Mina Andala pode chegar aos Óscares com “A Memória do Cheiro das Coisas”

16 de Setembro de 2026
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A Academia Portuguesa de Cinema anunciou esta terça-feira, 15 de setembro, que A Memória do Cheiro das Coisas, de António Ferreira, foi a obra escolhida para representar Portugal na corrida à nomeação de Melhor Filme Internacional na 99.ª edição dos Óscares. O anúncio surge depois de o filme ter estado em votação nas últimas semanas entre os membros da Academia, a par de "18 Buracos para o Paraíso", de João Nuno Pinto, "Maria Vitória", de Mário Patrocínio, "Primeira Pessoa do Plural", de Sandro Aguilar, "Projeto Global", de Ivo M. Ferreira, e "Terra Vil", de Luís Campos. "A Academia Portuguesa de Cinema felicita António Ferreira, a produtora, toda a equipa artística e técnica e os restantes profissionais envolvidos na realização de A Memória do Cheiro das Coisas, desejando-lhes o maior sucesso nesta nova etapa do percurso do filme", lê-se no comunicado da instituição.


Realizado por António Ferreira, o filme acompanha Arménio, interpretado por José Martins, que, à beira de completar 80 anos, passa a viver num lar, contrariado por ser tratado como os restantes utentes idosos e incapaz de aceitar o apoio de Hermínia, a auxiliar negra interpretada por Mina Andala. É nela que Arménio descarrega o preconceito e o racismo, ao mesmo tempo que revive, em pesadelos, o tempo em que combateu na Guerra Colonial em África. Ferreira contou à Lusa, antes da estreia, que quis fazer um filme sobre o envelhecimento - "esse momento irreversível do fim da vida" - e, em simultâneo, sobre o que ainda subsiste na sociedade portuguesa décadas depois do fim da guerra nos territórios colonizados. Os militares portugueses, disse, "tiveram uma lavagem cerebral para ver o negro como inimigo. Quando a guerra acaba, o país tem uma revolução e ninguém explicou nada a estes homens o que foi aquilo que lhes foi metido na cabeça, nunca ninguém desmontou essas ideias e esses preconceitos que perduram ao longo de décadas". Nascido em 1970, o realizador fez pesquisa junto de ex-combatentes e de psicólogos, e partiu também da sua experiência pessoal enquanto filho de um homem com marcas de guerra.



Mina Andala em "A Memória do Cheiro das Coisas"


Mina Andala venceu, em janeiro, o prémio de Melhor Atriz nos Prémios CinEuphoria pela interpretação de Hermínia, uma distinção que descreveu à BANTUMEN como simbólica "não apenas enquanto atriz, mas enquanto mulher negra e artista portuguesa", resumindo o filme como "uma voz clara de uma nação que procura perceber-se". Notou ainda que o cinema português costuma abordar o passado colonial quase exclusivamente pelo prisma bélico, sem acompanhar os seus efeitos prolongados no presente - "ainda há corpos a cair", frisou. O mesmo papel valeu-lhe depois uma nomeação a Melhor Atriz Protagonista nos Prémios Sophia, atribuídos pela própria Academia Portuguesa de Cinema. Nessa edição dos Sophia, A Memória do Cheiro das Coisas reuniu oito nomeações no total - entre Melhor Filme, Melhor Realização, Melhor Argumento Original, Melhor Banda Sonora Original, Melhor Montagem e Melhor Som -, com José Martins a vencer Melhor Ator Protagonista. Nascida a 16 de abril de 1979, Andala soma mais de duas décadas de carreira entre a televisão e o cinema, com papéis anteriores em "Yvone Kane" (2017), de Margarida Cardoso, "Fundação" (2021) e "Surface" (2022).


A Memória do Cheiro das Coisas é a quinta longa-metragem de Ferreira, depois de "A Bela América" (2023), "Pedro e Inês" (2018), "Embargo" (2010) e "Esquece Tudo o que Te Disse" (2002). Coproduzido por Portugal e Brasil através da Persona Non Grata Pictures e da Muiraquitã Filmes, chegou às salas portuguesas em novembro de 2025. José Martins venceu o prémio de melhor ator no Festival de Cinema de Xangai e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo; o argumento, coescrito por Ferreira e Tiago Cravidão, venceu o prémio de melhor argumento no festival de cinema de Tânger, em Marrocos. O filme soma ainda duas nomeações à 30.ª edição dos Globos de Ouro portugueses, Melhor Filme e Melhor Ator para José Martins, numa cerimónia agendada para 26 de setembro, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.


A seleção pela Academia Portuguesa de Cinema é apenas o primeiro passo de um processo mais longo. Portugal nunca obteve, até hoje, uma nomeação na categoria de Melhor Filme Internacional; o reconhecimento mais recente da Academia de Hollywood ao cinema português foi em 2023, na categoria de Curta-metragem de Animação, com "Ice Merchants", de João Gonzalez. O calendário da 99.ª edição dos Óscares prevê a divulgação da shortlist de Melhor Filme Internacional a 15 de dezembro, os nomeados a 21 de janeiro de 2027 e a cerimónia final a 14 de março de 2027, no Dolby Theatre, em Hollywood.

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