A cultura que sustenta o olhar

15 de Abril de 2026
A cultura que sustenta o olhar opinião
©BANTUMEN

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Visitei recentemente a exposição Belas Artes, de Bruno Zhu, em exibição na Fundação Calouste Gulbenkian, uma proposta visualmente estimulante que interroga, de forma direta, a própria prática museológica, a partir de uma paleta de cores intencionalmente chamativa.


Entrei no espaço com curiosidade e alguma contenção, sem saber ao certo o que me esperava. Gosto de visitar exposições porque me obrigam, invariavelmente, a olhar para dentro. Durante muito tempo, não pensei na arte como algo capaz de questionar ou desmistificar. Hoje, percebo que até o gesto mais simples pode carregar múltiplos significados, consoante a forma como nos colocamos perante ele.


Logo na primeira sala, denominada "sala de época,  algo me despertou. Um dos quadros estava pendurado na vertical, obrigando o visitante a inclinar o corpo e o olhar. Não procurava apenas observar; tentava ajustar-me à obra. Nela, via-se um cavalo, uma mulher suspensa numa forca, vestida com um fato, e, em contraste, uma figura sobre um cavalo alado. Fiquei presa àquela imagem, sem conseguir decifrar com exatidão o que significava. Ainda assim, não resisti a tentar: talvez aquela figura no cavalo fosse uma outra versão da mulher na forca - uma versão liberta, distante das amarras que a reduzem a algo menor.


Na segunda sala, intitulada "sala dos bustos", cinco figuras de diferentes áreas profissionais surgem alinhadas, uma atrás da outra. O que mais me chamou à atenção não foi quem estava presente, mas quem faltava: nenhuma mulher. Essa ausência não pareceu inocente. Fez-me pensar na forma como, em diferentes domínios, o reconhecimento continua a inclinar-se para o masculino, e a arte não é exceção. Se nos pedirem nomes de artistas, quantos homens nos vêm imediatamente à cabeça? Num mundo onde existem figuras como Frida Kahlo, Paula Rego ou Sophia de Mello Breyner Andresen, ainda assim hesitamos. E talvez o mais inquietante seja precisamente isso: perceber que, mesmo conscientes dessa desigualdade, também nós a reproduzimos sem dar conta. Conhecendo um pouco da problemática que levou Bruno Zhu a desenvolver esta exposição, faz sentido interrogar: quantas mulheres foram excluídas da história da arte e tiveram menos visibilidade do que os seus pares masculinos? Que estruturas continuam, ainda hoje, a decidir o que merece ser reconhecido?


Foi, contudo, na sala das vitrinas que mais me detive. Um dos primeiros detalhes que me chamou à atenção foi o facto de os manequins estarem despidos. No Museu Nacional do Traje, estamos habituados a vê-los vestidos, quase como suportes invisíveis da roupa. No Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, ao estarem nus, deixavam de ser secundários: era impossível não olhar para eles. Isso fez-me pensar na facilidade com que ignoramos aquilo que sustenta o que vemos. Valorizamos o que está em destaque, o produto final, mas raramente pensamos em quem o torna possível. Tal como aqueles manequins, há sempre alguém que sustenta o visível, mas que raramente recebe reconhecimento.


Ao mesmo tempo, entre figuras aparentemente mais novas e mais velhas, sentia-se uma espécie de hierarquia, algo que me recordou a relação entre pais e filhos, marcada por uma autoridade raramente questionada. Talvez seja isso o que mais me ficou desta sala: a ideia de que o olhar também aprende a obedecer.


Na sala das cores, o espaço organizava-se a partir do amarelo, do vermelho, do verde e do azul, com três quadros associados sobretudo ao vermelho, ao azul e ao amarelo. Mais do que a dimensão estética, ficou-me a perceção de como algo tão aparentemente simples como a cor pode ser usado para estruturar a forma como olhamos e interpretamos o que está à nossa frente, mesmo sem nos apercebermos disso.


Ao longo de toda a exposição, fui identificando um padrão: pequenas escolhas visuais que, à primeira vista, parecem apenas formais, mas que acabam por revelar relações de poder, de estética e de hierarquia. Nada ali parece neutro, nem a forma como se mostra, nem o que se escolhe mostrar.


Saí com a sensação de não ter só visitado uma exposição, mas de ter percorrido diferentes formas de organizar o olhar. E talvez seja isso o que mais fica: ver nunca é um ato neutro, é sempre uma forma de interpretar o mundo.

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