BANTUMEN, 11 anos a escrever para não desaparecer

25 de Maio de 2026
11 anos BANTUMEN opinião
©BANTUMEN

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Quando um projeto como a BANTUMEN faz 11 anos, há sempre a tentação de começar pelos números. Quantos dias, quantos leitores, quantas visualizações, quantos seguidores, quantos cliques, quanto alcance. Vivemos num tempo em que quase tudo precisa ser traduzido em métrica para parecer relevante. Como se o valor de uma ideia dependesse da sua performance. Como se o impacto de uma história pudesse ser resumido a um gráfico. Mas há trabalhos que não se medem assim. E a BANTUMEN, para mim, é um deles. 


Prefiro olhar para estes 11 anos não como uma soma de resultados, mas como uma construção de memória. Prefiro pensar naquilo que foi sendo escrito, registado e deixado para trás como quem constrói um arquivo para o futuro. Porque, no fim, talvez a pergunta mais importante não seja quantas pessoas nos leram, mas o que é que ajudámos a fixar no tempo. O que é que contámos. O que é que recusámos deixar cair no esquecimento. O que é que passará às próximas gerações porque alguém decidiu escrever.


Sempre fui um rapaz fascinado por histórias. Das fábulas bíblicas à Revolução Francesa, de Mansa Musa às lutas dos movimentos independentistas africanos e afro-caribenhos. Foi aí, em boa parte, que nasceu o meu amor pela escrita: na percepção de que a história nunca é apenas o que aconteceu. A história também é quem escolhe contá-la, como a conta e quem deixa de fora.


Talvez por isso me tenha tornado impossível olhar para o mundo sem pensar nessa disputa. Há factos que nos ensinam isso com violência. Países independentes que continuaram durante anos presos a estruturas herdadas do colonialismo. Símbolos nacionais que mudaram porque houve coragem política para romper com o passado. Figuras apagadas da narrativa dominante, mesmo quando estiveram no centro dos acontecimentos. Durante demasiado tempo, habituámo-nos a receber versões incompletas da história e, pior ainda, a tratá-las como definitivas.


A BANTUMEN entra exatamente aí.


O seu valor nunca esteve apenas em publicar entrevistas, perfis, reportagens ou opiniões. O seu valor esteve, e continua a estar, na insistência em contar o mundo a partir de um lugar que durante muito tempo foi lido de fora, traduzido por outros, filtrado por olhares alheios ou reduzido a tendência, folclore ou excepção. A BANTUMEN ajudou a afirmar que as culturas negras, africanas e diaspóricas de língua portuguesa não são nota de rodapé. São centro, pensamento, produção estética, crítica, linguagem e arquivo vivo. E isso, por si só, já é uma forma de intervenção.


Não fomos os primeiros a perceber essa urgência. Antes de nós, já havia quem soubesse que escrever era também disputar dignidade. O jornal O Negro, fundado em Lisboa em 1911, é uma dessas provas. Num contexto infinitamente mais hostil, já existia a consciência de que era preciso criar espaço para que negros e africanos falassem em nome próprio, pensassem em nome próprio, publicassem em nome próprio. Lembrar isso é importante por duas razões: para não fingirmos que começámos tudo do zero e para percebermos que fazemos parte de uma linha mais longa, mais difícil e mais corajosa do que muitas vezes reconhecemos.


Mais de cem anos depois, continuamos a lidar, de outras formas, com o mesmo problema de fundo: quem tem o poder de nomear, enquadrar e legitimar a experiência dos outros.


É por isso que, quando penso nos 11 anos da BANTUMEN, não penso apenas em percurso e sim em responsabilidade. Penso no que fica, em quais entrevistas, crónicas, perfis e reportagens continuarão a servir de matéria para compreender este tempo. Penso no que poderá ser lido daqui a 20 ou 30 anos para perceber como se pensava, como se criava, como se resistia, como se vivia neste tempo negro, urbano, lusófono, digital e profundamente desigual.


Hoje, o arquivo já não é apenas uma estante, uma biblioteca ou uma coleção de jornais velhos. O arquivo também são motores de busca, bases de dados, plataformas, scraping, inteligência artificial, sistemas treinados para responder com base naquilo que já foi escrito. E isso torna a nossa tarefa ainda mais séria. Se não escrevermos nós, alguém escreverá por nós. Se não nomearmos o nosso tempo, ele será nomeado a partir de fora. E quem conhece a história sabe sempre o preço dessa ausência.


A BANTUMEN nunca existiu para dividir. Existiu para somar presença, espessura e verdade ao espaço público. Para contrariar apagamentos. Para ampliar vozes. Para mostrar que contar histórias negras não é um gesto identitário menor nem uma agenda paralela: é uma forma de corrigir a pobreza da narrativa dominante.


Num mundo cada vez mais guiado por números, automatismos, slogans, polarização e rentabilidade, talvez essa seja uma das tarefas mais importantes que ainda podemos assumir: deixar registo. Escrever com consciência. Contar com rigor. Guardar aquilo que o presente, por distração ou conveniência, insiste em tratar como periférico.


Celebrar 11 anos de BANTUMEN é celebrar isso. É celebrar a persistência de uma necessidade. 


Se daqui a muitos anos alguém quiser perceber quem fomos, como pensámos e o que estivemos a tentar dizer sobre o nosso tempo, espero que encontre a BANTUMEN pelo caminho.


Porque há projetos que não servem apenas para informar. Servem para garantir que, quando a história for contada, nós já lá estejamos.

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