Miguel de Barros
Foto: Gabrielly Pereira

Estratégia economicista foi “má opção” e modelo de mobilidade é “classista”- Miguel de Barros

O sociólogo guineense Miguel de Barros considerou que a estratégia economicista adotada pela Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) foi uma “má opção” e o modelo de mobilidade, que poderá ser adotado, em Luanda, é algo “classista”.

Numa análise à agência Lusa sobre os 25 anos de criação da CPLP, Miguel de Barros salientou que a criação da comunidade permitiu gerar uma “outra dinâmica” de produção económica, cultural e científica e dar protagonismo internacional à diplomacia dos estados-membros, “mas isso não foi acompanhado por um desenvolvimento institucional que pudesse salvaguardar a efetiva presença da CPLP, quer nos estados-membros, quer a nível global”.

Para o sociólogo, a “CPLP optou por uma estratégia mais economicista, do que propriamente uma estratégia de cidadania que pudesse permitir o empoderamento da comunidade”.

“Essa estratégia economicista foi baseada no alargamento da comunidade a outros países, mas em função de recursos que pudessem dar um peso económico e a partir desse peso económico a nível internacional ter peso político. Acho que foi uma má opção”, sublinhou.

O sociólogo guineense referia-se à geopolítica do petróleo, salientando que essa expansão “não correspondeu aos desafios do ponto de vista da cidadania, a melhoria da democracia nos estados-membros”.

“Temos o hoje Brasil numa situação muito crítica, sem capacidade de influência da CPLP, temos a Guiné-Bissau numa situação muito crítica, sem capacidade de influência da CPLP, temos Angola numa situação também muito crítica do ponto de vista económico, sem capacidade de influência da CPLP, São Tomé idem, Cabo Verde é um dos países mais endividados de África”, disse.

“Não se vê, depois, como é que essa estratégia económica também permite injetar capitais de modo a que o setor público e privado tivessem capacidade de influenciar as transformações económicas desejáveis, criação de bem-estar”, afirmou Miguel de Barros.

Para o sociólogo, o “mais crítico da ação da CPLP é sobretudo aceitar que além de ser uma comunidade afetiva é uma comunidade linguística”.

Lembrando que a CPLP ainda tem países onde os falantes de português ainda não são a maioria da população, Miguel de Barros disse que ainda não se vê a língua como património capaz de “permitir maior fluidez e capacidade de produção de conhecimento, de promoção de investimento e de promoção criativa”.

“Quando se vê o orçamento do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, quando se vê a estrutura e a sua amplitude e impacto ao nível do estados-membros vemos que há um trabalho enorme a fazer porque este projeto ainda não foi assumido como um desafio prioritário”, afirmou.

Questionado sobre o acordo de mobilidade que deverá ser aprovado durante a cimeira de chefes de Estado e de Governo, a decorrer em Luanda, a 16 e 17 de julho, Miguel de Barros disse que é “muito limitado” e “classista”.

“Creio que a CPLP tinha uma oportunidade histórica de fazer dessa configuração não uma fraqueza, mas sobretudo uma força, para trazer uma perspetiva de como se pode criar uma integração e ao mesmo a possibilidade de gerar igualdade e inclusão na própria mobilidade”, afirmou.

Mas, para o sociólogo, o elemento mais crítico é a estratégia ser “classista” e abranger apenas os decisores políticos, os empresários, os estudantes e os artistas.

“E as pessoas que não estão nesta categoria e que são produtoras de economia. Hoje, a maioria mobilidade entre a Guiné-Bissau e Cabo Verde não é feito no quadro diplomático, nem cientifico, nem artístico, é feito por atores e atrizes da economia real, da economia não formal e que dinamizam a vida económica dos dois países e de toda a comunidade”, salientou.

“Essas pessoas não têm direito ao estatuto de cidadão da CPLP ? Essas pessoas não têm direito a sair de Moçambique para a Guiné-Bissau sem visto? O que difere na condição dessas categorias? É o seu estatuto perante o acesso a determinado nível de burocracia? Então se é isso a comunidade não é para todos”, questionou e afirmou o sociólogo.

“Não acredito que o modelo permita salvaguardar direitos e garantias e igualdade de todos, mas também que possa gerar o impacto mais desejado em termos de capacidade de transformação nas nossas sociedades”, concluiu.

Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste são os nove Estados-membros da CPLP.

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