Num mundo em guerra, poderá África ser o lugar mais seguro?

9 de Março de 2026
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Wakanda City

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Num momento em que o sistema internacional parece regressar a uma lógica de rivalidade entre grandes potências, uma parte significativa do continente africano tenta seguir um caminho diferente. A guerra na Ucrânia reconfigurou a segurança europeia, o Médio Oriente continua preso a ciclos de escalada militar e a competição estratégica entre Estados Unidos, China e Rússia intensifica-se em várias regiões do planeta.


No meio desta fragmentação geopolítica, vários governos africanos insistem numa posição relativamente consensual: África não quer voltar a ser o terreno onde as potências globais resolvem as suas disputas, ideia que tem sido repetida em diferentes fóruns diplomáticos. O antigo presidente da União Africana e presidente do Senegal, Macky Sall, resumiu-a de forma direta ao afirmar que o continente não pretende tornar-se “o terreno fértil de uma nova Guerra Fria”, defendendo antes uma África aberta a parcerias diversas e focada na estabilidade.


A postura, embora não signifique neutralidade absoluta, é uma estratégia pragmática de não-alinhamento. Em vez de escolher entre Washington, Pequim ou Moscovo, muitos governos africanos procuram manter relações simultâneas com diferentes centros de poder global. A África do Sul é um exemplo claro dessa estratégia: o país mantém relações económicas com a China, participa no grupo BRICS ao lado de Rússia, Índia e Brasil, mas continua também a cooperar com parceiros ocidentais em comércio, segurança e tecnologia.


O Senegal segue uma lógica semelhante, posicionando-se como um ator diplomático relativamente equilibrado entre diferentes parceiros internacionais. Já o Quénia tem reforçado a cooperação militar e económica com os Estados Unidos, enquanto simultaneamente aprofunda relações comerciais com a China. Esta multiplicidade de parcerias é, em muitos casos, uma tentativa deliberada de evitar a dependência estratégica de um único bloco de poder.


Mesmo em locais extremamente estratégicos, essa lógica é visível. Djibouti, um pequeno país no Corno de África, alberga bases militares de várias potências globais, incluindo Estados Unidos, China, França e Japão. A presença simultânea dessas forças demonstra como o país tenta equilibrar interesses concorrentes sem se alinhar totalmente com nenhum deles.


Ao contrário do que acontece na Europa de Leste ou no Médio Oriente, grande parte da África Subsaariana não está atualmente no centro de confrontações militares diretas entre potências nucleares. Num contexto em que o número de países envolvidos em conflitos internacionais continua a crescer e o nível global de paz tem vindo a deteriorar-se ao longo das últimas décadas, segundo o Global Peace Index, a geografia das grandes guerras permanece concentrada sobretudo noutras regiões do mundo.


No entanto, essa distância geográfica não significa isolamento real. A guerra na Ucrânia revelou de forma clara como os conflitos globais podem afetar diretamente o continente africano. Antes da invasão russa, muitos países africanos dependiam fortemente de cereais provenientes da Rússia e da Ucrânia. Em alguns casos, mais de metade das importações de trigo vinham destes dois países. No total, cerca de 32% do trigo importado por África vinha da Rússia e cerca de 12% da Ucrânia. Quando a guerra bloqueou os portos do Mar Negro e interrompeu exportações, os preços globais de alimentos e energia dispararam, e expuseram a vulnerabilidade das cadeias de abastecimento africanas.


Para países altamente dependentes de importações alimentares, como Egito, Sudão ou Somália, estas perturbações tiveram efeitos imediatos na segurança alimentar e na estabilidade económica.


Este episódio revelou um paradoxo importante: mesmo quando os conflitos não acontecem em território africano, os impactos chegam rapidamente através da economia global. Ao mesmo tempo, o continente continua a enfrentar desafios de segurança internos significativos. A região do Sahel tornou-se um dos principais focos de violência armada no mundo. Países como Mali, Burkina Faso e Níger registam níveis elevados de atividade de grupos armados ligados a organizações jihadistas. Dados de monitorização de conflitos mostram que a violência política e os ataques contra civis continuam a aumentar em várias áreas da região.


Nos últimos anos, a expansão de grupos ligados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico tem contribuído para a deterioração da segurança em partes da África Ocidental, explorando fragilidades institucionais, tensões locais e fronteiras difíceis de controlar.


A rápida urbanização do continente acrescenta outra dimensão a estas pressões: as cidades africanas estão entre as que crescem mais rapidamente no mundo e recebem milhões de novos habitantes todos os anos. Quando esse crescimento ocorre sem infraestruturas adequadas, surgem desafios sociais que podem alimentar instabilidade e criminalidade.


Por outro lado, fatores ambientais também desempenham um papel crescente na segurança regional. A escassez de água, a desertificação e a variabilidade das chuvas têm impacto direto na agricultura e no acesso a recursos naturais, aumentando tensões locais em várias zonas rurais.


A ideia de que África representa um refúgio geopolítico absoluto seria claramente exagerada. O continente enfrenta desafios complexos e continua integrado numa economia global vulnerável a choques externos. Ainda assim, num sistema internacional cada vez mais dividido entre blocos rivais, a tentativa de muitos países africanos de preservar uma margem de autonomia estratégica merece atenção. Ao resistirem à pressão para escolher lados numa rivalidade crescente entre grandes potências, vários governos africanos procuram afirmar um caminho próprio num mundo em transformação.


Se essa estratégia será suficiente para manter o continente afastado das próximas grandes confrontações globais ainda é uma questão em aberto. Mas, num cenário internacional cada vez mais polarizado, a aposta africana no não-alinhamento pode tornar-se uma das experiências diplomáticas mais relevantes da política global contemporânea.


África não consegue ficar totalmente “fora” das tensões globais. O continente está integrado na economia mundial, depende de cadeias de abastecimento externas e é alvo de competição estratégica entre potências. O objetivo realista não é isolamento, é reduzir vulnerabilidades estruturais. Isso exige escolhas políticas e económicas consistentes durante décadas. Há algumas frentes onde ações concretas hoje podem mudar o nível de autonomia do continente.


Primeiro, segurança alimentar. A maior vulnerabilidade africana exposta pela guerra na Ucrânia foi a dependência de importações de cereais e fertilizantes. O continente tem cerca de 60% das terras aráveis não cultivadas do mundo, mas continua a importar alimentos em grande escala. A prioridade estratégica deveria ser aumentar a produção regional de alimentos básicos, investir em irrigação, armazenamento e cadeias logísticas internas. Países como Nigéria, Etiópia ou Tanzânia têm potencial para abastecer regiões inteiras. Sem soberania alimentar, qualquer choque global pode transformar-se numa crise política interna.


Segundo, industrialização mínima e estratégica. Muitas economias africanas exportam matérias-primas e importam produtos transformados. Isso cria dependência estrutural. Não significa replicar o modelo industrial da Ásia de forma imediata, mas é importante desenvolver setores-chave: transformação alimentar, fertilizantes, farmacêutica básica, refinação de minerais críticos e energia. O objetivo é reduzir as importações essenciais. A República Democrática do Congo ou a Zâmbia, por exemplo, exportam minerais fundamentais para baterias, mas a maior parte do valor é capturada fora do continente.


Terceiro, comércio intra-africano. Hoje, apenas cerca de 15% do comércio africano acontece no próprio continente. Na Europa esse número ultrapassa 60%. A Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA) foi criada precisamente para alterar esse padrão. Se funcionar de facto com infraestrutura, logística e harmonização regulatória, pode reduzir a dependência excessiva de mercados externos e tornar as economias africanas mais resilientes às crises globais.


Quarto, autonomia energética. Muitos países africanos possuem grandes recursos energéticos, mas continuam dependentes de importações de combustíveis ou de eletricidade instável. Investimentos em energia solar, hidroelétrica, gás e redes regionais de energia são fundamentais. Sem energia fiável, industrialização e o desenvolvimento económico ficam limitados.


Quinto, instituições regionais mais fortes em segurança. O Sahel mostra como fragilidades institucionais internas podem transformar-se em crises prolongadas. A dependência permanente de intervenções externas também reduz autonomia política. Organizações regionais africanas como a União Africana ou comunidades económicas regionais precisam de mais capacidade real de mediação, prevenção de conflitos e cooperação militar limitada, mas eficaz.


Sexto, estratégia diplomática de equilíbrio. A competição entre Estados Unidos, China, Rússia, União Europeia e outras potências não vai desaparecer. O desafio para os governos africanos é evitar dependências exclusivas. Parcerias múltiplas, negociação estratégica de investimentos e controlo sobre infraestruturas críticas são essenciais. Países como a África do Sul ou o Senegal têm tentado seguir essa lógica de equilíbrio.


Sétimo, governação interna e legitimidade política. Nenhuma estratégia geopolítica funciona se os Estados forem frágeis internamente. Corrupção, instituições fracas e exclusão económica criam vulnerabilidades que atores externos ou grupos armados podem explorar. A estabilidade interna continua a ser o fator mais decisivo para evitar que um país se transforme num campo de disputa indireta.


Em termos práticos, o que os africanos podem fazer hoje não é “escapar” da geopolítica global, é reduzir a margem de vulnerabilidade. Isso passa por produzir mais do que se consome, negociar melhor os recursos naturais, fortalecer mercados regionais e construir instituições mais sólidas.

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