Marcas por escrever
Contactos
Pesquisa
Pesquisar
Pesquisa

Partilhar
X
Durante séculos, África foi diminuída duas vezes: no mapa e na memória. Nos mapas pendurados nas salas de aula, o continente parecia menor do que realmente é. Nos manuais de História, surgia demasiadas vezes como cenário da violência alheia, raramente como sujeito pleno do seu próprio destino. Agora, com a resolução da ONU promovida pelo Togo sobre uma representação cartográfica mais justa e com a resolução liderada pelo Gana que reconhece a escravatura transatlântica como o crime mais grave contra a humanidade, o mundo começa a corrigir parte dessa distorção.
Mas a pergunta mais difícil vem depois: se África já era maior do que nos ensinaram, o que faremos nós para que ela seja maior em tudo o resto?
A vitória diplomática do Togo deve ser celebrada não porque um mapa resolva a pobreza, a dívida, a dependência económica, a instabilidade política ou as desigualdades que atravessam o continente, mas porque nenhum povo se afirma plenamente enquanto aceitar ser representado de forma menor. Um mapa, além de um desenho técnico, é também uma forma de organizar o mundo. Diz-nos onde fica o centro, onde começa a periferia, quem parece grande e quem parece secundário.
A projeção de Mercator teve utilidade histórica na navegação marítima e isso é inegável. O problema foi ter sido transformada, durante gerações, numa imagem quase natural do planeta. Como todos os mapas planos, distorce. Mas a sua distorção favoreceu simbolicamente o Norte global: aumentou visualmente a Europa, a América do Norte e a Gronelândia; reduziu África, a América Latina e outras regiões próximas do equador. A consequência foi geográfica, mas também foi psicológica, cultural e política.
As crianças aprendem com palavras e com imagens. Uma criança africana que vê o seu continente encolhido aprende, mesmo sem ninguém lho dizer, uma certa ideia de inferioridade. Uma criança europeia que vê o seu continente aumentado aprende, também sem saber, uma certa ideia de centralidade. A cartografia, como a História, nunca foi inocente.
Ao levar esta questão, que ultrapassa o cariz simbólico e representa também questões diplomáticas e civilizacionais, à ONU, o Togo lembrou que a descolonização não terminou com a retirada das bandeiras coloniais. Continua nos livros, nos museus, nas universidades, nas plataformas digitais, nos arquivos, nos nomes das ruas e nas imagens mentais que usamos para compreender o mundo.
O mesmo deve ser dito da resolução liderada pelo Gana sobre a escravatura transatlântica, cuja importância está no facto de obrigar a comunidade internacional a nomear, sem eufemismos, uma das maiores violências organizadas da história humana. Não se tratou apenas de “comércio”, tampouco de “mão-de-obra forçada”. Tratou-se da captura, transporte, exploração e destruição de milhões de africanos; da separação de famílias; da pilhagem de economias; da devastação de sociedades; da construção de sistemas raciais cujas consequências continuam presentes.
É verdade que haverá sempre dúvidas jurídicas. Os governos europeus e norte-americanos conhecem bem esse terreno. Falar de reparações levanta questões difíceis: quem paga, a quem se paga, como se calcula, que responsabilidades pertencem a Estados atuais, como se aplica o direito internacional a crimes cometidos há séculos. Essas dúvidas existem e não devem ser tratadas com leviandade.
Mas também é verdade que, demasiadas vezes, a complexidade jurídica serve de esconderijo para a recusa política. Quando a Europa se abstém e os Estados Unidos votam contra, estamos perante uma divergência técnica e perante o desconforto de sociedades que beneficiaram, direta ou indiretamente, de sistemas de exploração e que temem que o reconhecimento moral abra portas a responsabilidades materiais.
Provavelmente, não veremos tão cedo um grande fundo mundial de reparações históricas. Provavelmente, não haverá cheques globais passados aos descendentes de africanos escravizados. Provavelmente, muitos governos continuarão a preferir palavras vagas, cerimónias prudentes e gestos controlados. Mas seria um erro concluir que, por isso, nada muda.
Muda a linguagem. Muda o enquadramento. Muda a autoridade moral de quem exige memória, restituição e justiça. Muda a forma como escolas, universidades, museus, arquivos e meios de comunicação terão de falar sobre África. Muda, sobretudo, a possibilidade de as novas gerações africanas e afrodescendentes se verem sem pedir licença ao olhar europeu.
Ainda assim, há uma tentação que devemos evitar: transformar cada reconhecimento internacional numa sala de espera. Esperar que a Europa peça desculpa, que os Estados Unidos aceitem responsabilidades. Esperar que os antigos impérios façam as contas que durante séculos recusaram fazer. Tudo isso importa e tudo isso deve continuar a ser exigido, mas a grandeza africana não pode depender só da consciência moral dos outros.
A pergunta que deveríamos estar a fazer é: o que mudamos em nós?
Mudamos os nossos currículos escolares para que as crianças africanas conheçam os impérios, pensadores, cientistas, artistas, comerciantes, líderes espirituais e movimentos de resistência africanos antes de aprenderem apenas a história da colonização? Mudamos a forma como ensinamos a escravatura, não como uma tragédia sem autores, mas como um sistema económico, político e racial com vítimas, responsáveis e consequências? Mudamos a relação com as nossas línguas, tantas vezes tratadas como obstáculos à modernidade quando são arquivos vivos de filosofia, memória e imaginação?
Mudamos a forma como tratamos a diáspora africana? Durante demasiado tempo, muitos descendentes de africanos espalhados pelas Américas, pela Europa e por outras regiões do mundo foram vistos como distantes, estrangeiros ou apenas turistas de regresso. Mas a diáspora não é uma nota de rodapé da história africana. É também potência política, cultural, económica e intelectual.
Se África é maior do que o mapa de Mercator nos mostrou, então também deve ser maior a ambição de ligar Lagos a Luanda, Acra a Lisboa, Praia a Paris, Maputo a Londres, Bissau a Salvador, Luanda a Atlanta, Dakar a São Paulo. Por nostalgia, se assim o quisermos chamar, e por estratégia. A diáspora pode ser ponte de investimento, conhecimento, influência diplomática, produção cultural, investigação académica e pressão política, mas para isso precisa de ser tratada como parte de um projeto comum e não como visitante ocasional da memória.
Também devamos perguntar o que significa tornar África maior na economia. Não basta celebrar a dimensão física do continente se continuarmos a exportar matéria-prima barata e importar valor acrescentado caro. Basta menos ainda falar de orgulho africano se os jovens mais qualificados sentem que só podem realizar o seu potencial fora do continente. Também não basta exigir respeito externo se, internamente, a corrupção, o autoritarismo, a violência política e a fragilidade institucional continuam a roubar futuro a milhões.
Desengane-se quem pensa tratar-se de uma absolvição do Ocidente. É exatamente o contrário: é a recusa de permitir que o passado colonial continue a definir o limite do futuro africano. A Europa e os Estados Unidos devem abrir arquivos, devolver património cultural, rever currículos escolares, reconhecer responsabilidades, apoiar políticas de justiça reparatória e abandonar a arrogância com que, tantas vezes, tratam as suas antigas colónias. Mas África também deve recusar a posição confortável de quem só acusa. Ainda que acusar seja necessário, construir é indispensável.
Tornar África maior implica investir a sério em educação, ciência, tecnologia, saúde, cultura, indústria, agricultura, energia e instituições democráticas. Implica proteger artistas, jornalistas, investigadores e empreendedores. Implica deixar de tratar a juventude como problema e reconhecê-la como o maior capital político do continente. Implica que os governos africanos falem menos de soberania nos discursos e a pratiquem mais nas escolhas económicas, nos contratos públicos, na gestão dos recursos naturais e na defesa dos cidadãos.
Implica também mudar a forma como nos olhamos. Muitos africanos foram educados a procurar validação fora: no diploma europeu, no sotaque estrangeiro, na marca importada, no reconhecimento ocidental. A reparação simbólica começa quando deixamos de medir o nosso valor pela proximidade ao antigo centro imperial. Uma África maior precisa de instituições fortes, sim. Mas também precisa de imaginação descolonizada.
O novo mapa devolve dimensão e a resolução sobre a escravatura devolve gravidade, mas nenhuma das duas substitui o trabalho político, cultural e moral que cabe aos africanos e aos descendentes de africanos. A verdadeira reparação virá de fora e virá também da capacidade de transformar memória em projeto e orgulho em futuro.
O mundo não mudou de tamanho, África também não. O que começa a mudar é a disponibilidade para admitir que a forma como representámos o mundo nunca foi neutra. Durante séculos, África foi ensinada como menor: no mapa, na História, na economia, na teoria política, no imaginário global. Agora que essa mentira começa a cair, não basta pedir ao mundo que nos veja melhor.
É preciso que nos vejamos melhor. E se o mundo começa a corrigir o mapa, cabe-nos a nós corrigir o destino.
Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.
Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.
Recomendações
Marcas por escrever
Contactos