“Abismo”, de Aoaní fala sobre trauma, resistência e reconstrução

24 de Março de 2026
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Stil do filme "Abismo"

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Entre os dias 20 e 27 de março, o espaço Avenidas - Um Teatro em Cada Bairro, em Lisboa, recebe Abismo, o novo filme da criadora santomense Aoaní, integrado no conjunto de seis curtas exibidas no âmbito do projeto europeu Democracy in Action. A obra, centrada na violência sofrida pelo seu irmão gémeo, Nig d’Alva, parte de uma experiência íntima para interrogar o que acontece depois do trauma e de que forma se continua a viver após uma agressão que quase destrói uma vida.


Realizado e filmado pela própria Aoaní, Abismo “nasceu da necessidade de ligar com um momento muito traumático na minha família”, explica a autora, que sublinha que o filme não foi pensado para alimentar um lugar de vitimização, mas antes para apresentar-se como uma proposta de resistência. “Percebi que essa história devia ser contada não para perpetuar um lugar de vitimismo mas como inspiração. Uma mensagem de resiliência, resistência mesmo”, afirma.


É dessa tensão entre dor e permanência que o filme se constrói. O “abismo” a que o título alude é, nas palavras da realizadora, “mesmo o abismo da morte para onde o meu irmão quase foi”. A partir desse limite, a curta procura explorar várias noções de medo, superação e continuidade, aproximando o espectador de uma experiência profundamente pessoal. “Quis construir uma relação de intimidade entre o espectador e o filme, porque esta é uma história íntima”, refere.

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Stil do filme "Abismo"

A dimensão íntima marcou também o próprio processo de produção. Segundo Aoaní, um dos maiores desafios foi a captação de imagem e som, precisamente pela proximidade emocional do tema e pela resistência inicial de Nig d’Alva em ser filmado. “Ele não queria ser filmado e achava que eu estava a ser imensamente inconveniente”, recorda, acrescentando que, apesar de o filme poder existir sem essa presença direta, “não seria a mesma coisa”.


Pensado como uma obra de baixo orçamento, Abismo procurou traduzir essa travessia também na linguagem visual e sonora. A realizadora quis que a curta partisse de um ambiente mais frio e fechado para chegar, de forma gradual, a uma tonalidade mais aberta e luminosa. A única orientação que deu à equipa foi que o filme começasse “num tom mais gelado, frio como um inverno rigoroso” e avançasse, pouco a pouco, para um registo mais quente, acabando “num tom mais aberto, de esperança”. Esse percurso foi desenvolvido em articulação com Matondo Alexandre, responsável pelo color grading, e com Sara Marita, autora da música original.


A curta conta ainda com edição de Josiana Cardoso e com produção executiva de Joe Brewster e Michèle Stephenson, que “além de produção executiva, foram também mentores e isso fez toda a diferença.” Para a autora, o filme representa uma confirmação pessoal e artística. “Esse filme é, para mim, a confirmação de um caminho que quero seguir”, diz.


No centro de trabalho Aoaní está a ideia de que a arte é sempre uma forma de intervenção e de elaboração do real. Abismo inscreve-se nessa linha, ao transformar um trauma familiar em matéria cinematográfica sem desligá-lo das perguntas mais amplas sobre vulnerabilidade, cura e esperança. “Que sempre há esperança”, resume Aoaní, ao falar da principal mensagem do filme.


Depois da passagem pelo Avenidas, Aoaní prepara já o próximo passo com Kabeça Orí, espetáculo criado com Joyce Souza que estreia no São Luiz Teatro Municipal, em Lisboa, e sobe à Sala Mário Viegas entre 11 e 19 de abril. Partindo de um percurso ritual pela cidade e de uma reflexão sobre a presença negra, a memória colonial e os apagamentos inscritos no corpo e no espaço urbano, a peça prolonga algumas das inquietações que atravessam o seu trabalho no cinema e no teatro. Em cena, Aoaní, Joyce Souza e Emile Pereira constroem uma reflexão sobre a cabeça enquanto território físico, espiritual e político, convocando o conceito iorubá de Orí para pensar identidade, fragmentação, resistência e continuidade em contexto diaspórico.


Nascida em Lobata, São Tomé e Príncipe, Aoaní soma um percurso marcado pelo jornalismo, pela escrita, pelo teatro, pela rádio e pelo cinema. Formou-se em jornalismo no Brasil, fez mestrado em teatro em Portugal e é atualmente doutoranda em Estudos Fílmicos na Universidade de Coimbra.


Antes de aprofundar a prática artística, trabalhou durante vários anos em comunicação e imprensa, incluindo no Novo Jornal, em Angola, onde assumiu funções de editora interina de cultura e chefe de redação. Em 2023, estreou a peça autoral Limites, criada a partir das experiências da diáspora e das violências que atravessam corpos racializados. Para além do teatro, publicou a coletânea Miopia Crónica, colabora com a plataforma Buala e é uma das apresentadoras do programa Avenida Marginal, da RDP África.

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