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Meio século após a ruptura política com Lisboa, em 1975, Angola enfrenta um paradoxo de soberania. Embora o país detenha o controlo formal das suas fronteiras e instituições, a autonomia real, definida pela capacidade de autodeterminação económica e estratégica, permanece um projeto por concluir. A análise dos indicadores económicos e sociais revela um Estado que, ao invés de eliminar a dependência, apenas alterou a sua natureza, migrando da submissão colonial para a submissão às commodities. Este cenário replica-se nas referências culturais, na importação de modelos de pensamento e na utilização de infraestruturas digitais que o país não controla.
As amarras que limitam a soberania nacional foram normalizadas e são frequentemente defendidas em nome de uma estabilidade que, na prática, serve para proteger os interesses instalados e evitar reformas dolorosas sob o pretexto de impedir o caos. Angola, enquanto nação independente, nasceu de um parto difícil, num contexto de guerra e fruto de uma ruptura sem transição institucional. O novo Estado herdou uma economia desestruturada e um capital humano limitado pelas assimetrias coloniais. A urgência de afirmar a soberania e garantir o controlo político moldou um modelo de governação centralizador que, aliado à estatização da economia e ao petróleo, gerou um país formalmente independente, mas organicamente vulnerável.
Do ponto de vista económico, a vulnerabilidade reside na incapacidade de diversificação. Contrariamente à retórica oficial de transformação industrial, os dados do Banco Nacional de Angola para o terceiro trimestre de 2025 evidenciam um cenário diferente no qual o petróleo continua a representar cerca de 92% das exportações totais. Embora as projeções de crescimento do BNA para 2026 posicionem o setor não petrolífero como o maior impulsionador do PIB com 4,5% contra 1,1% do sector petrolífero, a realidade impõe cautela. Esta concentração excessiva expõe o Orçamento Geral do Estado à volatilidade dos mercados internacionais de energia e deixa a promessa da independência económica por cumprir. Na prática, o petróleo continua a ser a única variável capaz de sustentar as projeções de receitas com alguma eficiência.
Para cobrir as muitas despesas não asseguradas pelas receitas petrolíferas, recorre-se ao endividamento. Deste modo, o Estado atua mais como gestor de passivos do que como promotor de desenvolvimento. Ao absorver a liquidez bancária disponível para financiar a dívida, o setor público provoca um efeito de asfixia no crédito à iniciativa privada, bloqueando o surgimento da classe empresarial necessária para diversificar a economia. Essa asfixia é evidente na margem de manobra fiscal, visto que as projeções do OGE para 2026 indicam que o serviço da dívida pública consumirá cerca de 45,9% da despesa total. Com metade do orçamento cativo para pagar compromissos passados, o investimento em setores de crescimento futuro tais como educação, saúde e tecnologia torna-se residual.
O sintoma mais agudo desta falha estrutural manifesta-se no mercado de trabalho. Com uma taxa de desemprego geral situada nos 26,9%, a disfunção agrava-se ao analisar a demografia, onde mais de 48,7% dos desempregados se situam na faixa etária dos 15 aos 24 anos. Numa economia moderna, a juventude constitui o principal ativo de inovação. Em Angola, a incapacidade de absorver esta força de trabalho transforma o bónus demográfico num passivo social e político. O Estado consolidou-se como o grande patrão, mas falhou em estimular uma base produtiva real.
A fragilidade industrial é gritante e sente-se na mesa de cada cidadão. Num país vasto e rico, a soberania alimentar depende ironicamente de navios atracados no Porto de Luanda. Importa-se o frango, a massa, o óleo e até a embalagem, e deixa-se o poder de compra das famílias refém de qualquer flutuação cambial ou crise logística global. Somos ricos em recursos, mas pobres em autonomia. No plano cultural, o cenário repete-se. Angola afirma com orgulho a sua identidade, mas falha em converter essa força em poder económico. O financiamento da cultura no orçamento representa menos de 1% da despesa total. Embora a produção cultural seja entusiástica nos bairros, mantém-se fragmentada e dependente de validação externa. O resultado é uma vitalidade criativa que gera riqueza para plataformas estrangeiras – que dominam mais de 70% das audições no mercado interno – e que não garante a sustentabilidade financeira dos criadores nacionais.
Contudo, mais profunda e menos visível é a dependência mental. Angola continua a pensar o seu desenvolvimento a partir de modelos importados e desajustados da realidade histórica e social. Nos corredores do poder, relatórios de consultoras internacionais são frequentemente aceites como dogmas, enquanto o saber da academia e dos técnicos nacionais é ignorado. Confia-se mais numa estratégia desenhada em Lisboa, Londres ou Washington do que numa solução gerada no Lubango ou em Luanda. Esta prática drena divisas em pagamentos de serviços especializados, impede a acumulação de conhecimento institucional e perpetua a necessidade de alugar competência técnica para gerir os próprios recursos.
Por fim, e à luz dos tempos que vivemos, a independência digital surge como a nova fronteira da soberania. Angola acelera a adoção tecnológica, mas fá-lo sobretudo como consumidora passiva. Não controlamos a nuvem onde residem os nossos segredos de Estado nem os cabos que nos ligam ao mundo. Infraestruturas, sistemas financeiros e dados estratégicos dos cidadãos permanecem alojados em servidores noutros continentes. Sem uma estratégia clara de soberania digital, o país corre o risco de substituir antigas dependências por novas, invisíveis e geridas por algoritmos alheios às prioridades nacionais.
Os Heróis Nacionais libertaram o território e abriram a porta da história. À geração atual cabe a responsabilidade distinta, mas igualmente decisiva, de concluir o processo. A independência que falta já não se conquista com armas nas matas, mas com escolhas difíceis nos gabinetes e nas escolas. Exige romper com o vício da importação, transformar identidade em valor de mercado e ter coragem intelectual para confiar no saber interno. A questão central já não é se Angola pode ser plenamente independente, mas se a sua elite e a sua sociedade estão dispostas a assumir os custos reais dessa independência. Porque, cinquenta anos depois, a maior ameaça ao futuro do país não é a ausência de liberdade, mas a confortável acomodação à dependência.
"Trocámos a submissão colonial pela submissão às commodities. As amarras já não são impostas de fora, são reproduzidas internamente."
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