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Na noite de 6 de abril, o Auditório Nacional Jorge Barbosa encheu para a abertura da 12.ª edição do Atlantic Music Expo. Entre os artistas que subiram ao palco nessa primeira noite estava Alberto Koenig, que encerrou a atuação com "Porton de Nós Ilha", tema que Ildo Lobo tornaria eterno. A escolha não precisa de explicação para quem conhece Cabo Verde, mas para quem não conhece o artista, é por aqui que começa a fazer sentido percebê-lo.
Alberto Koenig nasceu em Cuba em 1988, onde os pais estudavam, e chegou a Cabo Verde aos dois anos. É filho de Mário Lúcio - músico, compositor e ex-ministro da Cultura de Cabo Verde - e cresceu entre os ensaios e os concertos dos Simentera, o grupo que o pai cofundou e que, ao longo dos anos 90, se tornaria uma referência na fusão das tradições musicais cabo-verdianas. Quando se descreve, porém, apresenta-se pelo que faz e não pela herança: diz ser um cantautor, "uma espécie que aos poucos parece que está a deixar de existir", mas que ainda persiste - o artista que canta o que vive e o que sente, e que interpreta as suas próprias composições. Foi precisamente a composição, e não o canto, que o puxou para a música. Começou pela percussão e aos 14 anos encontrou o violão, integrou grupos e fundou com colegas na adolescência os Meia Culpa, percurso em que a paixão pela composição se tornou o centro de tudo, incluindo a decisão de ir para o Brasil estudar arquitetura e acabar por largar o curso.
Em Brasília tocou exclusivamente com músicos brasileiros que queriam perceber a sua raiz, e o efeito foi o inverso do que esperaria: "Foi quase um espelho às avessas. Enquanto estava cá, via-me muito no estilo que eles tocavam. Mas enquanto estive lá com eles, procurei mais de mim aqui." Quando voltou definitivamente a Cabo Verde, o choque foi de natureza diferente - Alberto Koenig faz uma distinção entre uma terra de música e uma terra de músicos, e considera que Cabo Verde está a perder a segunda condição. "Na geração anterior, muita gente não era músico profissional, mas sabia tocar um, dois, três ou quatro instrumentos. Hoje, com a revolução digital e tecnológica, raramente há rodas de música." A globalização, argumenta, está a diluir a impressão digital de cada lugar, mas reconhece que isso gera, em sentido contrário, uma procura pelo orgânico e pelo enraizado, uma vez que há sempre uma franja que “quer aquela coisa terra a terra.”

©BANTUMEN
Trevoluson, o álbum de estreia lançado em 2024, tem um nome inventado pelo pai, palavra que Alberto Koenig prefere não explicar, porque assim, diz, "todas as interpretações estão corretas". Em Cabo Verde sempre foi mais dos palcos do que do estúdio, e quem o acompanhava ao vivo conhecia as músicas antes de poder ouvi-las gravadas. O álbum veio mudar isso, mas representou também qualquer coisa mais estrutural: "A profissionalização passa muito por ter um objeto. Um pintor pode pintar, mas se nunca fez uma exposição, é um pintor amador." Foi, nas suas palavras, o nascer de um artista mais consciente da indústria musical.
A sonoridade que o álbum contém é, por definição, difícil de encaixar num género e Alberto Koenig trata essa dificuldade como parte do propósito. Os músicos brasileiros com quem gravou entram na equação como “temperos”, e a eles junta-se Ndu Carlos, do coletivo Matos Trio, que descreve como uma lenda da música lusófona e africana, com uma impressão digital forte no resultado final. As referências que cita - Erykah Badu, Jill Scott, Ângelo, James Brown, muita MPB (Música Popular Brasileira) - convivem com o violão acústico no centro e percussões ao vivo, não programadas, num crioulo soul que recusa um rótulo fechado. "Quem vai ouvir o álbum não vai ouvir um estilo de música. A música é que como comida, se os temperos estão na medida certa, a comida é boa."
Para além do trabalho musical, mantém uma presença ativa em projetos sociais, incluindo “Libertasom”, trabalho realizado na Cadeia Civil da Praia que deu origem a um disco feito em colaboração com 17 participantes, e assume uma postura política no sentido mais amplo do termo. Considera que o artista, por natureza, é um ser político, "aquele que tem o dom de olhar para algo e ver alguma coisa diferente", mas reconhece que, em Cabo Verde, essa postura tem um custo real: num país pequeno onde todos se conhecem, associar o nome a uma cor política pode condicionar carreiras, e esse receio leva muitos artistas a optar pela neutralidade.
Com meio milhão de habitantes, Cabo Verde torna a internacionalização quase inevitável para qualquer artista que queira sustentar uma carreira, e eventos como o AME trazem essa possibilidade sem exigir a saída: "Se o mundo vem para cá uma vez por ano, é uma chance de internacionalização sem ter que sair." Sobre a continuidade do evento, independentemente dos ciclos políticos, diz tirar o chapéu e ressalva a importância de uma cultura aberta ao mundo sem se perder da sua raíz. “Se em Cabo Verde a cultura é o bem maior, é importante que tomemos conta deste pequeno diamante que é o AME e que se torne também tradicional."
O próximo passo está marcado para 8 de maio, no B.Leza, em Lisboa, o seu primeiro concerto em Portugal, a trio, com Ndu Carlos na percussão e Elias, multi-instrumentista. Quando perguntado sobre o que quer que as pessoas reconheçam ao ouvir a sua música, admite sentir que tira “pesos não só do meu peito, mas do peito de outras pessoas. Quero ser reconhecido como esse mago de emoções."
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