Kiluanji Kia Henda | ©Ivo Tavares

Kiluanji Kia Henda traça cronologia do Largo Kinaxixi em performance com Zia Soares e Odete Mosso

Kiluanji Kia Henda, artista multidisciplinar angolano de renome internacional, leva ao Porto (norte de Portugal) uma nova performance que revisita a história e cronologia do Largo Kinaxixi, em Luanda, uma das principais praças da capital de Angola e palco de várias lendas e simbolismos de origem Bantu.

Com as participações de Zia Soares e Odete Mosso, a performance está patente no Círculo Católico de Operários do Porto, desde o dia 10 de julho, no âmbito do programa Anuário 20 da Galeria Municipal do Porto.

O Largo do Kinaxixi, uma das principais praças de Luanda, foi construído sobre uma enorme lagoa durante o regime colonial. Nessa lagoa, conta a lenda dos povos de origem Bantu, vivia a Kianda, a Deusa das águas. Este ser mitológico, filha de Nzambi (Deus criador), similar a Yemoja na tradição Yoruba, e Yemanjá nas Américas, é então aterrado juntamente com a lagoa, para dar lugar a edifícios coloniais. Pode dizer-se que os povos Bantus, emigrados desde a África de Leste, foram os primeiros conquistadores da região, tendo expulsado os povos originários nómadas para o sul, para perto do deserto. Kiluanji Kia Henda, interessando-se pelo elevado simbolismo do Largo, parte dessa primeira ocupação do espaço para delinear o seu percurso que acompanha quase 400 anos de história.

Durante uma residência no INSTITUTO (Porto), em outubro de 2020, Kiluanji Kia Henda desenvolveu a maquete da instalação. Um retângulo vermelho de luz no chão definia então o espaço, que contém cinco figuras, cada uma representando um dos cinco momentos da cronologia do Largo.

Estes cinco monumentos, agora representados na obra, mostram não só as transformações profundas que aconteceram em Angola, mas também uma flexibilidade notável para expressar essas mudanças no espaço público. Para o artista, deveria ser sempre possível alterar monumentos desde que correspondam às paixões e crenças que determinam a época em que vivemos. Esta ideia é contrária à forma como o espaço público é apropriado e instrumentalizado para a perpetuação de narrativas de poder, apesar de muitas vezes legitimar e celebrar figuras, que em diversos casos representam um atentado a liberdades e valores humanos que dizemos defender.

Kiluanji Kia Henda foi também convidado para apresentar a performance em colaboração com o artista e músico Satch Hoyt, por ocasião do 50.º aniversário do Festival Internacional de Cinema de Roterdão (IFFR), mas devido ao contexto pandémico o evento foi adiado.

TRABALHO DE PRETO
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