Aiza, uma afropop queen com origens no Burindi e que canta "Saudade"

8 de Abril de 2026
Aiza entrevista ame
©LENTiLHAS

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Aiza Ntibarikure é uma artista nascida e criada no Canadá, filha de burundeses e que navega numa linguagem sonora muito própria, entre o afropop, R&B e sonoridades populares africanas. Com uma atuação neste 7 de abril, a BANTUMEN teve a oportunidade de conhecer a artista e descobrir um pouco mais sobre a sua arte que se cruza entre a música, o entretenimento e a atuação.


Na principal avenida da baixa da cidade da Praia, o dia irrompe logo nas primeiras horas da manhã. Às 8h30, já tudo parece em andamento há horas: o sol cai cedo e sem delicadeza alguma, os carros acumulam-se num pára-arranca nervoso, entre buzinadelas impacientes e motores quentes. Pelo meio, a rua muda de ritmo sem aviso. O som dos apitos cresce ao longe, os tambores impõem a cadência dos passos, e uma manifestação matinal toma conta da avenida, tingindo o cenário com cores partidárias e palavras de ordem. Há eleições presidenciais em maio e a corrida ao voto é imperativa.


Enquanto a pressa e o barulho ditam o tom na rua, basta atravessar as portas do Palácio da Cultura Ildo Lobo para o ambiente mudar de cenário.

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Aiza entrevista ame

© LENTiLHAS

Aiza cresceu numa cidade de cruzamentos linguísticos, culturais e sonoros, e foi precisamente nesse entre-mundos que encontrou a sua voz. Uma voz que hoje soa a Afropop e R&B, mas que guarda dentro das suas várias camadas o congolês de Koffi Olomidé, o groove do samba do Brasil, o coupé décalé da Côte d’Ivoire, o funk do nigeriano Fela Kuti e as baladas das suas divas americanas. A sua música soa a tudo, porque é feita de tudo mas a âncora está bem cravada nos sons, jeitos e trejeitos do continente berço.


Em modo pré-show e simpatia que distribui a cada cruzamento de olhar, esta é a primeira vez de Aiza no AME, porém não é uma estreia no arquipélago. “Estive aqui há dez anos como vocalista de apoio. Por isso, estar aqui agora para o meu próprio projeto sabe mesmo muito bem", disse-nos de sorriso rasgado.


De Montreal para o mundo, com Bujumbura no coração


Nascida e criada em Montreal, Aiza encontrou os seus primeiros palcos no teatro musical, ainda no secundário, antes de descobrir o seu caminho como cantora e compositora. Montreal moldou-a de formas que ela própria descreve com entusiasmo. "Montreal é uma cidade muito multicultural, muito cosmopolita. Há muitas culturas diferentes que fazem parte de quem eu sou - as Caraíbas, influências europeias, especialmente na música com que cresci. Uma grande variedade, artistas congoleses como Koffi Olomidé, Olamide, Awilo Longomba... e obviamente as minhas divas americanas: Destiny's Child, Mariah Carey, Lauryn Hill. A minha inspiração vem de todas essas misturas  e é isso que torna a minha música tão única", explica-nos, no terraço do Palácio da Cultura, diante de uma vista privilegiada sobre a cidade.


Em 2017, Aiza visitou o Burundi pela primeira vez com o pai, uma viagem que descreve como transformadora. Rodeada pelos sons da sua cultura de origem,  Aiza absorveu a espiritualidade rítmica da música burundiana - que na sua génese transborda gratidão pelas pequenas coisas da vida e pede proteção - e incorporou-a na sua criatividade.


Esse elo com as raízes não ficou só na música. Através do Inkeraguhiga Collective, Aiza envolveu-se ativamente no apoio a doze jovens mulheres do Burundi que fabricam e vendem pensos higiénicos reutilizáveis na província rural de Ruyigi, onde a falta de acesso a produtos menstruais afasta estudantes das aulas.

Sovereignt, um álbum que é também uma declaração


Sovereignty - o álbum que a artista promoveu durante a atuação no AME - é uma coleção de 11 músicas em que cada faixa representa uma lição aprendida no caminho para se tornar a mulher empoderada que é hoje. O título diz tudo: soberania sobre si própria, sobre as escolhas, sobre a narrativa.


Elementos de Afrobeat tradicional, Coupé Décalé costa-marfinense, reggaeton e samba encontram-se ao longo do disco. O álbum acumulou mais de 1,5 milhões de streams desde o lançamento e permaneceu nas tabelas nacionais de rádio do Canadá durante 28 semanas, atingindo o segundo lugar no Hip Hop e o décimo no Top 50. O single "Majimbo" entrou no Top 20 da CBC Music durante seis semanas e músicas suas já apareceram em séries da Netflix como “Never Have I Ever” e “Ginny & Georgia”.


Depois de Sovereignty, Aiza lançou Winds of Change, uma colaboração com o produtor C The Reason que transporta os ouvintes para a era dourada da soul dos anos 60, com cordas exuberantes, arranjos de metais e vocais que evocam Nina Simone e Quincy Jones. Um salto para a jazz soul clássica que demonstra a amplitude da paleta sonora de Aiza.


No AME, com energia de estádio e uma estreia mundial


No AME deste ano, Aiza não veio para passar despercebida. O alinhamento que preparou é uma revisita ao universo de Sovereignty, mas trabalhado de raiz para grandes palcos. "Passei o último ano a retrabalhar a música com o meu produtor para criar um show arrasador, tipo estádio. Cheio de dança, com alguns clássicos já bem conhecidos. E há uma música nova chamada ‘Saudade’”, apresentada agora pela primeira vez, em Cabo Verde.


Quando questionada sobre como se sente em Cabo Verde, Aiza não poupou nos elogios ao povo cabo-verdiano, com uma candura direta que a caracteriza. "Toda a gente aqui é linda. Há qualquer coisa na água, porque as feições de toda a gente são deslumbrantes. Toda a gente é tão calorosa. Conheci músicos incríveis. Adoro estar perto da água e o vento aqui não brinca. O vento vai-te bater com força. Eu gosto."


Sobre futuro, a artista tem-no desenhado com ambição e clareza. "O objetivo é continuar a expandir internacionalmente, globalmente. Quero chegar à Europa, fazer mais shows em África, e vamos também fazer uma tournée pelo Canadá. Há um projeto novo que vai sair ainda este ano. Fiquem atentos e sigam-me nas redes", avisa. 


Aiza é o tipo de artista que faz música que parece sempre de "casa”. Talvez porque casa, para ela, nunca foi um único lugar. É Montreal e Bujumbura, é o francês e o inglês, é o Afrobeat e o R&B, é o palco do AME em Praia com o vento atlântico a bater de frente. Tudo isso, ao mesmo tempo ou quando o tempo permitir.

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