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Revolucionário, engenheiro agrónomo, humanista e panafricanista: Amílcar Cabral foi um dos principais artífices das independências da Guiné-Bissau e de Cabo Verde e fundador do PAIGC, o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde. Pertence à mesma geração de líderes africanos que Kwame Nkrumah e Patrice Lumumba, que transformaram profundamente o século XX em África, embora a sua importância ultrapasse em muito o marco das lutas anticoloniais. É essa dimensão mais ampla do seu pensamento que a MansA, Maison des Mondes Africains, em Paris, coloca agora no centro de uma exposição: "Amílcar Cabral: por um humanismo radical", patente de 16 de outubro a 13 de dezembro. A exposição conta com a parceria editorial da BANTUMEN.
Cinquenta anos depois do seu assassinato, e num momento em que as sociedades enfrentam desafios de soberania, desigualdades mundiais, deslocamentos populacionais e crises ecológicas, a instituição defende que a obra de Cabral continua a oferecer ferramentas para pensar os elos entre cultura, poder e liberdade. A contrapelo das leituras que reduzem a descolonização a uma conquista política, Cabral afirmava que nenhuma libertação se conseguia sustentar no tempo sem uma reapropriação cultural. Para ele, as línguas, as narrativas, os saberes, as práticas artísticas e as memórias coletivas constituíam terrenos decisivos de emancipação, tão importantes quanto qualquer conquista territorial ou institucional. É essa intuição que, segundo a MansA, encontra hoje uma ressonância singular, num mundo atravessado por debates sobre identidade, memória, justiça social, lutas por emancipação e a relação entre os seres humanos e o ambiente. A sua influência ultrapassou largamente as fronteiras africanas, inspirando gerações de investigadores, artistas, militantes e pensadores em todo o mundo, entre os quais Angela Davis.
É a partir dessa reflexão que nasce a exposição, concebida por Armelle Dakouo e Ângela Benoliel Coutinho, a partir de uma ideia original de Paula Nascimento. No seu centro está uma das ideias mais marcantes de Cabral: a de que a cultura não é um simples património a preservar, mas uma força capaz de transformar a sociedade e tornar possível a emancipação coletiva. As curadoras exploram a forma como esse pensamento continua a circular, a transformar-se e a inspirar novas gerações, evitando deliberadamente uma leitura comemorativa. Mais do que uma homenagem, a mostra propõe examinar o legado de Cabral como um espaço vivo de criação e transmissão, cujos ecos continuam a atravessar os campos político, cultural e intelectual em toda a África e nas suas diásporas.
Para prolongar, reinventar e transcender esse legado, a exposição reúne nove artistas, representando a Guiné-Bissau, o Senegal, Cabo Verde, Portugal e outros espaços da lusofonia africana: Nú Barreto, Diogo Bento, Filipa César, Mónica de Miranda, Bento Oliveira, Hamedine Kane e Yuran Henrique, além de Sónia Vaz Borges e Sarah Maldoror. Segundo a MansA, nenhum destes artistas procura ilustrar as ideias de Cabral; o que fazem, antes, é interrogar as suas ressonâncias contemporâneas, tensões e possíveis prolongamentos. Os filmes de Sarah Maldoror, pioneira do cinema engajado e próxima dos movimentos de libertação africanos, funcionam como um dos fios condutores do percurso, cruzando-se com arquivos, obras contemporâneas e pensamento crítico ao longo da exposição. O convite que a mostra faz é, no fundo, o de deixar de olhar para Cabral como uma figura congelada na história, para passar a vê-lo como interlocutor para pensar o presente e imaginar outros futuros.
Ao completar o primeiro ano de existência, a MansA inaugura com esta mostra aquilo que descreve como uma exposição manifesto, uma escolha que resume a ambição da própria instituição: fazer da cultura um espaço de reflexão, criação e debate, em diálogo com os grandes temas contemporâneos. Como prolongamento da exposição, está prevista uma programação pluridisciplinar, com concertos, projeções, encontros, debates e sessões de escuta coletiva, que deverá explorar os patrimónios culturais da Guiné-Bissau e de Cabo Verde ao mesmo tempo que prolonga os grandes eixos do pensamento de Cabral: o panafricanismo, as políticas da memória, os feminismos, as questões ecológicas e as relações entre cultura, emancipação e transformação social. A instituição não avançou, para já, datas ou nomes concretos para essas sessões.
A MansA, Maison des Mondes Africains, define-se como uma instituição cultural que atua a partir de Paris para produzir, documentar e facilitar a circulação das culturas contemporâneas africanas e afrodiaspóricas pelo mundo. Concebida como espaço de criação, pensamento e debate, reúne artistas, intelectuais e investigadores numa programação pluridisciplinar atenta às transformações estéticas, políticas e sociais da atualidade, com o objetivo de promover novas narrativas, valorizar patrimónios pouco conhecidos e contribuir para a estruturação de um campo crítico a partir dos Mundos Africanos e das suas diásporas.
"Amílcar Cabral: por um humanismo radical" está patente de 16 de outubro a 13 de dezembro de 2026, na MansA, Maison des Mondes Africains, na 26 rue Jacques Louvel-Tessier, em Paris. O horário de funcionamento é de quinta-feira a domingo, das 14h às 19h, e a entrada é gratuita, mediante reserva no site mansa.fr.

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