Aurora Negra: “Uma mulher negra feliz é um ato revolucionário, pois então eu sou a revolução”

“Uma mulher negra feliz, é um ato revolucionário, pois então eu sou a revolução. Uma mulher negra com fragilidades é um ato revolucionário, pois então eu sou a revolução. Uma mulher negra que se ame, é um ato revolucionário, pois então eu sou a revolução. Uma mulher negra com prazer, é um ato revolucionário, pois então eu sou a revolução.”

Estas são as palavras de ordem de Isabel Zua, Nadya Yracema e Cleo Diara – as atrizes e diretoras artísticas da peça de teatro Aurora Negra –  que ecoaram no Teatro Nacional Dona Maria II, em Lisboa, na sua segunda apresentação em cartaz e que está esta semana em exibição no Festival de Teatro de Almada, até ao dia 5 de julho.

Uma história que faz parte do registo de milhões de vidas – que nunca é contada por nós – e em que o corpo de várias mulheres negras nos conduz entre a ancestralidade, o amor próprio, a aceitação, até agora.

Soube da peça em setembro de 2020 quando as três brilhantes e pujantes atrizes subiram ao palco com Aurora Negra. A sala estúdio do Nacional foi o espaço escolhido para, durante uma hora e meia, haver lugar para rir, chorar, xinguilar [mexer o corpo] e principalmente refletir.

Uma reflexão que a autoria, pesquisa, sonoridade e liberdade de Zua, Yracema, Diara e toda a equipa da Aurora, coloca o teatro em Portugal num patamar de excelência que é preciso conhecer. A ilustração do dia a dia, a que nos habituaram como narrativa, não estava contemplada em todos os espaços onde mulheres como nós devem estar e equipas multidisciplinares se devem cruzar e ensinar como se faz.

Sempre de sala cheia, vários encores e uma longa a história que se cruza na interseccionalidade e ancestralidade de três mulheres, é-nos apresentada uma Aurora que, das mais diferentes interpretações, senti como um nascer do Sol.

Nesse nascer encontro um diálogo entre estas mulheres que nos explicam que a nossa ancestralidade é o nosso bem mais precioso e que com ela vem o questionamento de se o mundo ocidental está preparado para ela.

Nessa viagem deparei-me, também, com a minha própria vida, em tempo e em espaço, e consegui colocar-me nos locais de invisibilidade ou o excesso visível dos olhos, das ações e da ignorância perante uma mulher negra ou racializada.

Não vos posso contar a peça porque é importante ir ver. É importante também que esta lição seja partilhada em escolas a começar pelo corpo docente, em empresas – principalmente as de comunicação social e todas as que não entendem o verdadeiro sentido de representatividade – abrangendo também todo o ecossistema em que a ignorância, repito, ignorância, é desculpa para tudo.

Mas já não é.

E estou, até hoje, siderada com a forma em que renasci ao sair da peça de teatro do ano, para mim. Uma narrativa honesta das relações com África e connosco, as mulheres africanas e europeias muito orgulhosas das suas raízes e a quem é exigido o dobro e o triplo para que essa aceitação seja validada por agentes que só terão um caminho – a mudança de comportamento e a reeducação para um mundo mais humanizado em que cabemos todxs.

Esse mesmo em que a criação artística é livre de preconceitos e está ali aos nossos olhos. Basta escutar. Parar.

Essa foi a proposta que senti nas conversas com a “Dona Maria”, essa figura que representa tantas Marias e Maneis e que ilustra nada mais do que uma sociedade que não consegue apenas aceitar que tudo mudou e que sempre estivemos cá. Que somos herança das nossas mães e das nossas antepassadas com o propósito que nos define: a força interior.  

Tenho de agradecer à Inês Vaz, Maria Tsukamoto e Bruno Huca, em especial, por embarcarem com estas forças da natureza e nutro o máximo respeito por esta equipa que nos coloca em catarse durante o tempo inteiro.

Isso sim, é arte.

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Magda Burity

Comunicadora nata, ativista e antiracista Magda Burity soube, desde cedo, que queria ser jornalista. Com carreira em Moçambique e Angola, é em Portugal que tem desenvolvido os mais recentes projetos dedicados ao Media Coach, digital e empreendedorismo. País onde nasceu e regressou há 4 anos depois de 15 anos em África.