da matéria prima a que um filme obriga, mostrou-se bastante mais complicado: selecção de espaços para filmar e autorizações, ensaios com os atores e equipa, teste de guarda-roupa, make-up e cabelos, criação artística do espaço fílmico (nos locais a filmar), tudo é mais demorado e complexo – as pessoas temem o contato físico com “estranhos” e a possibilidade de uma infeção de Covid, uma sensação constante de aprisionamento. Este medo da estranheza, a que a corrente realidade nos impõe, é contrariado pela narrativa e ideia central a que o filme se propõe. Tão atual na sua essência, como necessidade. A vontade de liberdade financeira, sexual, e social, através da desconstrução do outro como parte de nós mesmos, independentemente das suas/nossas diferenças, seja pela sua sexualidade ou descendência, é um sinal da modernidade que muitas vezes nos parece alheio pela velocidade e premente mudança das nossas vidas.”

Durante as filmagens / Foto: Manuel Manso

André acrescenta ainda que “esta é também uma forma de não nos esquecermos da importância da tolerância e do respeito por aquilo que nos é alheio. Na beleza, riqueza e enriquecimento às nossas vidas e enquanto seres humanos que este entrelaçar de mundos nos aporta. E se é este o mundo que queremos, temos de lutar por ele, e o cinema é uma importante forma de luta.” O centro desta criação artística foi a exploração dos “conceitos de exclusão e oportunidade, periferia e centro, assim como definições, identidades e expressões de género e a atualidade do olhar sobre estas questões. Esta reflexão ajudou à seleção dos atores, dos espaços onde filmar, do guarda-roupa, cabelos, make-up e de tudo que ajudasse a contribuir para a ideia central do filme”.

Dupla VengaVenga / Foto: Manuel Manso

De acordo com Miguel Morazzo, director artístico do filme, a direção de arte é como uma teia de aranha, onde todas as linhas acabam por se cruzar. “A meu ver, tudo começa na raiz, na origem de cada fio. A desconstrução é necessária, porém nem sempre é fácil. Neste caso em particular, tudo começa com um grande espírito de equipa e de união. Esta foi a nossa base. Sem uma equipa extraordinária, não tínhamos feito o que fizemos no tempo de duas semanas. Quando digo extraordinária, não me refiro apenas às competências de cada um mas a específicas aptidões bem mais preciosas, como a empatia, o respeito, a vontade de em uníssono chegarmos a um objetivo comum. E foi o que aconteceu. Estou convicto de que por todos nós se fez sentir o processo de cura que o próprio filme instiga e, quando assim é, existe esperança. Este é o exemplo que podemos deixar e que certamente transpirará de forma subconsciente pelas várias camadas da tecelagem deste universo.”

Prima Ku Lebsi é um filme com um objetivo, o de pelo menos despertar a consciência. Para Miguel, pode-se reter desde filme “coisas muito simples que parecem ser sempre as mais difíceis de se manterem lembradas: sermos livres para amar e para seguirmos os nossos sonhos. Todos nós somos merecedores disso. Uma força maior pintou a natureza com uma infindável variedade de pigmentos, formas, texturas. Não nos podemos percecionar da mesma forma? Porquê distorcer algo tão bonito? Em conjunto com os outros departamentos, procurei garantir a representação dessa riqueza, para que o espectador viva uma experiência em que possa disfrutar dessa diversidade e nela encontre alegria. Existe uma pintura de Paul Gauguin que nunca esqueço: “De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos?”. Depois de cada um de nós se abrir à viagem interior do autoconhecimento, acredito que chegaremos a um lugar melhor. Prima ku Lebsi causa isso mesmo, o direito a experimentar. A ser. É um convite a despertar.” 

As atrizes

Lebsi interpretado por Carla Monteiro / Foto: Manuel Manso

Além da produção e arte que completa um filme, os atores e atrizes fazem um papel que determina o sucesso, ou não, de uma película. Incarnar um personagem exige um trabalho megalómano para decorar texto e incorporar as manias, os jeitos e trejeitos de outra pessoa. É um trabalho exigente, contínuo e diário, coordenado com o talento do ator ou atriz e a intenção dos realizadores e produtores.

Sobre a escolha do elenco, a atriz Carla Monteiro, que interpreta o papel de Lebsi, explica a visão de Welket. “Escolheu os atores tendo em conta a semelhança que pudessem ter com a personagem. Quando ele falou comigo, já sabia que talvez tivéssemos muitas coisas em comum. Ele falou-me em algumas referências, deu-me algumas linhas para eu seguir, filmes e ideias. Quando li o guião e comecei a trabalhar vi que realmente éramos muito parecidas, então tive só de alterar algumas coisas. Não tive grandes dificuldades em preparar a personagem, nesse sentido. Este papel fala-me muito sobre o poder da mulher, o poder das pessoas que vivem na periferia, porque eu própria venho da periferia. E relembrou-me mais uma vez que realmente o foco não tem de ser a cidade. E o que a torna especial é o que vem de fora. É muito complicado viver nas periferias e nos bairros, não quer dizer que não haja talento, claro que há. Mas aqui levanta-se um grande problema: será que as pessoas que vivem na periferia conseguem realmente ser aquilo que querem ser?! E nesse sentido mudou a minha maneira de ver a periferia apesar de vir de lá (…) nunca sabemos o que podemos esperar de ninguém, toda a gente nos pode surpreender”.

Prima interpretado por Nádia Yracema / Foto: Manuel Manso

Já para Nádia Yracema “Prima, é uma mulher independente, guerreira, muito resiliente, que tem sucesso num mundo dominado pelos homens, o mundo do rap, da música e da sua criação, dentro e fora do bairro. Considerando a sua história, como orfã de mãe e pai, é uma pessoa que cresceu muito sozinha em termos familiares, mas mesmo assim é uma pessoa que conseguiu dar a volta e conseguiu não desistir. (…) Inspiro-me nessa mulher e em outras mulheres, que não se deixam ser abafadas.”

A atriz revelou também que inspirou-se em Mynda Guevara, artista que admira. “Olhei muito para aquele que é o estilo dela, pelo que diz, escreve e traz com a sua música. “Foi das maiores referências, sem esquecer a Missy Elliot, Erykah Badu, Lauren Hill, entre outras. Foi ouvindo essas mulheres que me preparei para esta personagem, foi pensando nessa vivência do bairro, nessa Lisboa que não é visível nos roteiros turísticos, que é uma Lisboa onde os nossos corpos ainda não têm expressão e como é que eu posso ocupar este espaço de bairro e de cidade e poder mover-me livremente sem constrangimentos.”

Welket Bungué / Foto: Manuel Manso
Welket Bungué / Foto: Manuel Manso

O guarda-roupa

Prima Ku Lebsi tem a sua singularidade desde o guarda roupa até à maquilhagem, passando pelos penteados, que tendem ao máximo representar a realidade, muitas vezes “escondida” nos bairros e nas periferias. Mónica Lafayette é a mão por trás das indumentárias que se vão ver na tela. “O Welket falou-me deste filme há anos, quando fui ver o Arriaga. Aceitei logo, e só depois li a sinopse. Entretanto, fiz o guarda roupa do filme Mudança, de Welket Bungué com Joacine Katar Moreira, e desde aí criámos uma ligação que foi importante para o processo criativo de Prima Ku Lebsi“, explicou a figurinista.

“Espero que este filme marque muito a realidade social e urbana que estamos a viver e este universo que às vezes é um bocado escondido. Mas isso para dizer que estou feliz apesar de todos os medos que senti, nomeadamente de não conseguir. Porque é muita responsabilidade criar algo que seja intemporal e pensar em cada detalhe. Algumas das personagens usam roupas de grandes marcas PALOP, como de estilistas angolanos, então todas as coisas começam a interligar-se de acordo com o que está ser feito”, acrescentou.

Mas como é que se cria uma maquilhagem e penteados de personagens de um filme que quer se afirmar com quem o protagoniza? Sara Menitra, makeup designer, responde que “é importante em primeiro lugar conversar com o realizador e perceber o input dele para cada personagem e depois falar com cada um dos atores e saber como se sentem com a personagem. A partir daí é trabalho de equipa, falar com a direção de arte, com o guarda-roupa, fotografia e iluminação… porque há muitos acessórios e extensões no cabelo a serem usados, então é necessário saber a panóplia de cores que vai haver, de forma a conjugar tudo num só. E cria-se a partir daí”.

Como já escrevemos aqui na BANTUMEN, este filme é o fechar de um ciclo para Welket Bungué, começado em 2013 quando conseguiu o financiamento da Gestão dos Direitos dos Artistas para o primeiro filme da trilogia “Sonhos de Cor”, Bastien. Entretanto, seguiu-se Arriaga e agora Prima ku Lebsi.

Com uma co-produção KUSSA e ARRANCA Produções, foram três dias intensos de gravações de um filme produzido por André Lourenço, direção de arte de Miguel Morazzo e direção de produção de Alesa Herero. Prima ku Lebsi entra em pós-produção em breve e tem prevista a estreia para 2022.

Faz play abaixo para veres um pequeno excerto do behind the scenes e a entrevista a Welket bem como aos atores.

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BANTULOJA
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Wilds Gomes

Sou um tipo fora do vulgar, tal e qual o meu nome. Vivo num caos organizado entre o Ethos, Pathos e Logos - coisas que aprendi no curso de Comunicação e Jornalismo. Do Calulu de São Tomé a Cachupa de Cabo-Verde, tenho as raízes lusófonas bem vincadas. Sou tudo e um pouco, e de tudo escrevo, afinal tudo é possível quando se escreve.