No Bairro São Domingos, o AFRO HOUSE nasce da pergunta: “o que falta aqui?”

11 de Junho de 2026
AFRO HOUSE Dj Williandro
Dj Williandro | DR

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Quando Dj Williandro chegou a Portugal, em 2024, foi no Bairro São Domingos que viveu primeiro. Encontrou ali uma presença africana forte, uma diversidade cultural evidente e um potencial criativo difícil de ignorar, mas faltava o espaço onde essa energia pudesse aparecer, ser partilhada e reconhecida. "Quando cheguei, senti a presença africana e o potencial, mas sem espaço para expressar", conta.


Dessa perceção nasceu o AFRO HOUSE – Aufbau Haus & Quitutes, projeto comunitário criado por Antónia de Carvalho e o próprio Williandro, com o apoio da JAM! – Fazer Acontecer, que quer transformar o Bairro São Domingos, em Santarém, num ponto de encontro através da música, da gastronomia, da dança e da participação comunitária. O primeiro de quatro eventos acontece a 20 de junho, no Jardim do Bairro São Domingos.


Antes de desenhar a programação, os organizadores foram ouvir os moradores. À pergunta sobre o que faltava no bairro, a resposta, segundo Williandro, foi unânime: faltava um espaço de convívio e partilha. O projeto responde a esse diagnóstico e procura construir, a partir do próprio bairro, uma casa comum, em vez de chegar como evento imposto de fora.


O título que dá nome ao projeto é uma junção de três referências. Afro House remete para uma linguagem musical e cultural afro-diaspórica, urbana e contemporânea; Aufbau Haus aponta para uma casa em construção coletiva; e Quitutes, explica Williandro, significa "petisco ou sobremesa em línguas africanas", trazendo para o centro do projeto a comida como gesto de hospitalidade, memória e encontro.


A gastronomia funciona ainda como forma de valorizar as mulheres da comunidade. Antónia de Carvalho assume a cozinha e a mediação comunitária ao lado de Georgina Munto, num projeto onde os sabores ligam histórias, famílias e países. A escolha dos países representados nos eventos parte da composição do próprio bairro: Portugal, Guiné-Bissau, Brasil e Angola.



A programação final prevê quatro eventos. O primeiro acontece a 20 de junho, no Jardim do Bairro São Domingos, e inclui torneio de futsal, degustação gastronómica, workshops de dança, DJ sets afro house ao vivo, feira das mantas, exposição de produtos diversos e momentos de partilha. Entre os nomes envolvidos estão Balmaz, Dj Williandro, Mário Synsse, a Ajuda de Mãe de Santarém, Antónia e Georgina Munto.


O projeto conta com o apoio da Câmara Municipal de Santarém, Artemrede, JAM!, Junta de Freguesia de Santarém e Fundação Calouste Gulbenkian. Mas o centro da proposta está mais na relação com o território do que propriamente com os parceiros. “A conexão direta” é, para Williandro, aquilo que distingue o AFRO HOUSE de um festival multicultural convencional. “Nós interagimos sem filtros, preocupamo-nos e abraçamos, oferecemos voz a quem necessita.”


Essa proximidade ganha outro peso num bairro historicamente associado à marginalização, ao alcoolismo, à droga e à ideia de que ali "não acontece nada de novo". Segundo o organizador, esse olhar exterior terá gerado nos próprios moradores timidez e receio de participar.


A resposta do AFRO HOUSE a essa imagem passa pela presença, pelo cuidado e pela apropriação positiva do espaço público. Os organizadores decidiram não vender bebidas alcoólicas em nenhum dos eventos, devido ao índice elevado de alcoolismo identificado no bairro, e envolvem a comunidade na manutenção do jardim, através de limpezas e da pintura do espaço.


Há quem possa ler o projeto como mais uma festa, e a resposta dos organizadores passa por garantir que a comunidade é protagonista. Os jovens participam através da expressão artística, as mulheres através da gastronomia, e os moradores constroem o evento em vez de assistirem a ele. O objetivo maior é quebrar o estereótipo do São Domingos como bairro dormitório, marginal ou sem vida cultural, e mostrar a Santarém um bairro que Williandro descreve como "agradável, acolhedor e potencialmente rico na diversidade cultural".


Há aqui uma consciência do risco: o projecto pode ser lido apenas como mais uma festa. Para os organizadores, a resposta está em garantir que a comunidade é protagonista. Os jovens são chamados a participar activamente através da expressão artística. As mulheres são valorizadas através da gastronomia. Os moradores deixam de ser público passivo e passam a fazer parte da construção do evento.


O AFRO HOUSE quer continuar para além destes quatro eventos. A ambição dos organizadores é usar as receitas arrecadadas para manter este tipo de intervenção e levá-la, no futuro, a outros bairros mais necessitados do país.


A ambição não se esgota nestes quatro eventos. Os organizadores querem usar as receitas para manter este tipo de intervenção e levá-la, no futuro, a outros bairros mais necessitados do país. Quando lhe pedem uma frase para resumir o projeto, Williandro responde com a palavra que, para ele, falta no bairro: união. "Juntos somos mais fortes."

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