“O que as minhas filhas vão ser amanhã passa pelo que sou hoje”, Abdel Camara

2 de Abril de 2026

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Guineense de origem, crescido em Portugal nos anos 90, residente em Londres há vários anos, Abdel Camara navega diariamente na interseção de pelo menos quatro culturas: a guineense, a cabo-verdiana da mulher Lúcia, a portuguesa com que ambos cresceram e a britânica em que as três filhas estão a crescer.


Em entrevista à BANTUMEN, o coach de alta performance fala sobre ser pai entre culturas, identidade na diáspora e espiritualidade além da religião. A conversa começa justamente pela parentalidade e pelo tema que atravessa a sua geração como uma ferida não nomeada: os pais ausentes. “Muitas das coisas que nos endureceu a vida foi aquele gajo não ser um pai presente”, diz, reconhecendo o peso dessa herança. Mas a sua resposta a ela não é a do pai que tudo perdoa e nada exige. É quase o oposto: “O mundo não é fofinho. As minhas filhas não vão necessariamente crescer num ambiente em que vai sempre correr tudo bem, porque não vai.”


Abdel descreve-se como um pai strict - palavra que usa em inglês, como quem reconhece que o conceito perdeu força em português. “A minha filha mais velha pergunta-me muitas vezes porque é que eu sou tão rigoroso”, conta. A resposta que dá, a si próprio e às filhas, é que a dureza do mundo não vai desaparecer por decreto parental. Protegê-las da realidade seria, na sua leitura, uma forma de deixá-las desarmadas diante dela.

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"As minhas filhas não vão necessariamente crescer num ambiente em que vai sempre correr tudo bem, porque não vai”

Abdel Camara

abdel camara entrevista

© Nuno Silva/BANTUMEN

Ainda assim, há algo que a sua geração aprendeu a fazer diferente dos pais deles: dizer que ama. “O meu pai nunca me abraçou para dizer que me amava. Mas eu percebo hoje que ele expressava isso à sua maneira.” Com as filhas, Abdel faz as duas coisas: diz e é rigoroso. Para o empreendedor, há uma escolha consciente de não repetir o que não funcionou e de guardar o que funcionou, mesmo que com outras palavras.


As três filhas nasceram em Inglaterra. São britânicas no passaporte, africanas na alma que os pais cultivam em casa, e fluentes numa mistura de mundos que nenhuma fronteira consegue classificar. “Em casa a cultura acaba por ser o prazer na comida, na língua, nas histórias”, explica. Quando estão com os avós e restantes familiares, é então que a herança cabo-verdiana e guineense chega mais fundo, na maioria das vezes movida e alimentada pela convivência.


Mas Abdel não romantiza o processo e admite que as filhas vivem entre dois mundos em tensão permanente: em casa, são africanas com raízes portuguesas; na escola, são minoria num país maioritariamente branco. Há o momento em que chegam a casa a perguntar por que é que o “cabelo é assim”. Há a narrativa histórica ensinada na escola que, em casa, contrapõe com cuidado e firmeza: “Quando ela chega da escola com o que aprendeu sobre um rei de Inglaterra, eu digo-lhe que isso é uma versão. Vamos sentar para ouvir a outra.”


Uma das escolhas mais concretas que o casal faz é sobre os livros que existem em casa. Lúcia lidera esse trabalho e “noventa e nove por cento dos livros infantis que temos em casa têm crianças negras.” Em Inglaterra essa escolha é possível, a oferta editorial existe, mas é também um ato deliberado de contra-narrativa: a televisão e a escola já fazem o resto; em casa, o trabalho é mostrar referências que a sociedade não vai mostrar espontaneamente. Para além dos livros, há conversas regulares sobre quem são, de onde vieram, o que fizeram aqueles que se pareceram com elas. A ambição não é blindar as filhas do mundo, antes dar-lhes raízes suficientemente fundas para que o vento não as leve.

“Eu sei que vou falhar variadíssimas vezes. Mas tenho que ter a consciência de que o que elas vão ser amanhã passa, em parte, pelo que eu sou hoje”

Abdel Camara

abdel camara entrevista

© Nuno Silva/BANTUMEN

É uma convicção que conhece, também, de dentro e quando fala da filha do meio, que tem autismo, a voz ganha outro peso: é o de quem passou por algo que o transformou e ainda está a perceber o tamanho dessa transformação. “Não há muitos homens que podem dizer orgulhosamente que são pais de uma criança com autismo”, afirma. É um orgulho construído com custo e que implica uma escolha que, diz, muitos homens não fazem. Do outro lado, estava Lúcia, que como muitas mães, carregou durante algum tempo a culpa. Abdel conta que teve que ajudar a ressignificar essa narrativa: quem deveria ser a pessoa a ter uma criança com autismo? Precisamente aquela que vai saber amá-la como ela merece. A espiritualidade em que acredita oferece uma resposta que a culpa não consegue: as coisas acontecem porque têm que acontecer, e os filhos escolhem os pais.


Abdel descreve-se como alguém que cresceu a concretizar tudo o que punha na cabeça, numa relação quase linear entre a intenção e o resultado. A filha com autismo quebrou esse modelo. “Veio para me mostrar que não tenho tudo sob controlo e que não preciso de ter. O autismo, no seu core, é amor. Estas crianças trazem um sentido de união que a família precisa”, diz, sem suavizar os momentos difíceis que a criação implica.


Criado entre dois mundos religiosos - mãe católica de uma família mista português-guineense, pai muçulmano guineense -, nenhum dos dois o batizou nem o doutrinou numa fé específica e desse espaço em aberto nasceu algo que hoje chama de espiritualidade própria. “Não sou religioso. Não sigo nenhuma religião em particular”. O que segue é uma crença de que o universo é dinâmico, energético e que os encontros e os percursos têm uma lógica que só se revela quando se olha para trás. A exploração levou-o a fazer um jejum de vinte e um dias e a ler sobre o que as culturas africanas praticavam antes de qualquer religião chegar do exterior. Chegou a uma convicção que partilha sem se desculpar: “Acredito que Deus, se existe, não é branco nem homem. Para mim, Deus é mulher.”


No final, o que fica de Abdel Camara não é uma fórmula de paternidade nem um manifesto identitário. É o retrato de um homem que decidiu não herdar passivamente o que recebeu - nem o que foi bom nem o que foi difícil - e que está a tentar, com imperfeição assumida, construir algo diferente. Para ele. Para a companheira. Para as três filhas que crescem entre mundos e que, por isso mesmo, podem ser muitas coisas ao mesmo tempo. “Eu sei que vou falhar variadíssimas vezes. Mas tenho que ter a consciência de que o que elas vão ser amanhã passa, em parte, pelo que eu sou hoje.”

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