A pobreza é uma crise de saúde mental

25 de Fevereiro de 2026
A pobreza é uma crise de saúde mental opiniao ernesto boma
©Unsplash

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Como especialista em saúde mental e observador atento das engrenagens que movem - ou travam - o desenvolvimento humano na Lusofonia, recuso-me a olhar para a pobreza apenas como uma folha de Excel em défice. No contexto de África e dos países de língua portuguesa, a pobreza não é apenas ausência de capital; é uma ferida psicológica aberta, um estado de hipervigilância constante que corrói o córtex pré-frontal e aniquila a capacidade de planeamento a longo prazo.


Do ponto de vista da análise económica crua, a pobreza funciona como um “imposto cognitivo”. Quando um indivíduo em Luanda, Maputo ou nas periferias de Lisboa vive na incerteza do prato de amanhã, o seu cérebro opera em modo de sobrevivência. De acordo com estudos da Economia Comportamental, a escassez de recursos consome largura de banda mental, reduzindo o QI funcional em até 13 pontos.


Não estamos a falar de falta de vontade ou de caráter; estamos a falar de biologia económica. Um sistema que mantém populações na subsistência está, na verdade, a sabotar o seu próprio capital humano. A pobreza gera ansiedade crónica, que por sua vez conduz a decisões de risco ou ao imobilismo, alimentando um ciclo vicioso de subdesenvolvimento que o PIB, por si só, não explica.


Na nossa cultura lusófona, romantizamos perigosamente a “resiliência”. Exigimos que o cidadão africano ou o imigrante na Europa seja um herói estoico, suportando precariedade habitacional e falta de saneamento com um sorriso no rosto. Essa narrativa é uma armadilha social.


A depressão e o trauma transgeracional decorrentes do colonialismo e de guerras civis, nunca devidamente tratados, manifestam-se hoje como apatia política ou violência social. Tratar a saúde mental como um luxo reservado às elites de Luanda ou de São Paulo é um erro estratégico. A saúde mental é a infraestrutura invisível de uma nação. Sem mentes sãs, estradas e pontes construídas com crédito externo serão apenas monumentos à incapacidade de prosperar.


Para sairmos deste pântano, a abordagem deve ser sistémica e desprovida de paternalismos. É necessário integrar programas de saúde mental nos centros de saúde comunitários e nas escolas, com foco na quebra do ciclo de trauma. A ciência demonstra que garantir o básico reduz o “cortisol social”; neste contexto, políticas de proteção social não são caridade, mas investimentos na saúde cognitiva da força de trabalho. É igualmente fundamental capacitar agentes comunitários para identificar sinais de burnout social, retirando a psicologia dos consultórios de luxo e levando-a para os mercados e bairros.


A pobreza não será resolvida apenas com injeções de capital estrangeiro, mas com a restauração da dignidade e da clareza mental dos nossos povos. Enquanto a saúde mental for ignorada, a economia será sempre um motor a tentar arrancar sem óleo. É tempo de entender que uma mente desesperada não constrói um futuro sustentável. Só mentes livres da tirania da sobrevivência podem, finalmente, projetar a prosperidade que a Lusofonia merece.

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