Pintados com terra vulcânica, os retratos de Amadeo Carvalho chegaram a Paris

28 de Outubro de 2026
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Amadeo Carvalho | DR

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A terra do Fogo, de Santiago e de São Vicente esteve em Paris de 23 a 25 de outubro. Chegou nas telas de Amadeo Carvalho, que a recolheu com as próprias mãos nas três ilhas e a transformou em pigmento para Retratos de Ausência, a série inédita que pintou em 2025 e 2026. O artista cabo-verdiano apresentou-a numa exposição individual na AKAA (Also Known As Africa), a feira de arte contemporânea e design dedicada a África e às suas diásporas, com o título Fragments d’identité: circulations lusophones, géographies sensibles.


Fundada em 2016 por Victoria Mann, a AKAA chegou este ano à 11.ª edição, no Carreau du Temple. A presença de Amadeo foi também o primeiro projeto público da Casa Vicência, plataforma curatorial fundada em Paris pela cabo-verdiana Émilie Silva e dedicada à arte contemporânea dos espaços de língua portuguesa, a partir de uma visão atlântica que procura ligar África, a Europa e as suas diásporas.


Nascido em São Vicente, em 1985, e a viver em Londres, Amadeo trabalha entre a pintura, a poesia e a fotografia. A herança cabo-verdiana e a vivência da diáspora negra atravessam toda a obra, em que as mulheres negras, presença determinante nas estruturas familiares e afetivas que o acompanham desde sempre, ocupam o centro. As telas nascem da sobreposição de carvão, serigrafia, acrílico, papel artesanal, transfers e desenho à mão. Em Retratos de Ausência, juntou a essas camadas a terra das ilhas.

"A memória passa também por aquilo que podemos tocar"

Amadeo Carvalho

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Trabalhar com matéria que foi buscar pessoalmente mudou a relação com a pintura. “Cria uma ligação física com esses lugares”, contou à BANTUMEN. “A terra tem uma textura, um peso e um comportamento que interferem com aquilo que faço. Misturo, acrescento, retiro, e a superfície vai-se transformando”, explica. O processo é de observação. “Quando o pigmento está molhado, tem uma determinada cor, textura e presença. Quando seca, essas qualidades mudam e gosto de observar o que acontece e de descobrir como fica a superfície”, acrescenta.


É assim que a paisagem entra nos quadros, participando “na construção dos rostos, nas marcas e nas zonas que ficam mais expostas ou escondidas”. “Para mim, isso aproxima o território do corpo: ambos guardam vestígios do que viveram. A memória passa também por aquilo que podemos tocar”, diz.


Muitas vezes, Amadeo começa a pintar sem saber o que vai encontrar. Ao retirar matéria, surge uma marca. Ao acrescentar uma camada, algo fica escondido. Descreve esse gesto de escavar como uma tentativa de desenterrar o que existe entre a sua identidade e as memórias partilhadas, e reconhece nessa alternância entre revelar e ocultar a forma como a própria memória funciona.


 Nos retratos, o rosto torna alguém presente sem desvendar o seu passado. Pode sentir-se uma ligação imediata com uma figura e continuar sem saber nada da sua história. É nessa distância entre o que se vê e o que fica inacessível, seja uma pessoa que já partiu, seja uma história de que restam fragmentos, que mora a ausência do título.


Apesar de a exposição falar de circulações lusófonas, o artista evita definir uma única “memória coletiva lusófona”, pela diversidade de vivências que cruzam esse espaço. Prefere partir do que conhece em primeira mão e deixar que a pintura funcione como uma pergunta sobre o que herdámos, o que deixámos para trás e o que continuamos a transportar.


No Carreau du Temple, o stand de 16 metros quadrados foi pensado como um percurso contínuo pelas quatro paredes. Amadeo levou 61 obras, mas mostrou-as em rotação, com 16 retratos A4 emoldurados e cerca de quatro telas de grande formato expostos de cada vez e as restantes reunidas num portefólio para colecionadores. “Esta escolha permite-nos dar espaço a cada obra e criar uma relação entre a intimidade dos pequenos retratos e a presença física das telas maiores”, explicou antes da abertura. “Interessa-me que o olhar de cada pessoa possa mudar de escala, aproximar-se de um rosto e depois recuar para perceber o conjunto. Há uma continuidade visual, mas cada rosto pede uma atenção própria”, continuou.


Essa atenção ao tempo que cada obra pede vem da música. Antes da pintura, Amadeo foi DJ em Londres. “A música ensinou-me a prestar atenção ao ritmo e à forma como elementos diferentes se relacionam. Enquanto DJ, estava constantemente à escuta: procurava perceber quando prolongar um momento, introduzir uma mudança ou deixar espaço”, recorda. “Na pintura, reconheço uma atenção semelhante nas relações entre cores, texturas, repetição e pausa”, compara.

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A pintura deu-lhe também um lugar para o que ainda não tem nome. “Dá-me um tempo próprio para lidar com aquilo que sinto. Há coisas que consigo trabalhar através do gesto e da matéria antes de conseguir explicá-las por palavras”, diz. “Nesse sentido, reconheço essa dimensão de cura, de encontrar algum equilíbrio enquanto trabalho”, admite. A mesma sensibilidade acompanha-o noutros projetos, como a Nöbōh Kulturē, marca de moda de que é diretor criativo e com a qual criou, por exemplo, uma t-shirt de homenagem a Cesária Évora.


O convite para Paris partiu da Casa Vicência, mas a relação com Émilie Silva vem de antes. A curadora acompanhou de perto Mandinga: Uma Paródia Mal Contada, a exposição individual que Amadeo inaugurou em 2023 no Centro Cultural de Cabo Verde, em Lisboa, durante as celebrações do Dia Nacional da Cultura e das Comunidades cabo-verdianas, e a participação na X Bienal de Arte e Cultura de São Tomé e Príncipe, em 2024. “A Émilie conhece o meu percurso de muito perto e mantenho com ela uma conversa íntima e contínua sobre o trabalho”, conta. “Muitas vezes, começo por uma imagem, uma sensação ou uma experiência com a matéria. O olhar dela ajuda-me a aprofundar perguntas e a perceber relações que ainda não tinha conseguido formular”, explica. É também nessas conversas que entram as questões sociais e identitárias que atravessam a obra e que, em Mandinga, ganharam um lugar mais explícito. “Valorizo muito a possibilidade de ela me questionar e há confiança para discordar, rever e desenvolver ideias”, acrescenta.


A AKAA foi a primeira feira de arte de Amadeo em Paris, e o artista viu-a como uma forma de dar tempo e espaço ao trabalho. “Um stand individual permite acompanhar uma pesquisa, perceber as relações entre as obras e entrar no meu universo com mais profundidade”, afirma. “Cabo Verde faz parte da minha experiência e atravessa aquilo que produzo e, ao mesmo tempo, quero que a pintura possa estabelecer relações com pessoas de diferentes lugares, através da memória, da ausência, da família ou do reconhecimento de um rosto”, continua.


Paris soma-se a um percurso que, nos últimos anos, passou por Cabo Verde, Portugal, São Tomé e Príncipe, África do Sul e Estados Unidos. Em 2026, Amadeo esteve na FNB Art Joburg, em Joanesburgo, com a galeria THIS IS NOT A WHITE CUBE, e fez uma residência artística no Pacific Northwest College of Art, em Portland. Em 2025, criou uma obra para Adilson, a ópera de Dino d’Santiago apresentada no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Os seus trabalhos integram as coleções do Ministério das Finanças de Cabo Verde, do Município de Loulé, do Museu CACAU, em São Tomé, e da Associação Mundu Nobu, e em 2024 foi distinguido na POWERLIST100 da BANTUMEN. “Essas experiências têm-me permitido encontrar outros artistas, conhecer diferentes formas de trabalhar e perceber como a minha pintura é recebida fora dos contextos que me são mais próximos. Também me dão distância para voltar ao trabalho com novas perguntas”, diz.


A presença em Paris, sublinha, faz parte de um caminho que não é só seu. “Tudo isso reforça a minha vontade de ver mais artistas ligados a Cabo Verde a circular com continuidade. Há práticas e percursos muito diferentes que merecem ser conhecidos”, defende. “Sinto que essa presença pode crescer com oportunidades de produção, investigação e apresentação que acompanhem os artistas ao longo do tempo”, conclui.

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