“Careca não”, um hino de empoderamento capilar na voz de Dino Ferraz

Dino Ferraz é um dos artistas angolanos que mais tem sido comentado nas últimas semanas em Angola. Com a música “Careca não”, que viralizou nas redes sociais, o single de Dino é um recado para todos aqueles que insistem em não reconhecer a herança cultural que o cabelo crespo carrega.

Dino Ferraz Albino é um artista musical multidisciplinar, que acumula as funções de cantor, compositor, intérprete e treinador vocal.

Formado em música, na área de canto ligeiro profissional, o músico tem consigo uma vasta experiência e presença em projetos e prémios de música em Angola, como o Festival da Canção de Luanda, onde recebeu o prémio de Melhor Intérprete, na edição de 2015, e de Melhor Composição e co-produção em 2018.

Dino é caracterizado pela sua simplicidade nas composições e leveza no cantar. Desde o jazz, bossa nova até ao World Music, o artista vai conquistando cada vez mais o seu espaço, o reconhecimento no ceio artístico e entre o público.

Em 2018, fez a nova roupagem do hit “Inocenti”, de Paulo Flores, lançou as populares “Minha Amada”, em 2019, “Sintomas”, em 2020, e antes de “Careca não”, disponibilizou “Perfeito Amor”, já 2021.

Em entrevista à BANTUMEN, com Eddie Pipocas, Dino falou sobre o processo de produção do seu mais novo single, “Careca não”, onde explicou vários factos que envolveram a produção da música que se tornou viral devido à sua mensagem de conscientização.

Em Angola, o cabelo dos homens é escrutinado ao ponto de, se este estiver fora dos parâmetros impostos pela sociedade e que derivam de uma ideologia eurocentrada – consequência da colonização – serem impedidos de cumprir direitos de cidadania tão basilares como tratar ou renovar o bilhete de identidade ou entrarem numa sala de aula. Em algumas instituições, esta questão acaba por ser de tal forma importante que chega a influenciar opiniões sobre a capacidade intelectual de um homem que simplesmente decidiu deixar o cabelo crescer.

Na entrevista, Dino começou por explicar que a produção de”Careca Não” reuniu uma série de profissionais que trabalharam diretamente no single e que contribuíram para o escrupuloso arranjo que a música carrega.

“Um trabalho de equipa que durante sete meses trabalharam de forma muito afincada, desde diretores a criadores, autores e compositores. Levou algum tempo sim, mas é porque nós estamos habituados a trabalhar desse jeito, com muita calma, com muita tranquilidade para que a música realmente se torne eterna”, disse Dino.

O artista confirma que conseguiu chamar a atenção da sociedade com o lançamento da música e pretende colocar “sobre a mesa” este assunto, que considera de um “grau de seriedade elevado”, com as entidades governamentais angolanas.

“Nós estamos a falar de aproximadamente duas mil pessoas que diariamente são impedidas de tratar de bilhetes de identidade ou passaporte, são impedidas de fazer provas e exames nas universidades, não conseguem vagas de emprego mesmo sendo muito competentes (…). É uma situação muito grave e que não pode ser olhada de forma muito superficial”, exprimiu Ferraz.

A letra e composição são de Júlio Matomina, contanto também com a produção e arranjos de Toty Samed e co-produção de Benvindo Estêvão.

“Careca não” tem um videoclipe de prender os olhos no ecrã. No material videográfico, dirigido e realizado pela Bem Bem Workz, a parte técnica conta com o guião de Sandra Mateus. Nas imagens aparecem artistas nacionais, profissionais da comunicação, entre outros cidadãos angolanos, que servem de referência para os jovens angolanos que possuem um look que “não corresponde” ao padrão pré-estabelecido pelas instituições em Angola.

Relembramos-te que a BANTUMEN disponibiliza todo o tipo de conteúdos multimédia, através de várias plataformas online. Podes ouvir os nossos podcasts através do Soundcloud, Itunes ou Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis através do nosso canal de YouTube.

Podes sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN através do email redacao@bantumen.com.

TRABALHO DE PRETO
nv-author-image

Bruno Dinis

Carrego a cultura kimbundu nas minhas veias. Angolanidade está presente a cada palavra proferida por mim. Sou apologista de que a conversa pode mudar o mundo pois a guerra surgiu também de uma. O conhecimento gera libertação e libertação gera paz mental, por tanto, não seja recluso da ignorância.