Ângela Feijó apostou em Angola e criou um Escape Room nada convencional

11 de Março de 2026
angela feijo escape room
Ângela Feijó | ©BANTUMEN

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A maioria das pessoas estuda para ocupar lugares previsíveis. Depois, há uma pequena percentagem da população que estuda para, um dia, ter a coragem de sair deles. É o caso de Ângela Maria Feijó, empreendedora angolana, fundadora do Escape Room Angola. Para desanuviar da tensão do dia a dia, o espaço é onde grupos de amigos, famílias, casais ou equipas empresariais entram numa sala temática e têm cerca de 60 minutos para resolver enigmas, decifrar pistas e cumprir uma missão.


Ângela Maria Feijó fez o secundário em Lisboa, licenciou-se em Direito, passou pela Universidade Católica, especializou-se em contratos internacionais nos Estados Unidos, fez petróleo e gás em Aberdeen, na Escócia, e ainda aprofundou mediação e arbitragem na Alemanha. “Estudei para caraças…”, diz-nos.


Regressou a Angola no auge dos chamados “anos dourados” - entre os anos 2010 e 2015, determinada a contribuir para o país. “Cheguei com aquela ideia de “vou mudar isto tudo. Onde eu tocar, vai ser sempre para melhorar.” Trabalhou na área jurídica de uma petrolífera, fez um estágio de advocacia e rapidamente sentiu o peso da burocracia quotidiana.

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“Quero que as pessoas saiam com orgulho. Estamos em África e temos exatamente a mesma experiência que alguém nos Estados Unidos ou na Europa”


Ângela Feijó

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Ângela Feijó | ©BANTUMEN

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Ângela Feijó | ©BANTUMEN

Entre Angola e Portugal, Ângela foi acumulando uma certeza: precisava de criar algo que não dependesse da validação de ninguém. O Escape Room Angola - Game Over nasce desse momento de viragem. Uma franquia internacional, sim, mas com equipa cem por cento angolana e uma ambição clara de oferecer a Luanda uma experiência que existe “no mundo inteiro”. “Quero que as pessoas saiam com orgulho. Estamos em África e temos exatamente a mesma experiência que alguém nos Estados Unidos ou na Europa.”


Começaram em agosto. Sete meses depois, ainda estão a aprender o comportamento do mercado. “Tivemos um janeiro muito mais lucrativo do que dezembro. Na nossa cabeça, dezembro seria o melhor mês mas estamos a perceber que todos os meses são diferentes.”


E engana-se quem pensa que o espaço é dedicado apenas a lazer. As salas - com temas que vão do universo de Harry Potter ao terror psicológico - tornaram-se também ferramentas de leitura comportamental. “Conseguimos perceber quem é o líder natural, quem comunica melhor sob stress, quem traz calma no meio do caos e quem quer desistir.” Em parceria com coaches, transformaram a experiência em plataforma de team building. “Em Angola, team building é ir ao Mussulo ou chamar um coach para falar. Nós juntámos o útil ao agradável.”


Ainda assim, apesar do vazio nacional nesta área do entretenimento, inovar num país como Angola exige resistência diária. “Somos os únicos no mercado, mas isso não significa facilidade. Temos quatro salas. Se um cliente já foi às quatro, temos de inovar para o trazer de volta.” E é justamente por isso que o atendimento tornou-se numa obsessão. “Não temos o lema de que o cliente tem sempre razão mas o cliente merece ser bem tratado. E isso, infelizmente, ainda não é regra em muitos sítios.”

Ser mulher num setor “de homens”


Ângela lidera um negócio que envolve construção, eletrónica, informática, e logística. “É um tipo de negócio onde as pessoas estão habituadas a ver homens à frente.” Nas reuniões, percebe expetativas deslocadas porque “às vezes estão à espera de outra atitude, outra pessoa. Tens de ter pulso firme. Temos de sair do papel de princesas fofinhas.”


No recrutamento, o desafio também é estrutural. O funcionamento das salas depende de tecnologia e suporte em inglês. “Temos pessoas licenciadas. Esquecemos a lógica de primeiro emprego porque precisamos de responsabilidade e competências específicas.” A gestão da equipa, diz, é um exercício constante de equilíbrio e motivação.


O plano não é multiplicar espaços em Luanda, mas levar o conceito a outras províncias. “Temos muito essa ideia de que quando falamos de Angola estamos a falar só de Luanda. E não é assim.” A expansão está no horizonte, assim como a criação de novas áreas dentro do próprio negócio. “Queremos ter algo que se coma, algo que se beba. O negócio está a criar outras pernas.”


A visão é pragmática: olhos abertos para oportunidades, mas consciência das limitações. “Não tem como estar completamente fechado só a uma perspetiva.”


A história empresarial de Ângela cruza-se inevitavelmente com a sua história pessoal. A viver entre Angola e Portugal e mãe de dois filhos, vive atualmente um processo de regresso a Angola que é também uma decisão identitária. “Portugal foi casa durante muitos anos. Construí aqui, cresci aqui. Mas houve um momento em que percebi que casa não é apenas onde vivemos, é onde nos reconhecemos. Como mãe, não posso ignorar o que é invisível. Os meus filhos precisam de referências que os espelhem, de contextos onde a sua identidade não seja exceção, mas continuidade. A representatividade não é um detalhe. É estrutura emocional. E há decisões que não podem esperar. Se não lhes proporcionar agora uma ligação real às suas raízes, quando o farei. No fim, é sobre ancestralidade. Sobre garantir que crescem com consciência da sua história, firmes naquilo que são e seguros no espaço que ocupam. Até aos doze anos, os pais ainda têm muita intervenção depois é a sociedade. Se eu não passar as bases agora, depois é mais difícil.”


Essa consciência social e identitária atravessa tudo o que Ângela faz. Do direito ao escape room, da advocacia à liderança, da frustração institucional à criação de um espaço onde as pessoas entram para resolver enigmas e saem a respirar melhor. “Luanda é uma cidade muito intensa”, diz. “Dentro daquela sala, durante uma hora, é como se estivesses dentro de um filme porque consegues aliviar o stress, sair do sufoco do dia a dia.”


Talvez seja isso. Depois de atravessar sistemas que pareciam labirintos sem saída, Ângela Feijó decidiu criar um onde, pelo menos, há sempre uma solução escondida à vista de quem insiste em procurar. E às vezes, a saída não é fugir. É construir.

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