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“Bismillah” é uma expressão de origem árabe, utilizada pelas comunidades muçulmanas antes de iniciarem diversas atividades do quotidiano ou como interjeição que expressa estados de espírito. Significa literalmente “em nome de Deus”.
Nas recentes mobilizações estudantis em França por melhores condições de ensino, a expressão popularizou-se como uma das palavras de ordem, aparecendo em vários cartazes sob a fórmula “Bismillah, c’est les ténèbres !”. A associação absurda deste termo às trevas terá surgido em mensagens que circularam em grupos do Snapchat, atribuídas a polícias infiltrados. Apresentando-se como “Mamadou” ou “Abdellah”, nomes frequentemente utilizados por racistas para designar genericamente homens africanos de origem subsaariana ou magrebina, os alegados agentes misturaram nas mensagens emojis da bandeira argelina e expressões como “wallah”, cujo uso parte da elite francesa lê como inculta. O tiro saiu, contudo, pela culatra: a fórmula acabou por ser apropriada pelos próprios manifestantes e devolvida ao espaço público sob a forma de sátira política.
O episódio e a própria expressão são elementos preciosos para desmistificar algumas das narrativas que a Europa “das Luzes” construiu sobre si mesma e que estas manifestações têm vindo a pôr em causa de forma combativa. Num país com um longo historial de racismo e islamofobia, onde termos ligados ao islão são conotados com o terrorismo, o facto de uma expressão árabe, associada às populações muçulmanas que habitam as zonas periferizadas do país, se ter tornado uma palavra de ordem mostra o poder político não negligenciável da língua e da linguagem. E a expressão não ficou confinada às fronteiras hexagonais, tendo sido partilhada por milhares de pessoas. Este interessante putsch linguístico dá expressão concreta à belíssima formulação do poeta argelino Kateb Yacine, para quem o francês era um despojo de guerra.
“O que une estas jovens vozes é uma profunda precariedade e um sentimento de abandono por parte de um Estado”
Apolo de Carvalho
Juntar o árabe ao francês, ainda que numa formulação caricatural, acabou por ampliar e politizar aquilo que várias gerações, imigrantes e não só, têm feito há muito no coração da sacrossanta língua francesa: plantar novas palavras que fortalecem as comunidades dentro da própria língua dita colonial. Nêgo Bispo ensina-nos que os plantios de palavras são atos de contracolonização.
Penso que as lutas travadas a partir das escolas secundárias francesas são também uma disputa política pela propriedade da língua dita de Molière. E aqui é importante pontuar que, embora a narrativa mais difundida situe o início dos protestos em Créteil, um subúrbio de Paris, as mobilizações em torno das escolas já decorriam nas periferias das periferias: as ainda colónias francesas, denominadas territórios ultramarinos, como Mayotte, onde os protestos começaram no final de agosto, e a Guiana Francesa, onde os alunos se mobilizaram no início de setembro. Tudo isto sob a habitual indiferença de grande parte da imprensa neoliberal.
Sim, a França continua a manter sob o seu jugo vários destes territórios não europeus, incluindo ilhas como Guadalupe e a Reunião, entre muitas outras, desvalorizando inclusivamente as línguas das suas populações. Um dos mais evidentes exemplos deste desprezo linguístico aconteceu no passado dia 28 de setembro, em Guadalupe, onde o prefeito Thierry Devimeux, durante uma discussão com um pescador que se exprimia em crioulo de Guadalupe, retorquiu: “Se me fala em crioulo, é uma falta de respeito para comigo”, exigindo que ele falasse francês.
O que tem tudo isto a ver com as manifestações estudantis? Há no seu interior uma recusa à periferização da palavra dos jovens, sobretudo da juventude negra e árabe. Tanto os bloqueios como a organização de assembleias gerais abrem espaços onde estes jovens, muitos dos quais ainda não têm idade para votar, podem também participar na vida política. Destas iniciativas têm surgido novas vozes liderantes vindas das banlieues prontas a falar por si mesmas. Seydou Ba, um estudante negro de 17 anos e uma das figuras mais ativas das mobilizações liceais, é uma delas. Num potente discurso na Praça da República, em Paris, nas mobilizações de 17 de outubro, dizia: “Sim, a educação é um direito. Sim, viver em condições dignas é um direito. E não, não devemos nada a ninguém por termos outra cor de pele ou outra religião. Somos franceses, ponto final. Temos todos o direito de estudar com dignidade.” Evocando a convocação dos Estados Gerais de 1789, quando os representantes do Terceiro Estado, que abrangia a esmagadora maioria da população francesa, se proclamaram Assembleia Nacional, abrindo caminho à Revolução Francesa, Seydou estabeleceu um paralelo com os atuais bloqueios liceais e anunciou “o nascimento da era da geração Z em França”.
O que une estas jovens vozes, vindas das diferentes periferias francesas, hexagonais ou ultramarinas, é uma profunda precariedade e um sentimento de abandono por parte de um Estado indiferente ao futuro e que, sobretudo, não as reconhece plenamente como cidadãs. As suas reivindicações são concretas: denunciam a falta de professores, as turmas sobrelotadas, a degradação das condições de ensino e as desigualdades no acesso ao ensino superior, nomeadamente através do Parcoursup. Mas expõem também, de forma criativa, a distância entre os grandes princípios republicanos da liberdade, igualdade e fraternidade, que aprendem nas salas de aula, e a realidade das escolas que frequentam. Tal como as gerações que a precederam, muitas delas oriundas do “Terceiro Mundo”, esta nova geração Z, “ignorada, explorada, desprezada, quer, ela também, ser alguma coisa”: ter condições para estudar e ver reconhecida a sua legitimidade enquanto corpo político que sabe o que quer e pode contribuir para pensar a educação.
Neste processo, acrescentam as suas próprias formas de fazer política, apropriando-se de diferentes referências culturais: dos mangas e animes japoneses, como One Piece, Naruto ou Dragon Ball, ao universo da Marvel, passando por acontecimentos históricos que aprendem nas salas de aula, como a Revolução Francesa, e por textos que apelam à insubmissão, como o Discurso da Servidão Voluntária, de Étienne de La Boétie, que faz parte do seu currículo escolar. A estas referências juntam-se símbolos nacionais, como a bandeira, habitualmente capturada pela extrema-direita, e o hino nacional. A interessância do recurso a estes diferentes universos e símbolos, tradicionalmente tidos como contraditórios ou até conservadores, está, a meu ver, na desordem simbólica que provocam no interior das gramáticas políticas clássicas, tanto de esquerda como de direita. Uma espécie de profanação criativa que, ao mesmo tempo, alimenta um campo de afetos no terreno e uma linguagem internacionalista reconhecida e partilhada por jovens de diferentes partes do mundo que têm manifestado a vontade de “fazer como em França”.
“Esta apropriação criativa de diferentes universos fantásticos mostra-nos que o imaginário é também um lugar de existência”
Apolo de Carvalho
A bandeira de One Piece, por exemplo, obra-prima de Eiichiro Oda que aborda de forma original questões como o racismo, a discriminação de género, a tirania e a coexistência entre diferentes formas de vida, tem marcado presença assídua nas mobilizações da geração Z no Nepal, em Madagáscar e noutras partes do mundo, sinalizando outrossim o surgimento de um internacionalismo imaginativo. One Piece começou a ser publicado em 1997 e muitos de nós, millennials, continuamos a acompanhar a obra há décadas. Mas é, salvo erro, a primeira vez que ganha tamanha projeção política internacional. Esta apropriação criativa de diferentes universos fantásticos mostra-nos que o imaginário é também um lugar de existência, onde se fabricam muitos dos objetos políticos não identificados que alimentam as lutas contemporâneas.
A isto junta-se a importância crescente das redes sociais e das ferramentas de inteligência artificial. Desde o início das mobilizações em França, têm surgido inúmeras recriações de personagens de One Piece, caricaturando figuras políticas como Emmanuel Macron, o ministro do Interior, Laurent Nuñez, e o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu. Num desses vídeos, faz-se referência ao Buster Call, uma operação militar extrema utilizada pelos fuzileiros navais no universo de One Piece, numa alusão à possibilidade de mobilização do exército para conter os manifestantes. E, efetivamente, durante o ato II de 24 de outubro, militares da operação Sentinelle e o GIGN foram mobilizados e um helicóptero das forças de segurança sobrevoou zonas das manifestações. Tudo isto enquanto a extrema-direita incentivava o recurso ao exército para reprimir os manifestantes. A ativação destas referências do universo pop é também uma das muitas formas encontradas pelos jovens para denunciar a brutalidade com que a polícia os tem tratado. Desde o início dos protestos, há adolescentes que perderam uma mão ou a visão de um olho, entre outros casos de ferimentos graves. Enquanto os estudantes se manifestam para denunciar a falta de condições dignas para estudar, o Estado francês continua a investir milhões de euros em equipamentos destinados à sua repressão.
Como não ver no recurso ao multiverso, através da inteligência artificial, para fabular vitórias, uma forma de intervenção política? Ao deslocarem o poder político para uma arena digital dominada por grandes empresas capitalistas, transformam-no num adversário que podem enfrentar e derrotar, ainda que simbolicamente, graças a recursos que têm em abundância: a imaginação e a criatividade. É a mesma geração, acusada de passar demasiado tempo no mundo digital e de ser obcecada pelos telemóveis, que tem levado milhares de pessoas às ruas, seja em França, seja noutras partes do mundo. Isto sem contar com os bloqueios, que exigem uma presença física precária, durante dias, à frente das escolas. Os espaços digitais e as ruas não são realidades excludentes, mas fazem parte de uma mesma arena de luta que qualquer mobilização política, nos dias de hoje, não pode ignorar sem correr o risco de se tornar obsoleta. E o próprio Estado francês, que tem tentado controlar esta arena de várias formas, parece reconhecer a sua importância política. Antes das manifestações de 24 de outubro, o Governo de Sébastien Lecornu chegou a pedir às principais operadoras de telecomunicações do país que se preparassem para suspender temporariamente o acesso a plataformas como TikTok, Instagram e Snapchat. Embora a medida não tenha sido aplicada, a tendência para a securitização e a censura do espaço digital é um sinal escurividente da atualização do tecnofascismo.
Os cartazes, as faixas, as bandeiras, os slogans, os grafítis e os cânticos sempre fizeram parte das mobilizações de rua. Contudo, o entusiasmo e a sofisticação com que os jovens desta geração, caricaturada como alérgica aos livros, se têm lançado na sua produção, introduzindo e cruzando referências diversas, exigem-nos um olhar mais complexo sobre estes objetos políticos. E, se o termo “novo” é sempre problemático, há aqui um contributo particular no que diz respeito à partilha e à transformação de conhecimentos, incluindo aqueles que lhes são ensinados nas escolas. Cada um destes cartazes pode render toda uma conversa sobre a história e o mundo contemporâneo. Porque não pensá-los também como um género literário?
A destacar, há também uma dimensão coletiva que atravessa tanto a produção como a própria autoria dos cartazes. Estes passam de mão em mão e circulam entre diferentes cidades, sem que se saiba necessariamente quem escreveu primeiro determinada frase. E os exemplos abundam. “A geração Six-Seven está a refazer o Maio de 68”, diz um. “Nós somos os netos dos argelinos que vocês não conseguiram afogar”, menciona outro, remetendo para 17 de outubro de 1961, quando, durante a guerra da independência da Argélia, a polícia francesa reprimiu violentamente uma manifestação de argelinos em Paris, tendo muitos deles sido mortos e alguns lançados ao rio Sena. Coincidência ou não, esta frase circulou nas manifestações de 17 de outubro, que levaram milhares de pessoas às ruas de Paris e de outras cidades francesas, numa mobilização que terá sido convocada no TikTok por um jovem negro conhecido como V2.95. Frases desta natureza, tal como o famoso ACAB (All Cops Are Bastards), aparecem também inscritas nas paredes de edifícios governamentais, nas fachadas de grandes superfícies comerciais, como o Carrefour, de lojas de luxo e nas estátuas coloniais. Não é por acaso que, no decurso destas mobilizações, até os cartazes foram apreendidos pela polícia e “ACAB” foi alvo de censura. Contudo, estes pequenos atos de resistência criativa, taxados de vandalismo, inscrevem, num espaço público cada vez mais policiado, uma expressão literária e política própria, tal como os jovens de outras épocas, incluindo os do Maio de 68, também fizeram.
“Como não ver no recurso ao multiverso, através da inteligência artificial, para fabular vitórias, uma forma de intervenção política?”
Apolo de Carvalho
Há mais de cinquenta anos, Amílcar Cabral, cuja geração travou uma luta anticolonial que levou à independência da Guiné-Bissau e de Kabuverdi, lembrava que, antes da criação do PAIGC, já havia muita gente que resistia, “fazendo versos ou outra coisa qualquer, como sinal de luta”. Cabral, para quem a luta de libertação era tanto um fato como um fator de cultura, entendia a ação desencadeada pela sua geração como fruto de “revoltas caladas” e de outras formas de resistência que atravessaram gerações, muito antes de a luta pela independência adquirir uma forma organizada. “A resistência do povo da Guiné e de Kabuverdi nunca cessou de se manifestar. Desde o período da escravatura, [...] o povo levantou-se várias vezes contra os senhores da terra e contra a dominação estrangeira. A nossa luta assume a sua substituição”. Ler as ações contestatárias numa perspetiva cabralista implica reconhecer a continuidade da luta, mesmo quando as diferentes gerações não partilham os mesmos meios de expressão ou de organização. Dos cânticos nas roças de São Tomé ao batuku, passando pela palavra escrita, em forma de poemas ou artigos, encontramos uma longa tradição de uso subversivo da palavra revoltada.
Esta atenção de Cabral ao tempo longo das resistências convida-nos a pensar as mobilizações da geração Z numa perspetiva sankofa. O entusiasmo com as lutas estudantis corre o risco de alimentar um certo presentismo, apagando não apenas as experiências que as precederam, mas também a sua dimensão intergeracional no presente. Em França, a presença de pais, professores e pessoas mais velhas nas manifestações, bem como a aproximação aos gilets jaunes e a sindicatos como a CGT, exigem que olhemos para estas lutas não como um fenómeno exclusivamente da geração Z, mas como uma aliança entre gerações.
O grupo de estudantes africanos que Mário Pinto de Andrade designou como a geração de Cabral era também formado por jovens, muitos deles na casa dos vinte anos, que experimentaram diferentes formas de mobilização e organização, com repercussões para lá das fronteiras coloniais. Na mobilização para a independência, tanto nas suas deslocações pelas tabancas da Guiné como nas zonas libertadas, Cabral procurou envolver todas as gerações: os mais velhos, cujo apoio concreto considerava fundamental para a luta, e as crianças, a quem chamava as flores da revolução e que considerava a razão da nossa luta. Cabral ensinou-nos que podemos aprender com todos, com todas as gerações, seja no dissenso, tensionando formas de ver e fazer que já não respondem às exigências da realidade concreta, seja no consenso, acrescentando novas camadas a esta espiral de lutas. “Quem sabe, ensina quem não sabe”, logo, todos podem ensinar e aprender.
Se estabeleço este paralelo entre a geração de Cabral e a geração Z, não é, obviamente, para forçar uma aproximação entre lutas que tiveram circunstâncias e objetivos diferentes. Cabral lembrava-nos que, por mais bela e atraente que fosse a realidade dos outros, a nossa própria realidade só poderia ser transformada através do seu conhecimento concreto, dos nossos esforços e dos nossos sacrifícios. A libertação nacional e a revolução social, como estruturava, “não são mercadorias de exportação”. Se invoco Cabral, é porque encontro no seu pensamento esta perspetiva intergeracional e esta atenção a um tempo sankofa das resistências, que nos ajudam a pensar para melhor agir sobre o presente e a agir para melhor pensar esse tempo presente.
Quando os estudantes da Guiné-Bissau protestam contra o aumento das propinas nas escolas superiores públicas e exigem o direito à educação, não estamos perante as mesmas circunstâncias das mobilizações francesas, mas encontramos uma luta comum, transfronteiriça e transgeracional, pelo direito universal de estudar, mesmo diante das respostas repressivas do Estado.
Em Kabuverdi, os discursos e os atos combativos da geração Z pelo mundo interpelam-nos sobre o estado do poder reivindicativo da juventude, numa sociedade cuja história é povoada de grandes revoltas e de múltiplas formas de resistência. A expressão “Ribon Manel, ómi faka, mudjer matxadu, mininu tudu ta djunta pedra” documenta, por si só, essa tradição rebelde, ao convocar homens, mulheres e crianças para a luta. Contudo, como exigir às gerações mais novas que reconheçam e ativem essa herança se nem sempre lhes contamos essa história? Uma perspetiva sankofa da luta, atenta à dimensão intergeracional que encontramos no pensamento de Cabral, exige também a abertura e a vulgarização desses arquivos, ativando-os enquanto “armazéns do povo”. Sem a possibilidade de se nutrir da sua própria história, será muito difícil à geração Z inventar as suas próprias formas de contestação, num contexto internacional em que os jovens têm feito das ruas tribunas populares de exercício da democracia.
“A luta antirracista tem, por isso, de ser também intergeracional, seja pelo direito à habitação, seja pela educação”
Apolo de Carvalho
Os arquivos e a memória histórica interessam também para pensar as recentes acampadas pelo direito à habitação, que têm feito das ruas de Lisboa e do Porto tribunas populares, com uma forte presença juvenil. A precariedade atravessa gerações, mas não atinge todas da mesma forma. E é exatamente isso que pontuava a atriz Nuna, num discurso no Rossio, durante a manifestação de 17 de outubro: a crise habitacional já existia quando não se alugavam casas “nem a pretos, nem a ciganos, nem a brasileiros”, sem que essa exclusão levasse a maioria a indignar-se. As lutas, seja pela educação, seja pela habitação, têm de ser radicalmente antirracistas e antixenófobas. Esse antirracismo, tal como noutras geografias, deve passar igualmente pelo cuidado com a linguagem utilizada para falar da precariedade. A palavra “negro”, por exemplo, não pode continuar a ser utilizada como sinónimo de uma realidade negativa, seja para descrever a repressão de uma manifestação, seja para caracterizar a própria precariedade habitacional.
Em França, no contexto das mobilizações estudantis, Pengo Bossio Wangi foi brutalmente assassinado em Trappes por um homem branco de nome Kevin, que disparou também contra Ramatou, uma menina negra de 12 anos, atingida por oito balas, e deixou outras pessoas feridas. A dimensão racista e islamofóbica deste atentado terrorista foi reconhecida pelas próprias autoridades francesas. A CNews, um canal sensacionalista, conhecido por difundir notícias falsas e discursos da extrema-direita, tem sido alvo de protestos e boicotes por parte dos manifestantes, que a acusam de cumplicidade na propagação de discursos de ódio. O racismo é uma velha receita, passada de geração em geração. A luta antirracista tem, por isso, de ser também intergeracional e estar no coração de todas as mobilizações populares, seja pelo direito à habitação, seja pela educação.
Hoje, talvez mais do que nunca, os mais novos têm muito a ensinar aos mais velhos, mas os mais velhos, enquanto arquivos vivos, também continuam a ter muito a ensinar aos mais novos. É neste espaço de conversação intergeracional que reside, talvez, a maior potência das nossas lutas.
As imagens das recentes eleições presidenciais brasileiras, com pessoas idosas de todo o país a deslocarem-se às urnas com a ajuda dos filhos e netos para votar em defesa da democracia, mostram de forma concreta a urgência e a força dessa comunhão entre gerações. Fanon escreveu que “cada geração deve, numa relativa opacidade, descobrir a sua missão, cumpri-la ou traí-la”. Mas essa missão não diz respeito apenas às gerações mais novas ou às que ainda estão por vir. Nenhuma geração comprometida com a luta se aposenta da sua missão histórica. Todas têm uma missão a cumprir enquanto estiverem vivas e habitarem este nosso baixo mundo. O que Fanon, Cabral e tantos outros nos dizem é que o futuro do mundo não é propriedade exclusiva da juventude, como os discursos e relatórios neoliberais nos têm repetido sucessivamente; pertence a todas as gerações, sem exceção. E é na aliança intergeracional e futurista entre a geração neta e a geração avó, como ensinava Nêgo Bispo, que encontramos a energia para “abandonar a Europa”, no sentido fanoniano do termo, e forjar novos projetos de sociedade.
É uma tarefa de urgência, pois o fascismo e a extrema-direita estão aí e têm-se organizado para matar. A unidade que precisamos de construir tem de romper com as hierarquias geracionais e propor novas formas de fazer política. Todos sabemos que não basta mobilizar as gerações, não basta que as ruas se inundem de gente. É preciso, cada vez mais, “organizar, organizar, organizar”, como diria Kwame Ture, mas também panafricanizar. A questão é saber se conseguimos reconhecer, com humildade e honestidade, as formas de organização e os contributos que cada geração, à sua maneira e na sua diversidade interna, tem vindo a oferecer à luta. A unidade continua a ser o nosso maior recurso, mas, não sendo inesgotável, não podemos tomá-la como garantida nem desperdiçá-la.
Unir todas as gerações não significa, contudo, unir-nos a todas as pessoas: há divergências ideológicas históricas que não podem ser postas de lado em nome de uma ideia romântica de unidade. Invoco de novo Cabral, que, segundo Mário Pinto de Andrade, num encontro realizado em 1950 com antigos dirigentes da Casa de África Portuguesa, perante a recusa de João de Castro em romper com o poder colonial, terá declarado: “Todos os africanos honestos devem deixar esta sala”. A unidade exigia, naquele momento, uma rutura com aquele mais velho. Mas essa rutura não implicava romper com uma geração inteira, mas sim com aqueles que, dentro ou fora de qualquer geração, impediam o surgimento do novo. E o novo, como nos ensinam as lutas, é sempre antigo.
Parafraseando Césaire, um mais velho de outra geração, termino dizendo que os jovens em França, no Brasil, na Sérvia, em Madagáscar e no Nepal, entre outros lugares, sabem que possuem uma vantagem sobre as forças capitalistas e as suas milícias. Sabem que esses supostos donos do mundo mentem. E que, por isso, são frágeis. E, sendo frágeis, podem capitular.
Em verdade, em verdade, vos digo: bismillah, c’est les Lumières!
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