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Há muitos anos que caminho por Barcelona e, quase sem dar por isso, aprendi a medir o tempo pela Sagrada Família. O que mais me impressiona nela é a relação que os habitantes da cidade desenvolveram com a basílica: durante mais de um século, Barcelona aprendeu a amar uma obra inacabada.
A cidade conviveu com as suas gruas, os seus andaimes, o seu pó, as suas demoras. Gerações passaram diante dela sem a ver terminada. Crianças cresceram, envelheceram, partiram; famílias mudaram de casa; amores começaram e acabaram; ruas transformaram-se. E, no entanto, a basílica continuou ali, sempre incompleta e sempre reconhecível.
Talvez seja essa a lição que raramente aceitamos em nós. Vivemos como se a vida tivesse de chegar a uma forma definitiva. Esperamos de nós uma arquitetura limpa, sem fendas, nem partes por restaurar.
Vivemos numa cultura que nos pede versões finais. Espera-se que cheguemos aos lugares certos com a voz firme, a biografia alinhada, a carreira coerente, a identidade resolvida. Entramos numa nova função e sentimos que já deveríamos dominar tudo. Começamos um projeto e queremos parecer seguros antes mesmo de compreender o terreno. Somos convidados a falar e procuramos dentro de nós uma autoridade sem falhas, como se só tivéssemos direito à palavra quando a dúvida desaparecesse.
Mas a vida íntima, aquela que nos define, não obedece ao calendário da eficiência. Cresce por camadas, por interrupções, por reparações sucessivas. Talvez por isso nos custe tanto admitir que ainda estamos em construção.
Temos vergonha de não ter todas as respostas e de continuar a repetir padrões que julgávamos superados. De ser pais ou mães enquanto ainda aprendemos a ser filhos. De carregar lutos que os outros já acham antigos. De descobrir, a meio da vida, que algumas certezas eram apenas paredes provisórias.
Olhamos para os outros e imaginamos que habitam casas interiores mais sólidas. Vemos a fachada: a família reunida, a viagem feliz, a decisão tranquila, a maturidade aparente. Não vemos as fissuras discretas, as noites sem sono, as conversas que não aconteceram, os pedidos de desculpa engolidos, a solidão dentro de casas cheias. Comparamos o nosso interior em reparação com a fachada iluminada dos outros e concluímos, injustamente, que somos os únicos por terminar.
Por isso, precisamos de espaços onde seja possível crescer sem fingir que já estamos prontos. Uma escola, uma equipa, uma organização ou uma comunidade não deveriam funcionar como tribunais da perfeição. Deveriam ser lugares onde se pode perguntar sem vergonha, experimentar sem humilhação, corrigir sem ser reduzido ao erro. Lugares onde a aprendizagem não seja confundida com fraqueza e onde a segurança performativa não valha mais do que a coragem real de melhorar.
A Sagrada Família recorda-nos que o inacabado também pode ser belo. Igual que nós, a basílica continua a procurar forma e aceita o tempo como parte inevitável da nossa trajetória. Talvez a nossa existência também seja menos parecida com uma obra entregue e mais próxima de uma construção atravessada por gerações interiores. Em nós vivem a criança que fomos, o adulto que tentamos ser, os medos que herdámos, as escolhas que fizemos, as perdas que nos moldaram, os sonhos que ainda não encontraram lugar. Não somos uma unidade perfeita. Somos uma convivência. E amadurecer talvez seja aprender a não expulsar nenhuma dessas partes.
A Sagrada Família passou mais de um século a ensinar isso em silêncio. Cercada de andaimes, continuou a tocar o céu. Inacabada e imperfeita, continuou a receber olhares e admiração.
Superar o receio de dar o próximo passo ou de partilhar o que pensamos não exige uma autoconfiança artificial ou um percurso blindado. Exige a aceitação serena de que a vida se faz em etapas. O nosso valor não depende de alcançarmos uma perfeição intocável, mas sim da determinação com que assumimos o nosso lugar no presente, com todas as nossas frentes de obra em curso. No final, o que nos define não é sermos uma estrutura terminada, mas sim a audácia de continuar a crescer através dos dias.
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