Cabral pensava em crise climática antes do termo existir. Paris dedica-lhe agora uma exposição

11 de Setembro de 2026
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Amílcar Cabral | DR

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Entre 16 de outubro e 13 de dezembro, a MansA, Maison des Mondes Africains (Casa dos Mundos Africanos), em Paris, dedica uma exposição a Amílcar Cabral (1924-1973), fundador do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) e uma das figuras centrais das lutas de libertação em África lusófona. "Amílcar Cabral: Pour un humanisme radical", que se pode traduzir como "Por um humanismo radical", reúne nove artistas contemporâneos de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola, Senegal e Portugal em diálogo com o pensamento do agrónomo, engenheiro e revolucionário. A BANTUMEN é parceira editorial desta exposição, para a divulgação do cartaz e da programação.


Concebida pela curadora burquinabé Armelle Dakouo e pela investigadora cabo-verdiana Ângela Benoliel Coutinho, a partir de uma ideia original da curadora angolana Paula Nascimento, a mostra parte de uma leitura pouco óbvia de Cabral, a de pioneiro de um pensamento ecológico. Segundo a nota curatorial, Cabral teorizava já nos anos 1960 sobre questões que hoje se discutem sob outros nomes, pós-colonialismo, soberania cultural, ecologia descolonial, e via o solo, a arte e a cultura não como periferia do combate político, mas como o seu centro. Antes de fundar o PAIGC em 1956, ainda sob domínio colonial português na Guiné e em Cabo Verde, Cabral tinha investigado como agrónomo a erosão dos solos cabo-verdianos e desenvolvido trabalho de campo junto de comunidades rurais em Angola e na Guiné-Bissau, uma base científica que viria a moldar toda a sua conceção de libertação nacional como transformação profunda de sociedades, culturas e consciências, não apenas conquista de independência política.


É essa dupla natureza, revolucionário e cientista, que os curadores tentam recuperar. "Defender a terra é defender o humano", lê-se numa das citações de Cabral destacadas na nota curatorial da exposição, uma frase que resume a tese central da mostra, a de que pensar a terra e pensar a libertação dos povos nunca foram, para Cabral, questões separadas. A organização recorda ainda que a influência do seu pensamento atravessou continentes e gerações, de Thomas Sankara a Angela Davis, e que alguns académicos falam hoje de uma "Renaissance Cabral", à medida que a cultura volta a ser, em várias partes do mundo, terreno de resistência e de mobilização.


Entre os nove artistas convidados a dialogar com essa herança estão Nú Barreto, nascido em 1966 na Guiné-Bissau e radicado em Paris, cuja obra "Cronologicamente Cabral" cruza desenho e retrato; Diogo Bento, fotógrafo entre Lisboa e São Vicente, com a série "Cabral Ka Mori" ("Cabral não morreu", em crioulo cabo-verdiano); Filipa César e Sónia Vaz Borges, que assinam em conjunto "Navigating the Pilot Schools", sobre as escolas-piloto criadas durante a luta de libertação na Guiné-Bissau; Yuran Henrique, nascido em 1993 em Mindelo, Cabo Verde, com a série de pintura "Untitled Orunmilá"; Hamedine Kane, artista e realizador senegalês-mauritano, com uma instalação em díptico; Mónica de Miranda, artista, cineasta e investigadora portuguesa de origem angolana que representou Portugal na Bienal de Veneza de 2024, presente com "Greenhouse"; e Bento Oliveira, nascido em 1973 em Santo Antão, Cabo Verde, cuja obra "Pele" trabalha o tecido e a memória.


A presença mais simbólica é talvez a de Sarah Maldoror (1929-2020), realizadora pioneira e companheira de luta de Cabral, cujos filmes documentais dos anos 1979 e 1980, "Fogo, Île de Feu", "Carnaval dans le Sahel" e "À Bissau, le Carnaval", habitam a exposição como presença fundadora. Os três retratam, respetivamente, uma lenda popular na ilha do Fogo, em Cabo Verde, os preparativos do carnaval de Mindelo e o carnaval de Bissau após a independência da Guiné-Bissau em 1974, sempre com o mesmo fio condutor, a cultura popular como forma de resistência à dominação colonial.


O universo sonoro da exposição foi encomendado a Rocé, rapper e produtor francês de origem argelina, filho do resistente e militante anticolonialista Adolfo Kaminsky, especialista em investigação e recuperação de repertórios musicais africanos e afrodiaspóricos ligados às lutas de independência.


À exposição junta-se um programa cultural alargado até ao encerramento. Em outubro e novembro há três debates, sobre Cabral e a agricultura regenerativa, sobre a cultura como instrumento de libertação e sobre feminismos nas lutas de libertação africanas, além de uma "Veillée Sonore" com Marya Andrade a 19 de novembro e um debate sobre a atualidade cabo-verdiana a propósito das eleições presidenciais de 2026, a 26 de novembro. O ciclo CinéMansA leva a Paris quatro filmes ligados ao tema, entre eles "Sou um Simples Africano", de Flora Gomes, sobre o papel de Cabral na libertação da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, e "Cuba, uma Odisseia Africana", de Jihan El Tahri, sobre o papel de Cuba nas lutas de libertação africanas. A programação encerra a 13 de dezembro com um espetáculo ao vivo de "tina", repertório musical tradicional das mulheres da Guiné-Bissau.


A exposição é gratuita e está patente de quinta-feira a domingo, das 14h às 19h, mediante reserva através do site do MansA, no 26 rue Jacques Louvel-Tessier, no 10º arrondissement de Paris, junto ao metro Goncourt ou República.

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