Spike Lee no Festival de Cinema de Cannes, 2021 | DR

Spike Lee eleva a luta contra o racismo no Festival de Cannes

Abram alas, Spike Lee vai passar. Nomeado presidente do júri do Festival de Cinema de Cannes deste ano, até ao dia 17 de julho o ativista, escritor, ator e realizador de cinema vai ser notícia, pelo menos assim esperamos, não fosse ele conhecido por não ter papas na língua e apontar o dedo ao que está errado. E assim foi nesta terça-feira, dia da cerimónia de abertura do evento – que Lee promete fazer de altifalante da luta contra o racismo.

A 74ª edição do evento começou com o realizador a discursar sobre a necessidade de se “levantar a voz” contra Donal Trump, Vladimir Putin e Jair Bolsonaro, os gangsters que controlam o mundo.

“O mundo está a ser governado por gangsteres. O Agente Laranja [Trump], o gajo do Brasil [Bolsonaro] e Putin são gângsteres e vão fazer o que quiserem. Não têm moral ou escrúpulos, esse é o mundo em que vivemos, e precisamos levantar a voz contra gangsteres como estes”, disse Spike Lee enquanto exibia um chapéu com o número 1619, em referência ao ano da chegada das primeiras pessoas negras escravizadas aos Estados Unidos da América.

Após as conferências de imprensa e sessões de fotos, o júri, exclusivamente feminino – composto pela atriz Maggie Gyllenhaal, pela cantora Mylene Farmer e pelas realizadoras Jessica Hausner, Mati Diop e Mélanie Laurent – e o seu presidente subiram os famosos degraus vermelhos pela primeira vez.

A exibição do filme Annette, de Leos Carax com Marion Cotillard e Adam Driver abriu a seleção oficial de 2021.

Com um historial de mais de trinta anos a lutar por mais diversidade no mundo do cinema, Spike Lee, 64 anos, é o primeiro cineasta negro a presidir o júri do Festival de Cannes. Aos 29 anos, o artista e ativista, que teve a possibilidade de estudar cinema graças ao dinheiro poupado pela avó, teve a sua primeira longa metragem, She’s Gotta Have It, premiada no renomado festival francês. Aos 33, lançou o filme Do The Right Thing, que colocou sob os holofotes a violência da polícia contra a comunidade negra em Nova Iorque nos anos 80.

Ainda no discurso de abertura, Lee falou sobre a película: “Esse filme saiu em 1989, escrevi-o em 88 e quando vês o irmão Eric Garner, o rei George Floyd, linchados, assassinados, eu penso a Radio Raheem [personagem fictícia de Do The Right Thing, cuja morte leva ao ponto alto do filme]. E pensar e esperar que depois de 30 e alguns anos depois, os negros parem de ser caçados como animais.”

De sublinhar, que além do seu ativismo pelos direitos cívicos da população negra, Spike Lee sempre advogou também pela igualdade de género, sobretudo em relação às mulheres negras. Numa entrevista em 1991, o cineasta afirmou que “a mulher negra sofre duplamente, por ser negra e por ser mulher. E a única forma de o cinema corrigir isso é investir em mais mulheres no processo criativo, mais mulheres roteiristas, produtoras, realizadoras”.

Após várias nomeações e tantas outras distinções, Lee recebeu em 2019 o Óscar de Melhor Roteiro Adaptado, por BlacKkKlansman, depois de em 2016 ter recebido a estatueta honorária por ser um campeão do filme independente e uma inspiração para jovens cineastas.

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