Costuma-se dizer que “quando a vida dá limões, que se faça uma limonada” e se a vida não der nada, o que fazer? Continuar a vivê-la ou apenas desistir? É uma decisão que não é tomada de ânimo leve, é necessário ter força e coragem. Duas palavras que definem a vida de Alfonso Mendoza.

Há 25 anos nasceu na Venezuela Alfonso Mendoza, sem pernas e sem os seus pais que o abandonaram logo cedo. De acordo com vários psicólogos e estudos, o suicídio é “normal” como forma de resolução de problemas. E para Afonso seria uma solução, mas felizmente não se concretizou, dias melhores estavam por chegar.

“foi difícil por causa da guerrilha e da guarda nacional venezuelana; é uma jornada muito difícil”.

Foto: Raul Arboleda
Alfonso Mendoza | Foto: Raul ARBOLEDA / AFP

Anda normalmente de transportes públicos e com o seu skate, que o acompanhou durante  a travessia da Venezuela para a Colaômbia, juntamente com a sua mulher. Alfonso, numa entrevista à AFP (Agence France Presse), confessou que “foi difícil por causa da guerrilha e da guarda nacional venezuelana, é uma jornada muito difícil”.

Pôs a cadeira de rodas de lado e passou a usar o skate como uma extensão do seu corpo. Os rolamentos do skate já não estão em óptimo estado, o ferro está enferrujado e as rodas rangem na madeira sobre o caminho esburacado das ruas por onde passa, tornado o caminho incongruente.

“Alca”, como prefere ser chamado, tem um dia bastante ocupado e cheio de interações com as pessoas com quem se cruza diariamente. A primeira paragem é dentro do autocarro, ao pescoço leva uma “caixa” de som e na mão um microfone, segura-se há um corrimão e faz o seu rap.

E para espanto de todos os pasageiros, Alca não deixa de recolher as gorjetas que ganha pelo corredor do autocarro adentro. Mesmo sem pés, pega no seu skate e recolhe a sua gorjeta uma por uma.

Alfonso Mendoza | Foto: Raul ARBOLEDA / AFP
Alfonso Mendoza | Foto: Raul ARBOLEDA / AFP

Alfonso ganha por dia 30.000 pesos (moeda colombiana) que convertendo para moeda americana, são pelo menos 10 dólares, o salário mensal na Venezuela é de apenas 30 dólares. A mobilidade proporcionada pelo skate permite que ele se mova com mais rapidez e facilidade do que a maioria das pessoas fisicamente capazes em Barranquilla, o porto colombiano que se tornou seu lar adotivo.

No mês passado, Alfonso Mendoza foi pai, um novo desafio o esperava. Cuidar da sua filha Auralys. Mileidy Pena, a sua esposa diz que “apesar de sua deficiência, ele é muito mais completo do que outros pais, já que temos tudo o que precisamos, ele sempre esteve lá para nós”.

“As crianças costumavam colocar-me nos cestos de lixo ou trancavam-me nas casas de banho”

Em criança, após o abandono pelos próprios pais, Alfonso ficou com a sua avó que acabou por falecer quando o mesmo tinha apenas 9 anos de idade. Começou a frequentar a escola e conheceu um novo amigo, a cadeira de rodas que veio acrescido de bullying praticado pelos colegas. “As crianças costumavam colocar-me nos cestos de lixo ou trancavam-me nas casas de banho”, confessa Alfonso.

Aos 13 anos, sofreu uma depressão e o suicídio parecia ser a única solução. Mas a música foi o seu escape e também um amigo que ajudou a trocar a cadeira de rodas por um skate, salvando assim a vida do jovem adolescente.

“Eu teria mais vergonha se eu chegasse a casa um dia e minha esposa dissesse que não há fraldas ou roupas para minha filha”

De forma humilde, Alfonso vendia rifas e artesanato nas ruas. Foi aí que percebeu que poderia vir a ganhar mais dinheiro dentro dos transportes públicos. “Eu não tenho vergonha de cantar dentro dos autocarros. Eu teria mais vergonha se eu chegasse a casa um dia e minha esposa dissesse que não há fraldas ou roupas para minha filha. Acredito que minha vida mudou muito agora em relação às responsabilidades.”

Alca para além de andar de skate, sempre que pode, faz surf. O mar é um dos lugares onde pode ultrapassar obstáculos, “hoje eu posso ver como uma onda é uma barreira que eu posso romper com a minha prancha”, disse ele.

Com o tempo foi descobrindo o que gostava de fazer, as barreiras que quebrou e como podia ajudar os outros com o seu positivismo, foi quando conheceu o discurso motivacional. Numa escola particular, Alfonso fala para quem o quer o ouvir. Dá aulas motivacionais para crianças e professores.

Alfonso Mendoza | Foto: Raul ARBOLEDA / AFP
Alfonso Mendoza | Foto: Raul ARBOLEDA / AFP

Atrás de Alca está um powerpoint com o seu mantra “acredita em ti mesmo”, e é isso mesmo que ele quer passar aos seus ouvintes, que devem fazer a sua vida da melhor forma mas sempre com fé em si mesmos e enfrentar a vida com atitude positiva.

“Deus não me deu pernas, mas ele substituiu-as por talentos”, conclui Alfonso Mendoza.