Feira Gráfica de Lisboa | DR

Artistas unem-se para denunciar censura e racismo na Feira Gráfica de Lisboa

Depois de um episódio de clara censura de um discurso e crítica do sociólogo e artista Rodrigo Ribeiro Saturnino na edição da Feira Gráfica de 2020, artistas decidem demitir-se da edição de 2021 do evento, como forma de protesto e denúncia.

O apelo surge através da AFROntosas, uma plataforma de encontros de pessoas da comunidade negra, que misturam artes performativas e conversas relacionadas com o universo da negritude queer em Portugal. Na página Medium do coletivo, podemos ler que “esta é uma declaração pública para a chamada de uma resposta colectiva contra os actos de racismo e censura cometidos pela equipa curatorial da Feira Gráfica, sob o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, em Outubro de 2020.”

O texto explica que no dia 4 de outubro de 2020, “o sociólogo e artista Rodrigo Ribeiro Saturnino participou, a convite da organização da Feira Gráfica de Lisboa, numa conversa online sobre o tema: “Activismo Gráfico — O território da edição como espaço de afirmação da(s) identidade(s)” e que “nos últimos 15 minutos da conversa, Rodrigo Saturnino aproveitou o tema e a presença dos artistas João Pedro Vale e Nuno Alexandre para perguntar sobre o processo de produção de uma obra recente da sua autoria que era uma imagem que representava apenas homens brancos, magros e cis-género, dentro do padrão hegemónico. Durante o debate, foram feitas notas sobre os modos de produção da arte europeia que insistem em manter um estado de repetição e de reprodução da hegemonia tanto no que diz respeito aos corpos estandardizados como às questões raciais”.

Na mesma conversa participaram via zoom André Teodósio, João Pedro Vale, Nuno Alexandre Ferreira, Sílvia Prudêncio, Xavier Almeida, Filipa Valadares e Cecil Silveira (editor no Gato da Bota e ex-Sapata Press).

No dia 5 de outubro, os organizadores da sessão chamaram Rodrigo para informar que três dos artistas, nomeadamente André Teodósio, João Pedro Vale e Nuno Alexandre, pediram à organização que retirasse as suas imagens e discursos do vídeo porque consideravam a intervenção “ofensiva”.

A organização terá agido conforme, tendo censurado a imagem e as respostas de Saturnino. “Um ecrã negro é colocado no lugar da interacção e o áudio fica mudo ao longo de vários minutos onde os participantes ocultados tinham previamente respondido. Rodrigo fala sozinho. Ele interage virtualmente com o silêncio de um ecrã negro. Um ecrã de censura. Depois disso, mais de 30 minutos do vídeo original foram apagados”.

No artigo publicado no Medium pelas AFROntosas, há ainda um comentário onde Ana Menta, membro do coletivo artístico Estrela Decadente, que confirma o episódio de censura. “A Estrela Decadente, convidada a fazer uma apresentação na feira gráfica 2020, ficou indignada com o tratamento dado ao Rodrigo e a todos os eventos subsequentes, pelo que decidimos colectivamente no dia da nossa apresentação online, ao invés de apresentar a revista como era suposto, colocar em directo uma mensagem que dizia que nos remetíamos ao silêncio, em solidariedade pelo silenciamento do Rodrigo.”

Ainda de acordo com a AFROntosas, tanto a Feira Gráfica de Lisboa como a Câmara Municipal de Lisboa não se posicionaram sobre o assunto, nem tentaram um “entendimento para entrar num processo de responsabilização e desenvolver uma prática equitativa em resposta aos actos de racismo e censura cometidos pela equipa da curadoria do ano interior”.

Ao apelo à demissão responderam até agora Cecil Silveira, membro da equipa curatorial, e Vitor Sanches – fundador da marca Bazofo Dentu Zona -, que deveria participar no certame deste ano.

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TRABALHO DE PRETO
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Vanessa Sanches

Escrevo aqui e ali. Gosto de estórias que marcam histórias. Sou de Portugal, com veia cabo-verdiana, dois pés em Angola e coração em França. Africanidade, estilos de vida e música são os temas que me prendem a atenção, mas gosto de me distrair com politiquices e bizarrices.