AfroFest leva música angolana ao Casino Estoril com Edgar Domingos e Chelsea Dinorath

12 de Maio de 2026

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O Salão Preto e Prata do Casino Estoril recebe a 13 de junho o espetáculo Vozes em Palco - Encontros, com Edgar Domingos e Chelsea Dinorath no cartaz. Por detrás do evento está a AfroFest, promotora fundada por Marco Fortunato e que conta com Jafeth Aragão, manager de artistas, como parte da estrutura de produção. Fortunato descreve a estrutura a partir de uma distinção que tem consequências práticas: a promotora existe para construir relações, antes de vender bilhetes. "Nós queremos vender histórias e tratamos o público como parte da nossa história." A formulação determina a escolha do espaço, o conceito do espetáculo e o lugar que a empresa quer ocupar dentro do ecossistema da música dos PALOP em Portugal.


A escolha do Casino Estoril é, ela própria, uma tomada de posição. O Salão Preto e Prata carrega uma reputação de espaço reservado a certas audiências e essa reputação é exatamente o que a AfroFest quer pôr à prova. "Acreditamos que o facto de sermos todos afro, nós conseguimos sim passar a mensagem, passar o recado que a casa vai passar a receber este tipo de público", diz Jafeth. O argumento faz-se pela presença: ocupar a sala é, por si, a resposta ao mito de que aquele palco pertence a uma elite inacessível à comunidade africana. "Os artistas PALOP também merecem estar naquela sala e têm mais que o valor para lá estarem."


O título Vozes em Palco condensa essa intenção. Dois nomes maiores do mercado angolano, colocados frente a frente num palco que a comunidade raramente habitou. "Vozes em Palco, porque são duas grandes vozes do mercado do PALOP, principalmente o mercado angolano", explicam. O encontro entre Edgar Domingos e Chelsea Dinorath ultrapassa, portanto, a lógica de programação e é o núcleo do argumento daquilo que a AfroFest quer fazer em Cascais.


Os dois artistas chegam ao Casino Estoril em momentos distintos das suas carreiras, mas com percursos que já se cruzaram antes. Em 2020, Chelsea lançou o EP Unfollow com a participação de Edgar Domingos no tema “Traços”, entre outros colaboradores. Edgar Domingos construiu o seu percurso a partir de uma kizomba gravada num quarto, sem equipamento, e foi acumulando um público fiel em toda a lusofonia. Em 2024 lançou Às de Copas, um álbum que esperou quatro anos até o artista se sentir alinhado com a sua própria visão. Chelsea Dinorath, nascida em Luanda em 2001, iniciou a carreira profissional aos 18 anos e ganhou projeção internacional com o single "Sodadi", que lhe valeu os prémios de Revelação Vocal Feminina e Voz do Ano de 2022 no Top Rádio Luanda. Em fevereiro de 2025, tornou-se na primeira artista angolana a vencer o prémio de Melhor Artista Lusófona nos Trace Awards, numa cerimónia em Zanzibar, superando nomes como Calema, Landrick e Soraia Ramos.


A relação da AfroFest com Edgar Domingos já tinha sido testada antes: a promotora foi responsável pelo concerto do cantor no Lisboa ao Vivo, a 29 de agosto de 2025, que correu bem e gerou a confiança necessária para avançar com um projeto de maior escala. A entrada de Chelsea Dinorath no cartaz seguiu uma lógica semelhante, a complementaridade musical com o co-cabeça de cartaz e o momento que a sua carreira atravessa tornavam a junção evidente. “É uma artista que, a nível de musicalidade, encaixa muito bem naquilo que é o projeto do Edgar Domingos. Para nós fazia todo o sentido”, diz Marco.


Jafeth integra a estrutura da AfroFest como manager de artistas e produtor em simultâneo, e fala da experiência como um processo de reconfiguração do olhar. Gerir a carreira de um artista e produzir um evento são funções que puxam em direções distintas: o manager defende o artista, o produtor trabalha dentro de constrangimentos que o artista muitas vezes desconhece. "Muitas vezes aquilo que a gente exige não se coaduna com aquilo que o promotor realmente espera." Estar dos dois lados ao mesmo tempo está a mudar a forma como interpreta esse equilíbrio. "Tenho percebido de que forma eu posso não só trabalhar com os artistas na parte da gestão de carreira, mas como posso também colocá-los a par daquilo que é a produção." O raciocínio é que artistas com conhecimento do lado da produção tomam melhores decisões para as suas próprias carreiras e que managers com experiência de promotora se tornam interlocutores mais eficazes.


Marco Fortunato, por sua vez, chega à estrutura com um percurso longo no mundo dos espetáculos - discotecas, música eletrónica, rock - e uma ligação à cultura africana que descreve como anterior a qualquer projeto. Fala crioulo cabo-verdiano, ouve kizomba desde criança, e em 2007 já trabalhava com artistas angolanos no circuito das discotecas em Portugal. É essa passagem por estruturas de produção mais consolidadas que alimenta a sua leitura sobre o fosso que a música PALOP ainda tem a percorrer em Portugal. "Há uma grande diferença entre as estruturas e a forma de trabalhar da comunidade PALOP para estes meios. E é precisamente isso, mostrar que realmente se consegue fazer grandes coisas em salas como estas."


O objetivo de ambos é que Vozes em Palco abra um ciclo. "Nós vamos fazer acontecer mais vezes. E é mesmo esse o nosso objetivo." A passagem da música dos PALOP para salas de concerto formais em Portugal fica ainda muito aquém do que a dimensão da comunidade faria supor. A AfroFest quer encurtar essa distância, e escolheu o Casino Estoril para dar o primeiro argumento.

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