Arquiteturas Film Festival: Mulheres – A lição do “Ti Paga Bwé”

Foi o filme que fechou o Arquiteturas Film Festival e que marcou, aqui em Lisboa, a indústria de cinema angolano como “Ngollywood”. Para mim, o nome ainda não está bem definido e eu chamaria “Angolywood”. 

Mas vamos ao que interessa.

Um festival de cinema como o Arquiteturas Film Festival – onde a discussão, além dos filmes são os espaços, a arquitetura e a ergonomia deles – faz de Mulheres, de Allen Mamona e realizado com um orçamento de três milhões de kwanzas (cerca de 3895 euros), o futuro, de acordo com as palavras do produtor executivo e ator Sílvio Nascimento.

No trailer, que fechou o festival, a locação escolhida para esta história de ficção sobre poligamia foi os arredores de Luanda ou mesmo a própria cidade, já que a ascensão e queda de um dia de José Manuel – o “Paga Bwé” – podia acontecer no bairro do Catambor, no Rocha, São Paulo ou até na Ilha.

A narrativa simples e descomplicada faz parte da vida dos angolanos e é transversal a todas as classes. Mesmo em Talatona [a zona nobre de Luanda], os tios como José existem camuflados por grandes carros, conduzidos por motoristas e que deixam as suas mulheres em casa para se divertirem em vidas paralelas. A diferença é que os seus filhos não passam fome e as esposas podem ir ao salão e desempenhar imensas atividades que as fazem “esquecer” a sociedade amoral a que muitas mulheres são sujeitas ou têm de se sujeitar.

Estas inúmeras violências e microagressões, pedofilia, que se camuflam na virilidade de homens africanos, são o pão nosso de cada dia, sem precisarem de ser contadas de forma rebuscada, numa altura em que o cinema angolano está em crise. Ou sempre esteve.

É aqui que “Angolawood” pode crescer. Produzindo filmes de histórias reais, com personagens reais e sem a cosmética da primeira década de 2005 – 2015. Aquela em que havia apenas um reinado e o nosso país estava a ser contado como se fosse os Estados Unidos da América. 

É aqui que os produtores e realizadores se podem tornar numa força de produção que mostre ao mundo que o país e quem de direito não está focado em apoiar a produção nacional, mas #ninguémdesisteainda. Parafraseando Paulo Flores. 

Angola, Luanda e todas as cidades e províncias ainda estão em reconstrução moral. Este filme, de baixo orçamento, mas de grande intenção mostra tudo e vai longe. 

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Magda Burity

Comunicadora nata, ativista e antiracista Magda Burity soube, desde cedo, que queria ser jornalista. Com carreira em Moçambique e Angola, é em Portugal que tem desenvolvido os mais recentes projetos dedicados ao Media Coach, digital e empreendedorismo. País onde nasceu e regressou há 4 anos depois de 15 anos em África.