Arquiteturas Film Festival: A semana em que Angola foi a “Mãe Grande” do cinema, em Lisboa

Demorei alguns dias a assimilar e a escolher os filmes sobre os quais queria escrever, uma vez que gostei de todos – mesmo não tendo conseguido ver alguns – aqui vai o que senti. 

Quando podemos escrever sobre cinema apenas porque o assistimos, a liberdade de expressão é maior. Longe vão os tempos em que os festivais de cinema eram dirigidos a um público específico – ainda os há – e que só a crítica cinéfila permitia aferir os detalhes de um documentário, uma longa, uma curta ou qualquer outro modelo experimental que nos conte histórias.

Soube do festival por amigos e liguei a outros tantos para saber se iam, uma vez que alguns eram os realizadores, atores e produtores. Assim já estava em casa!

O Cinema São Jorge foi a tela de 11 filmes angolanos e os seus pares europeus durante sete dias. Desde que cheguei de Luanda, há quase quatro anos, nunca tinha visto nada assim. Nem mesmo em Angola, já que os cinemas estão a ser vendidos e destruídos pela inércia ou conveniência de quem deles deve cuidar.

A Geração 80 ganhou dois prémios nas categorias de ficção com o filme Ar Condicionado, de Fradique, e o documentário com Para além dos meus passos, realizado por Kamy Lara e com produção de Paula Agostinho, o “Women Power” a competir e a ganhar a filmes europeus, com a curadoria da Marta Lança – que conheci em Maputo em 2009, por coincidência no Dockanema, um dos festivais de cinema moçambicanos que marca a história do documentário no mapa. Regressei à minha Nguimbi (terra) por uns dias. Uma delas. Porque tenho três, mas isso explico noutro dia.

O início da viagem começou com o património que Ruy Duarte de Carvalho [um dos mais importantes atores portugueses contemporâneos] nos deixou ao retratar os 15 dias que sucederam a nossa Dipanda – [Independência] a 11 de novembro de 1975– através de uma família do Bairro do Cazenga, dos trabalhadores da TAP – agora já temos TAAG – e a própria cerimónia que “era para ser de nós todos”.

Como vou escrever sobre alguns filmes tenho de desabafar que senti falta de representatividade. A nossa. Reclamamos tanto um espaço e desta vez que o tivemos o São Jorge não encheu. Não houve stories no Instagram como há na Moda Lisboa ou no evento de um influencer que tenha mais de 100 mil seguidores. E pergunto-me. Somos nós todos mesmo?

Entretanto, fui barrada à porta de algumas sessões, uma vez que fui das poucas pessoas que comprou voucher. Mas, em algumas vezes, aquela senhora que me barrava dizia “que não era por mal” e lá deixava entrar alguém dez minutos depois.

Dica importante para o ano que vem, espero que se afinem as burocracias com a organização. 

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TRABALHO DE PRETO
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Magda Burity

Comunicadora nata, ativista e antiracista Magda Burity soube, desde cedo, que queria ser jornalista. Com carreira em Moçambique e Angola, é em Portugal que tem desenvolvido os mais recentes projetos dedicados ao Media Coach, digital e empreendedorismo. País onde nasceu e regressou há 4 anos depois de 15 anos em África.