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LIVRE, o primeiro EP a solo de Alex D’Alva, marca um novo momento na carreira do músico português conhecido pelo percurso nos D’ALVA e afirma-se como um trabalho onde identidade, liberdade e música eletrónica se cruzam de forma consciente. Nove anos depois de uma entrevista à BANTUMEN, em que falava do erro como método e da aprendizagem como processo contínuo, o artista apresenta agora o seu primeiro trabalho a solo como quem já não precisa de pedir licença. LIVRE é o resultado de um percurso longo, atravessado por deslocações físicas, questionamentos identitários e uma vontade clara de existir artisticamente sem tradução permanente.
Como o próprio afirma: “em vez de ficar à espera que alguém me ajudasse a materializar, fui procurar as ferramentas para fazer acontecer”. Este novo projeto define-se assim como um posicionamento além da música.
LIVRE nasce depois de mais de uma década nos D’ALVA, num momento em que o coletivo já não conseguia conter todas as perguntas que Alex queria fazer. Não houve conflito nem rutura dramática. Houve consciência. “Já eram dez ou doze anos a fazer coisas no contexto de uma banda e eu precisava de experimentar coisas diferentes”, explica. A pausa surge como necessidade vital, como espaço de respiração criativa. Teatro, performance, colaboração com Grada Kilomba, experimentação sonora e produção autónoma passam a ocupar o centro do seu quotidiano artístico.
Durante esse processo, Alex aprende a produzir sozinho. Vê tutoriais, cria beats, erra, volta atrás, insiste. A lógica do erro continua presente, mas agora acompanhada de autonomia. O título do EP surge quase por acaso, enquanto caminhava pelo Porto. “Se esta fosse a minha última oportunidade de dar uma oferenda às pessoas, seria um hino à liberdade e à nossa autonomia”, diz.

©BANTUMEN

©BANTUMEN
O EP vai sendo construído entre Lisboa, Porto, Brasil e várias cidades europeias. Essa geografia está inscrita no som, nas batidas e na voz. Há sotaques que surgem sem pedir licença, porque fazem parte da vida real do artista. “Quando falo com a minha família de Angola, o meu sotaque muda. Quando a minha mãe, que é carioca, me liga, eu falo diferente. Decidi deixar isso sair e ficar”, afirma. Em projetos anteriores, sentia a pressão de modelar a dicção para corresponder à perceção externa. Em LIVRE, essa autocensura cai.
A mistura cultural não é conceito abstrato. É corpo vivido. Alex nasce em Luanda, é filho de mãe brasileira e pai são-tomense, cresce em Portugal e constrói-se nesse trânsito constante. Durante muitos anos, essa condição exigiu adaptação contínua. No Brasil, porém, a experiência foi diferente. “Nunca me senti tão visto e tão valorizado como quando estive no Brasil”, confessa. Foi aí que o artista encontrou uma nova paz identitária e passou a nomear-se como afro-europeu. “Essa é a minha realidade”, diz, questionando a ausência do termo no discurso público.
O single que dá título ao EP é lançado no ano em que se assinalam os 50 anos da democracia portuguesa, e essa coincidência atravessa o disco de forma consciente. Num dos momentos mais densos da conversa, Alex sintetiza o que está em jogo: “Houve muitas conquistas que a sociedade conseguiu, desde o direito ao voto até à forma como hoje pensamos o corpo e a liberdade. Mas eu sinto que muitas dessas liberdades estão a ser tomadas como garantidas. É por isso que é tão importante não esquecer a história, porque tudo o que aconteceu continua a influenciar a forma como olham para pessoas como nós.” Para Alex, liberdade não é um dado adquirido. É frágil, reversível, ameaçada. “Sentes que algumas liberdades conquistadas ao longo dos anos estão em risco”, alerta. A reflexão leva-o inevitavelmente à história colonial, à escravatura e às marcas que permanecem no presente.
Lisboa surge como símbolo dessa ambiguidade. Caminhar junto ao Tejo, rodeado de monumentos que celebram os barcos, mas nunca as vidas nos porões, é uma imagem recorrente no seu pensamento. “Tu vês os barcos, mas nunca vês as vidas que estavam nos porões”, diz. Para Alex, não há liberdade sem memória. Esquecer o passado é caminhar às cegas para o futuro. Como resume citando Alexis de Tocqueville (pensador e historiador francês que se tornou famoso no século XIX pelas suas análises à Revolução Francesa), “quando o futuro não é iluminado pelo passado, a humanidade caminha nas trevas”.
Essa consciência política não se transforma em panfleto. Em vez disso, infiltra-se no som e no corpo. Alex explica-o num raciocínio que atravessa quase todo o EP: “Eu penso a música como uma possibilidade de criar espaços. Se LIVRE for um espaço, é um não-lugar onde tudo é possível para todas as pessoas. Um sítio onde podemos imaginar futuros ideais, mesmo sabendo que a realidade ainda está longe disso.” Transforma-se em som. LIVRE pensa enquanto dança. A eletrónica é aqui linguagem política do corpo. O EP cruza clubbing europeu, ritmos africanos, baile funk brasileiro e uma pulsão pop que nunca abandona a canção. “Eu penso o mundo através da música. Esta é a minha linguagem”, afirma. A experiência no Brasil, vivendo o baile funk no território, foi fundamental. “Era importante experienciar aquilo no sítio onde as pessoas vivem essa cultura”, sublinha.
Lisboa volta a surgir como território criativo e contraditório. Uma cidade onde a música africana anima as pistas, mas onde corpos africanos continuam a ser barrados à porta. “É uma cidade cheia de assimetrias”, reconhece. A música surge então como possibilidade de criar espaços alternativos, pequenas utopias temporárias. “Se LIVRE fosse um espaço, seria um não-lugar onde tudo é possível para todas as pessoas”, imagina.
O percurso a solo é também uma travessia identitária profunda. Ao longo dos anos, Alex sentiu-se muitas vezes o outro, tanto em contextos brancos como em contextos negros, por não dominar determinados códigos. Este seu novo trabalho nasce dessa tensão, mas, por outro lado, recusa vitimização e, do seu jeito, é um gesto de integração. O mesmo acontece com a sua vivência enquanto pessoa queer. Depois de um período de silêncio e de assunção, chega agora a um lugar de tranquilidade.“Hoje já não é algo que precise de ser gritante. É só mais uma parte de mim”, explica. O corpo queer está presente, mas sem dramatização.
Apesar de ser um trabalho a solo, LIVRE é profundamente comunitário. Alex rejeita a figura do artista-isolado. “Um homem não é uma ilha”, lembra, citando um provérbio inglês. A colaboração surge como base ética do projeto. Não há quotas nem agendas simbólicas. “Falei com as pessoas pelo talento e pela afinidade humana”, afirma. Há também uma preocupação clara com o cuidado: pagar cachês, valorizar o tempo, reconhecer o trabalho.
Nesse ecossistema criativo, a participação de Gisela Mabel assume um lugar central. Alex descreve essa colaboração com particular emoção: “Para mim foi uma honra enorme ver uma mulher negra atravessar o mundo a tocar piano, como os grandes compositores do jazz e da música clássica, e poder contar com essa presença neste corpo de trabalho. Não é simbólico. É essencial. É sobre presença, história e excelência.” Pianista de formação clássica e jazz, Gisela encerra uma das faixas mais marcantes do EP com uma interpretação intensa e emocional. A colaboração foi pensada como um cadáver esquisito sonoro, passando por vários criadores até chegar às mãos de Gisela. “Ela entendeu perfeitamente a proposta e devolveu-me algo incrível”, diz Alex. A sua presença afirma a excelência artística negra sem concessões nem exotizações.
LIVRE foi pensado desde o início para o corpo e para o encontro, tanto que, ao vivo, assume-se como território híbrido entre concerto, clube e ritual. Inspirado por espaços underground onde comunidades queer e corpos dissidentes criaram as suas próprias plataformas, Alex imagina performances de proximidade e intensidade. “O meu sonho é que esta música faça parte da banda sonora do quotidiano das pessoas”, confessa.
O EP não surge como um ponto final, mas como um ponto de partida. Alex continua ligado a projetos coletivos, mas aqui assume uma voz mais própria, mais consciente, em crescimento. LIVRE nasce como um espaço aberto, quase íntimo, onde a música cria margem para existir sem amarras. Como o próprio descreve, é “um espaço imaginário onde, através de batidas eletrónicas inspiradas em África e no Brasil, podemos existir plenamente”. Mesmo quando leis, sistemas ou discursos tentam limitar essa existência, a música aparece como lugar de respiração e escolha.
No fundo, LIVRE é isso: um território onde a memória, o corpo e a verdade continuam a garantir espaço para sermos quem somos. Essa ideia ganha agora outra dimensão com a tour LIVRE BRUTA, em parceria com Rita Onofre, que vai passar por várias cidades portuguesas. Não são apenas concertos, são momentos de encontro. Porque, para Alex D’Alva, a liberdade só faz sentido quando se vive em conjunto.
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