Ale D’Afrique traz à superfície as feridas, os afetos e os silêncios que nos criaram

27 de Abril de 2026
Ale D’Afrique The Rooms That Raised Us
DR

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Desde o dia 24 de abril que o espaço M8triarch, em Lisboa, acolhe o The Rooms That Raised Us [O Quarto Que Nos Criou], a nova exposição de Ale D’Afrique, artista visual nascido em Tsumeb, na Namíbia, filho de pais angolanos e atualmente radicado na capital portuguesa. A mostra reune um conjunto de obras figurativas centradas em temas como memória, família e diáspora, mas o que ali se expôs foi também outra coisa: aquilo que tantas vezes fica retido dentro de casa, entre ausências, afetos difíceis e silêncios herdados.


Ale trabalha sobretudo com pastel seco, tinta e carvão, materiais que hoje definem a sua linguagem visual. Antes disso, passou pela fotografia e pelo design gráfico, mas foi já em Lisboa que começou a levar a prática artística com outra seriedade. “Inicialmente, a arte era uma ferramenta pessoal, uma forma de processar e expressar emoções que eu não conseguia articular por palavras”, explica à BANTUMEN. Ao longo do tempo, foi experimentando performance, instalação e trabalho digital, até regressar a meios mais táteis, mais frágeis e mais próximos do corpo. “Estes materiais permitem-me relacionar-me de forma mais direta com o corpo, a memória e o gesto.”


A relação com a arte começou cedo. Uma das primeiras memórias que guarda é a de um amigo de infância, em Moçambique, a desenhar uma figura simples no chão. A imagem ficou-lhe. “Lembro-me de ficar fascinado com a forma como linhas tão simples podiam conter significado.” Mais tarde, um professor de arte particularmente exigente e a insistência da mãe, que lhe dizia frequentemente que podia sempre fazer melhor, ajudaram a moldar a forma como passou a olhar para o trabalho criativo. Se numa fase inicial havia também um desejo de reconhecimento, hoje a arte ocupa outro lugar. “No início, o que me atraía na arte era a forma como as pessoas a reverenciavam. Eu queria ser visto dessa mesma forma. Mas, com o tempo, a minha relação com a arte mudou. Deixou de ser sobre reconhecimento e passou a ser sobre viver através do trabalho, usá-lo como espaço para refletir, questionar e criar diálogo.

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Ale D’Afrique The Rooms That Raised Us

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É desse lugar que nasce The Rooms That Raised Us. A exposição desenvolveu-se a partir de um corpo de trabalho anterior, Father and Son [Pai e Filho], centrado nas relações entre gerações. A partir daí, fez-se quase inevitável alargar o foco ao espaço onde essas relações acontecem. “A partir daí, pareceu-me natural expandir para o espaço onde essas relações existem: a casa”, afirma o Ale d’Afrique.


Além de cenário, Ale pensa a casa como estrutura emocional. Um lugar onde coexistem amor, tensão, mal-entendidos e memórias partilhadas de forma desigual. “The Rooms That Raised Us explora a forma como o amor, a tensão e a incompreensão existem dentro desses espaços e como nos moldam ao longo do tempo.”


No título, os “quartos” ou “divisões” da casa existem em dois planos ao mesmo tempo. São, por um lado, o espaço físico onde a vida familiar se organiza. Mas são também espaços interiores, construídos pelas relações, pelas lembranças e pela experiência acumulada. “Os ‘quartos’ existem em dois níveis”, explica. “Representam o espaço físico da casa, as quatro paredes que acolhem a vida familiar. Mas referem-se também aos espaços internos dentro de nós, moldados pelas interações, pelas memórias e pelas experiências.” E acrescenta uma ideia que atravessa toda a exposição: “Cada pessoa carrega a sua própria versão desses quartos, mesmo quando partilha o mesmo espaço.


A memória é um dos fios mais fortes deste trabalho, sobretudo porque Ale parte de uma matriz cultural em que a transmissão acontece muito pela oralidade. Histórias, gestos e referências passam de geração em geração menos através de arquivos formais e mais através da conversa. O problema, diz, é a fragilidade desse processo. “Venho de uma cultura onde a tradição oral é central, e a memória passa-se pela conversa, mais do que pela documentação. Com o tempo, fui percebendo o quão frágil isso é, e como essas memórias podem desaparecer facilmente.” Foi aí que a arte se tornou também uma forma de retenção. “O meu trabalho tornou-se uma maneira de agarrar essas memórias e traduzi-las em linguagem visual.”


Essa escolha ajuda a perceber porque é que a figuração ocupa um lugar tão central nesta exposição. Para Ale, o corpo é um veículo de memória e, por isso, a presença humana funciona como ponto de entrada imediata para o espectador. “A figuração permite uma ligação emocional imediata. O corpo transporta memória e, através dele, quem vê pode projetar as suas próprias experiências.” Não se trata, explica, de representar toda a gente, mas de criar imagens onde alguém possa reconhecer algo de si. “Não estou a tentar representar toda a gente, mas criar um espaço onde as pessoas possam reconhecer alguma coisa de si mesmas, se essa ligação existir.”


Entre as obras apresentadas, houve uma que assumiu um peso particularmente íntimo: uma pequena peça azul com duas figuras numa cena que lembra um casamento. Para o artista, essa imagem fala de uma união que nunca chegou a acontecer entre os seus pais. “Para mim, essa obra reflete uma união que nunca aconteceu entre os meus pais. Fala de uma ausência, de algo que estava destinado a existir, mas não existiu, e de como essa ausência pode afetar a geração seguinte.”


É precisamente esse tipo de conversa que Ale quis abrir. “Espero que a exposição estimule uma reflexão sobre a forma como as dinâmicas familiares moldam a identidade, sobretudo em contextos diaspóricos.” Para o artista, muitas das discussões sobre identidade negra continuam a centrar-se nas estruturas externas, nas formas de exclusão mais visíveis, nos sistemas que condicionam o lugar dos corpos negros no mundo. Sem negar isso, interessa-lhe deslocar o olhar para dentro. “Muitas vezes, as discussões em torno da identidade negra focam-se nas estruturas externas, mas eu estou interessado no que acontece dentro de casa, em como a cultura, a distância e a adaptação afetam a forma como nos relacionamos uns com os outros.”


Lisboa, cidade onde vive e trabalha, entra também nesse pensamento. Ale descreve-a como um lugar diverso, mas nem sempre plenamente expressivo dessa diversidade. “Lisboa é uma cidade diversa, mas essa diversidade muitas vezes parece estar presente sem se expressar por completo.” A voz existe, diz, mas o timbre, a temperatura e a profundidade dessa presença nem sempre encontram espaço para emergir. Criar a partir de Lisboa é, para si, viver numa negociação constante entre histórias, pertenças e camadas identitárias ainda por resolver. “Criar em Lisboa é como navegar um espaço intermédio, uma espécie de negociação contínua entre histórias, identidades e pertença.”


No fim, aquilo que quis que o público levasse consigo não foi uma resposta fechada, mas uma espécie de espelho. “Gostava que as pessoas se sentissem vistas e que talvez refletissem sobre as suas próprias experiências de família, memória e identidade.” Mesmo quando essas experiências são difíceis, contraditórias ou inacabadas, reconhecê-las continua a ser importante. “Mesmo que essas experiências sejam complicadas ou permaneçam por resolver, há algo de importante em reconhecê-las.”


Em tempos em que tantas narrativas da diáspora continuam a ser lidas apenas a partir da superfície, The Rooms That Raised Us propõe um regresso ao interior das coisas: à casa, às suas divisões visíveis e invisíveis, às relações que nos moldaram e às memórias que insistimos em carregar, mesmo quando nunca as conseguimos dizer por completo.

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