Amílcar Cabral em Paris. A luta pela dignidade continua na MansA

17 de Outubro de 2026
Amílcar Cabral em Paris. A luta pela dignidade continua na MansA

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Na inauguração de Amílcar Cabral: por um humanismo radical, a BANTUMEN ouviu artistas, curadoras e a direção da MansA (Casa dos Mundos Africanos) sobre o que o pensamento do revolucionário ainda tem para dizer ao presente. Entre arquivos, criação contemporânea e música, a exposição aproxima a memória das independências das perguntas que continuam por resolver.


“Cabral sempre lutou pela dignidade.” Nú Barreto regressa a esta ideia quando explica à BANTUMEN a sua participação na exposição dedicada a Amílcar Cabral, na MansA (Maison des Mondes Africains), em Paris. Para o artista guineense, a importância desse legado mede-se também pelo que vê à sua volta: o crescimento dos extremismos e a persistência de formas de dominação que tornam a liberdade uma tarefa inacabada. “Ainda falta muito para fazer”, afirma.


Foi com estas perguntas sobre o presente que a BANTUMEN acompanhou, enquanto parceira de media, a inauguração de Amílcar Cabral: por um humanismo radical, patente ao público de 16 de outubro a 13 de dezembro de 2026. Com curadoria de Armelle Dakouo e Ângela Benoliel Coutinho, a partir de uma ideia original de Paula Nascimento, a exposição reúne nove artistas. O ponto de encontro é o pensamento de Cabral e a forma como continua a alimentar a criação, a investigação e os debates sobre emancipação.


Elisabeth Gomis, diretora-geral da MansA, conta que encontrou Paula Nascimento na Bienal de Veneza, em 2024, no ano do centenário do nascimento de Cabral. A curadora angolana falou-lhe de uma exposição que procurava concretizar e que gostaria de apresentar na capital francesa. Gomis comprometeu-se então a acolhê-la quando a MansA tivesse um espaço. Assim que isso aconteceu, retomou o contato. A indisponibilidade de Nascimento para acompanhar esta etapa levou ao convite a Armelle Dakouo, que trabalhou com Ângela Coutinho na reformulação do projeto para o contexto francês.


Para Gomis, a escolha respondia a uma lacuna de reconhecimento. Na sua leitura, o público francês está mais familiarizado com figuras como Thomas Sankara e Patrice Lumumba do que com Cabral, apesar do lugar decisivo deste nas lutas de libertação africanas. Apresentá-lo na MansA permitia alargar esse horizonte. “Não queremos ficar apenas na zona francófona”, explica à BANTUMEN. A atenção às histórias de língua portuguesa integra, assim, a ambição de uma instituição que procura trabalhar as culturas africanas na sua pluralidade.


Por sua vez, Armelle Dakouo explica que a investigação de Paula Nascimento e Ângela Coutinho já vinha de 2024, mas a produção desta versão ganhou forma na primavera de 2026. Foi necessário repensar o título, o enquadramento e os instrumentos de aproximação a visitantes que poderiam desconhecer Cabral. A curadora destaca o trabalho de mediação com os mais jovens e a preparação de um catálogo, pensado também como registo de consulta num contexto em que identifica uma circulação limitada de textos em francês.


Os arquivos atravessam boa parte das propostas artística e Dakouo aponta essa relação com as memórias das independências como um dos elementos comuns aos participantes, entre os quais propôs incluir o senegalês Hamedine Kane. A exposição reúne ainda Nú Barreto, Diogo Bento, Filipa César, Mónica de Miranda, Bento Oliveira, Yuran Henrique, Sónia Vaz Borges e Sarah Maldoror. Desenho, fotografia, instalação e vídeo permitem aproximações distintas à figura de Cabral. Para a curadora, cada singularidade ajuda a descobrir outros aspetos do seu pensamento, incluindo questões de ecologia, cultura, educação e igualdade que continuam a atravessar a vida contemporânea.


A imagem trabalhada por Nú Barreto e utilizada na comunicação da exposição resulta de uma intervenção sobre um retrato cuja autoria original, sublinha, não conseguiu identificar, apesar das pesquisas realizadas. O seu gesto consistiu em cortar e inverter a fotografia. A obra serviu de ponto de partida para uma exposição que apresentou em Cabo Verde, em 2024, por ocasião do centenário de Cabral.


Ao explicar esse trabalho, Barreto fala das disputas de pertença em torno do líder e das leituras que o procuram reclamar exclusivamente para uma identidade nacional. O que lhe interessa nessa discussão é a possibilidade de regressar às prioridades da luta. “O que importa para mim é esta liberdade, a dignidade”, diz. É também nessa continuidade que situa a sua prática artística: uma maneira de assumir e transmitir uma herança política que considera ainda necessária.


Para Ângela Benoliel Coutinho, a relação com essa história tem uma dimensão pessoal. Na intervenção que fez na inauguração, a investigadora recordou ter nascido sob o colonialismo e ter demorado a compreender o significado dessa condição. Relacionou a sua própria liberdade política com o movimento dirigido por Cabral. Esse posicionamento acompanha a pergunta que orientou o projeto: o que pode um pensador e revolucionário da África Ocidental oferecer às sociedades da Europa contemporânea? A resposta que a investigadora procura construir passa pelo encontro entre gerações, artes, investigação académica e ativismo. A curadora descreveu o processo de trabalho com a equipa da MansA como exigente, assente na escuta e na troca de propostas. Apresentar o resultado em Paris tem ainda um significado particular para quem realizou o doutoramento na cidade. A exposição torna-se, nesse percurso, um lugar onde a investigação histórica pode encontrar outros públicos e outras formas de transmissão.


Essa transmissão também se faz pela música. A MansA convidou o rapper e produtor Rocé a criar o universo sonoro da exposição. Gomis conta que a encomenda inicial previa cerca de 40 minutos, mas o resultado chegou às duas horas: o artista continuou a encontrar material que queria incluir. Discursos de Amílcar Cabral, músicas e cantos revolucionários aproximam o visitante das paisagens sonoras das lutas de independência. Para a diretora, dar uma nova audiência a esses registos, alguns raros, é uma parte importante da experiência.


Quando lhe perguntamos que ideia de Cabral gostaria que cada visitante levasse consigo, Gomis destaca a participação das mulheres na luta e nos lugares de decisão. Recorda uma carta dirigida pelo revolucionário a uma sobrinha, na qual encontrou a proximidade afetiva de um tio e o incentivo à autonomia de uma mulher. É essa articulação entre relações pessoais e transformação política que retém: a liberdade exige também que as mulheres possam decidir e exercer poder.


A presença da BANTUMEN na inauguração inscreve-se igualmente numa reflexão sobre circulação e reconhecimento. Nas declarações registadas em Paris, os cofundadores Eddie Pipocas e Vanessa Sanches associam a parceria à vontade de aproximar públicos e agentes culturais de diferentes geografias africanas e das diásporas. Eddie aponta a ambição de desenvolver projetos curatoriais e de ampliar essas ligações através do MIA (Mês da Identidade Africana). Vanessa destaca a importância de encontrar uma instituição pública dedicada às culturas africanas, vendo nesse espaço uma referência para o que a BANTUMEN procura construir.


A MansA prolonga a exposição com uma programação de debates, cinema e música mas é na preocupação com o que se transmite que as diferentes vozes ouvidas na inauguração se encontram. Nú Barreto escolhe terminar a conversa evocando a responsabilidade de ensinar e a necessidade de continuar a aprender. Para o artista, conhecer as origens e compreender a luta são tarefas que passam de uma geração para a seguinte. A exposição oferece-lhes agora um novo lugar de encontro em Paris.


Amílcar Cabral: por um humanismo radical pode ser visitada na MansA, no número 26 da rue Jacques Louvel-Tessier, em Paris, até 13 de dezembro de 2026. Abre de quarta-feira a domingo, das 14h às 19h, com última entrada às 18h15. A entrada é gratuita, mediante reserva em mansa.fr.


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